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Cotidiano
Família no poder

Mesmo preso, Adail emplaca filhos na prefeitura e irmã e sobrinho na Câmara

Ex-prefeito, que está há mais de dois anos e meio em prisão preventiva em Manaus, elegeu os filhos como prefeito e vice-prefeita de Coari, uma irmã vereadora e reelegeu um sobrinhho 05/10/2016 às 05:00
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Adail Filho assumirá, a partir de janeiro, o comando do município mais rico do interior do Amazonas auxiliado pela irmã, a vice-prefeita eleita Mayara Pinheiro, pela tia vereadora eleita Jeany Pinheiro e pelo primo vereador reeleito Keiton Pinheiro (Arte: Thiago Rocha)
Aristide Furtado Manaus

Mesmo preso há dois anos e oito meses em um quartel da PM em Manaus numa investigação por  pedofilia, o ex-prefeito Adail Pinheiro conseguiu, no domingo, retomar o controle político do município mais rico do interior do Amazonas, a partir de 2017, por meio da eleição dos seus filhos como prefeito e vice-prefeita de Coari, de uma de suas irmãs como a vereadora mais bem votada da cidade e da reeleição de um de seus sobrinhos para a Câmara Municipal. Além de um grupo de vereadores.

Mais jovem prefeito eleito este ano, o estreante em disputas eleitorais,  Adail Filho, 24 anos, que mora em Manaus,  sentará, a partir do dia 1º de janeiro, na cadeira que foi ocupada pelo pai, em três mandatos que ganharam destaque na imprensa nacional pelos escândalos de exploração sexual de crianças e adolescentes protagonizados pelo ex-prefeito e por conta da operação Vorax, da Polícia Federal, que desarticulou uma quadrilha especializada em fraudes em licitações. Da operação, realizada em 2008, resultou, em  junho de 2015 a condenação de 20 réus, um deles, acusado de chefiar o esquema, o irmão de Adail, Carlos Eduardo Pinheiro, que até hoje encontra-se foragido da Justiça e figura da lista de mais procurados da Interpool.


Na prefeitura, que administra além dos repasses constitucionais e obrigatórios decorrentes do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e do Imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (ICMS), os milhões repassados pela Petrobras de royalties pela exploração de petróleo,  Adail Filho contará com o auxílio da irmã, a médica de 29 anos Mayara Pinheiro, também debutante em cargos eletivos. Embalados pelo prestígio do pai e o apoio de caciques políticos  como o empresários Francisco Garcia, o prefeito eleito que pertence ao PP, e sua vice-prefeita, filiada ao PMDB, do senador Eduardo Braga, venceram a disputa com quase 60% dos votos contra 26,3% do atual detentor do cargo, o empresário Raimundo Magalhães, que assumiu a prefeitura em abril do ano passado.

Para o Legislativo, a família Pinheiro garantiu assento com eleição da irmã de Adail, Jeany Pinheiro (PP), a  mais votada do pleito com  1.204 votos. O sobrinho do ex-prefeito, vereador Keitton Pinheiro, emplacou mais um mandato. As duas  coligações das quais os dois fazem parte (PP, PMDB, PT e DEM - PTB, PSL e PPL) elegeram no total seis vereadores: Cristiam Pereira (PP), Samuel Castro (PTB), doutor Adeva Cordovil (PTB), Ewerton Medeiros (DEM). Outro sobrinho de Adail, Neto Pinheiro (PP), concorreu a uma vaga na Câmara, mas ficou na terceira suplência de sua coligação.   

Royalties em queda

Principal alvo das disputas eleitorais em Coari os recursos oriundos dos royalties da exploração  petrolífera na base do rio Urucu vem apresentando queda desde 2015 por conta da baixa cotação internacional do preço do barril do petróleo. Em 2013, o município recebeu 88,4 milhões de repasses da Petrobrás. Em 2014, esse valor subiu para R$ 90,2 milhões. No ano passado, caiu para R$ 59,8 milhões. E até julho deste ano, foram repassados R$ 26,9 milhões.

Histórico de instabilidade política

O município mais rico do interior do Amazonas também é o campeão em instabilidade política e escândalos eleitorais. Em julho de 2009, o prefeito eleito para suceder Adail, Rodrigo Costa, que havia sido vice-prefeito dele na gestão de 2005 a 2008, teve o mandato cassado  por abuso de poder político e econômico. No dia das mães do ano anterior, Adail distribuiu R$ 4 milhões em brindes no dia das mães.

No mesmo ano, Arnaldo Mitouso (que foi condenado em 2011 pela morte do ex-prefeito Odair Carlos Geraldo em 1995), foi eleito numa eleição suplementar acompanhada por Adail da cadeia. Ele foi preso por não fornecer novo endereço à Justiça em processos que tramitavam na comarca. Em 2012, apesar dos escândalos de corrupção e das acusações de pedofilia, Adail conseguiu o terceiro mandato. Ficou no cargo até o dia 8 de fevereiro de 2014, quando se entregou à polícia em Manaus. Depois de o caso de exploração sexual de crianças ganhar destaque nacional em matérias do Fantástico e das audiências da CPI da Pedofilia do Congresso no  município o MP pediu a prisão preventiva de Adail, que se prolonga até hoje.

Em fevereiro de 2015, o vice-prefeito Igson Monteiro renunciou. O comando do município passou por três vereadores. Em março daquele ano, o TSE oficializou a cassação de Adail e deu posse ao segundo colocado no pleito de 2012, Raimundo Magalhães, depois de uma guerra judicial.

 

Família Bemerguy domina região do Alto Solimões

O predomínio de famílias na política no interior do Estado produziu um caso curioso na região da tríplice fronteira. A eleição de dois irmãos para comandar os municípios de Tabatinga (a 1.105 quilômetros de Manaus) e de Benjamim Constant (a 1.116 quilômetros da capital), Saul Bemerguy (PSD) e David Bemerguy (PR), respectivamente. Ambos já havia passado pelo cargo em mandatos anteriores.

David que já havia sido vereador, eleito vice-prefeito em 2008 na chapa encabeçada por José Maria da Silva Júnior, assumiu a prefeitura de Benjamin Constant no início de 2012. No domingo, ele bateu atual titular do posto Iracema Maia da Silva (PSD) com 63% dos votos (9.694) contra 32,1% da adversária (4.939). A partir de janeiro comandará o município que possui 40.417 habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O empresário e ex-prefeito Saul Bemerguy  já governou Tabatinga no período de 2009 a 2012. Duas de suas contas desse período, a de 2009 e 2011 foram reprovadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Mas entrou com recurso de reconsideração junto à corte. Ele foi eleito com  42,7% do total de votos contra 26,8% de Carlos Donizete do PSDC e 26,2% do Professor Jorge do PTN. “Temos um compromisso como o povo tabatinguense, e nossos projetos de campanha serão levados adiante, principalmente na área de infraestrutura viária e saúde. Essas são áreas que vamos investir bastante”, disse o prefeito eleito em texto enviado à redação.

No Alto Rio Negro, em Santa Isabel do Rio Negro (a 631 quilômetros de Manaus), Eliete Beleza (PSD) que governou o município no mesmo período em que o marido dela, Ribamar Beleza (PMDB) adminstrou o vizinho município de Barcelos (a 396 quilômetros da capital) não conseguiu se eleger. Perdeu para Arail do do Nascimento, o Careca (PMDB). Eliete foi prefeita de 2005 a 2012. Ribamar de 2000 a 2004. E de 2009 até este ano.  

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