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Médicos se recusam a receitar remédios de laboratórios que doaram à campanha de Dilma

Profissionais dO AM e de outros Estados do Brasil exortam colegas nas redes sociais a não prescreverem remédios de laboratórios que patrocinaram a campanha petista 17/11/2014 às 08:35
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Comentários nas redes sociais mostram a decisão dos médicos
luciano falbo Manaus (AM)

Pela rede social Facebook, médicos estão propondo boicote aos laboratórios que doaram para a campanha da presidente reeleita, Dilma Rousseff (PT). Em uma comunidade virtual na rede, intitulada Dignidade Médica, usuários que se dizem médicos ou estudantes de medicina batizaram o boicote de ‘Operação ABCDE’ – a sigla junta as iniciais das empresas farmacêuticas e do primeiro nome da presidente (Ache, Biolab, Cristália, Dilma e Eurofarma).

Em Manaus, o cirurgião Lano Macedo publicou na sua página e na comunidade virtual que não receitaria mais medicamentos das empresas doadoras da campanha petista. O médico escreveu na publicação de 2 de novembro que os medicamentos desses laboratórios sairiam do seu receiturário de prescrição “pois, os mesmos (laboratórios) fizeram doações para a campanha dos PTralhas”. “Vou me solidarizar com o colega e também não irei mais receber os representantes destas empresas no meu consultório”, escreveu, ao compartilhar uma carta em que um suposto médico alerta que também não vai mais receber os representantes das empresas e receitar os medicamentos.


No final de sua publicação, o médico orienta seus amigos virtuais: “Vamos compartilhar o máximo possível, para que os colegas de todo Brasil saibam o que está acontecendo. Fora Dilma!!!! E leve o PT junto...”. Apesar disso, o cirurgião afirma que não se trata de um boicote. “Nesse texto, não tem apologia ao boicote. Se você for ler com calma, vai ver que é uma opinião pessoal”, disse.

Questionado sobre ter expressado sua opinião em um espaço público, Lano Macedo admitiu que não houve “inocência” na publicação. “Se eu tivesse falado como outros colegas, ‘vamos boicotar, vamos todos entrar em boicote’... Eu estou falando para você, não há inocência nisso. Eu também não sou hipócrita. Isso é um movimento e eu participei ativamente do movimento político. Não sou do PSDB, mas participei desse movimento contra a candidatura da presidente. Isso é pessoal, e não é pessoal do Lano, é pessoal de 400 mil médicos brasileiros”, disse.

Lano Macedo afirmou que raramente recebe visitas de representantes das empresas. Segundo o médico, não há risco para os pacientes porque o que estão deixando de prescrever é o nome comercial do medicamento e não sua base farmacológica. De acordo com o médico, as universidades já ensinam os alunos de medicina a prescrever a base farmacológica e não o medicamento. Macedo, porém, reconheceu que alguns medicamentos de mesma base, mas de laboratórios diferentes podem ser mais eficazes que outros. “Se você entrar no meu padrão de prescrição, tirando um ou outro medicamento que você sabe que, realmente, o efeito é aquilo, a maioria é só base”, disse. O médico afirmou não ser filiado a nenhum partido político.

‘Prescrevemos princípio ativo’

A pediatra Patrícia Sicchar, que também atua em Manaus, é uma das administradoras da comunidade Dignidade Médica, afirma que o médico é livre de prescrever o melhor medicamento para seu paciente e a base farmacológica. “Repito que prescrevemos princípio ativo dos medicamentos e não marcas de laboratórios. Prezamos por uma saúde de qualidade e não o enriquecimento de laboratórios”, afirma. “Compartilho de que o povo brasileiro merece um bom atendimento e ter seu dolo amenizado e curado da melhor forma”, acrescenta.

“Os médicos do Brasil não desistirão de seu País. E lutarão contra esta política bolivariana de implantação de um falso socialismo em que os trabalhadores são penalizados e os infratores são tidos como heróis”, defende. A médica tacha de eleitoreiro o programa Mais Médicos, o qual afirma que mantém os médicos cubanos em regime de escravidão e que 80% dos seus ganhos vai para o governo dos irmãos Castros. “É um risco para a nossa população, pois estes profissionais não revalidaram seus diplomas e realmente não sabemos o tipo de profissional e sua capacidade técnica”, defende.

De acordo com Patrícia Sicchar, a classe médica brasileira é contra a forma de atuação do governo Dilma. “Que prioriza apenas a manutenção da pobreza. Não prioriza o indivíduo. A saúde do Brasil pede socorro! O investimento em saúde é pequeno”, afirma. “Hoje, os municípios e Estados trabalham no seu limite, devido à responsabilidade fiscal e o Governo Federal se faz de desentendido”, acrescenta.

Patrícia Sicchar afirma que o Dignidade Médica foi criado em 2010 com a finalidade de encurtar as distâncias e melhorar a comunicação entre os médicos e estudantes de medicina do País. “Hoje, sabemos o que acontece com a saúde, com as universidades, em tempo real, em qualquer parte do Brasil. O grupo ajudou a unir a classe médica que há décadas estava dispersa”, afirma.

O portal IG revelou, no mês passado, que o grupo foi usado para publicar mensagens que pregavam, entre outras coisas, castração química e extermínio de pobres e nordestinos porque, em tese, teriam dado a vitória a Dilma Rousseff. Depois da reportagem, as publicações foram apagadas. Segundo Sicchar, as publicações podem ter sido feitas por “milícias cibernéticas do PT” infiltradas no grupo.

CRM diz que irá apurar conduta

O Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CREMAM) vai apurar a conduta dos médicos na rede. “O colega tem o livre arbítrio de escolher o que vai prescrever, o que não quer dizer que ele pode deixar de prescrever um medicamento. Isso porque têm medicamentos que só alguns laboratórios podem produzir e não se pode prejudicar um paciente por causa disso, por um ato político”, afirmou o presidente do conselho, o cirurgião vascular José Bernardes Sobrinho.

Para o presidente do órgão, os médicos devem saber separar a atuação política da profissional. “Cada colega tem direito de votar em quem quiser e fazer propaganda, mas jamais usando ato médico para isso”, disse, Sobrinho.

“O colega não pode ficar pregando que não vai prescrever para um ou outro laboratório porque financiou A, B ou C. Não se pode prejudicar um paciente por um problema ideológico, político. O paciente é vítima da situação”, afirmou José Bernardes, ao revelar que os médicos podem ser advertidos. Ele também disse que os médicos não têm autorização para publicar manifestações na página do conselho.

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