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Cotidiano
SETEMBRO AMARELO

Mídia e saúde pública: a parceria que pode salvar vidas à base da informação

Informar sobre a prevenção é um grande passo para ajudar as pessoas que sofrem. Veja vídeo em que jovem mostra sua história de superação 21/09/2018 às 19:27 - Atualizado em 22/09/2018 às 10:05
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acritica.com* Manaus

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 32 pessoas se suicidam, diariamente, no Brasil. No Amazonas, 90 pessoas interromperam a própria vida no primeiro semestre de 2018, conforme os dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM). Em 2017, foram 186 mortes contabilizadas no Estado. 

A quantidade de casos no Amazonas representa uma parcela relativamente pequena, se comparada aos números nacionais. No entanto, não se pode ignorar o fato de que o Estado está inserido em um contexto maior, em que os números variam de região para região, compondo resultados mais expressivos e que merecem ser debatidos. Com o objetivo reduzir esses índices e conscientizar a população acerca do problema, a Campanha Setembro Amarelo, este ano traz o tema “Doe um minuto, mude uma vida”, como resultado do diálogo entre a mídia e a saúde pública.

O número de casos se mantém similar, quando comparado ao quantitativo do primeiro semestre de 2017, no qual 83 pessoas cometeram suicídio. Confira:

Quebrando o tabu

Os meios de comunicação que compõem a mídia passam por um processo de convergência. Televisão, rádio, internet, jornais impressos, cinema, panfletos, outdoors, indústriamusical, entre outros. Tudo o que atinge a massa populacional parece integrar-se, cada vez mais. Diante disso, a mídia exerce um papel social na vida de milhões de pessoas. A divulgação de informações funciona como prestação de serviço ao público que as recebe. Tratando-se de um problema de ordem social, como o suicídio, acredita-se, ainda nos dias atuais, que divulgar o assunto nos meios de comunicação pode incentivar ainda mais casos. Por esse motivo, alguns veículos se limitam a propagar informações superficiais a respeito do tema. Em contrapartida, diante do crescente número de casos, essa postura começa a mudar. Já é possível encontrar discussões relacionadas ao assunto em alguns canais de comunicação.

A mídia reforça o apoio à causa.  Segundo a jornalista Markilze Pereira, a busca é pela visibilidade às informações que podem ajudar pessoas a enfrentarem situações difíceis. “O nosso papel é levar a informação que possa diminuir esses índices. Divulgar informações que possam mudar pensamentos. Acima de tudo, o jornalismo tem papel social”, destacou. 

A jornalista acrescenta, ainda, que o tabu de falar sobre suicídio nos grandes veículos vem diminuindo com o passar dos anos, e reforça a capacidade da televisão de precaver esse tipo de ato.

“Depressão, crises de ansiedade e síndromes do pânico são males presentes, atualmente, e nós, como jornalistas, não podemos fechar os olhos quanto a isso. Devemos usar nossa mídia para o bem. Quem sabe a pessoa que está precisando de ajuda, liga a TV e tem uma notícia que pode ajudá-la a tirar esse sofrimento”, exemplificou Markilze.

O rádio, ainda um forte meio de comunicação, em meio à explosão da internet, também tem um papel fundamental no que se refere à conscientização. As ondas sonoras levam uma gama de informação e contribuem na divulgação de orientações sobre prevenção ao suicídio.  “Temos quebrado paradigmas e divulgado, insistentemente, o tema, tanto em reportagens quanto em entrevistas, sempre de maneira impessoal, sem tratar de casos isolados. Acredito que, assim, a gente consiga ajudar sem incentivar”, descreveu o radialista  Orlando Câmara. 

Orlando também explica que os meios de comunicação locais podem contribuir, ainda mais, com orientações ao público.

“A mídia precisa se posicionar com mais firmeza sobre o assunto, sem ‘personalizar’ o suicídio de determinada pessoa, pois, quando isso acontece, não colabora com a discussão mais cidadã em relação ao tema”, pontuou Câmara.

Os resultados comprovam que citar os casos de suicídio sem buscar dar a eles o peso que merecem, apenas tratando de forma banal não resolve o problema. O suicídio é um ato individual, fruto de fatores externos. Ou seja, deve sim ser visto e abordado de forma mais acurada.

Por que falar?

As orientações disseminadas pelos meios de comunicação são direcionadas a todos, inclusive aos familiares e amigos de pessoas que apresentam comportamento suicida. Saber lidar com aqueles que demonstram sinais é essencial para a superação do problema. Foi como agiram os amigos da jovem Débora Alves (nome fictício), de 22 anos, que tentou tirar a própria vida em abril de 2017. Após dar à luz a um bebê, Débora se viu sozinha e entrou em um estágio de depressão. 

“Depois que tive meu bebê, fiquei sem o apoio do pai, então achei que não teria mais uma vida normal e que ficaria sem amigos. Foi quando tentei acabar com tudo”, relatou.

Felizmente, a jovem continuou viva e contou para seus amigos sobre a tentativa de encerrar a própria vida. Estes lhe deram apoio e souberam ouvir suas angústias. 

“Eles me confortaram com palavras e me fizeram perceber que eu não estava sozinha. É muito bom quando existem pessoas boas ao nosso lado, que nos incentivam a crescer e nos mostram que nós temos muita vida pela frente”, celebra Débora. 

Como ajudar?

O Centro de Valorização da Vida, criado em 1962 em São Paulo oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo de forma voluntária e gratuita às pessoas que necessitam de um ‘ombro amigo’ em todo o Brasil. Sob sigilo, os pedidos de ajuda podem ser feitos por meio do telefone 188.

Além disso, um olhar mais atento ao comportamento do outro, pode salvar vidas. Com algumas orientações é possível identificar pessoas com comportamento suicida. Segundo o psicólogo Afonso Brasil Jr., existem características que podem ocasionar o que o profissional chama de tendência suicida.

“O pensamento suicida pode ser externalizado através de um discurso literal como ‘Eu vou me matar’, ‘Não aguento mais viver’, ou de um discurso alusivo como ‘Estou cansado de tudo’ ou ‘Gostaria de não existir’”, descreve Afonso.

Outras características destacadas pelo psicólogo são: comportamentos de isolamento social; ausência de vontade diante de coisas que outrora traziam prazer; e humor dissimulado, caracterizando esforço para aparentar felicidade.

Afonso acrescenta que, desde sempre, a morte é tida como um tabu social, de modo que, na crença popular, acaba por atraí-la para quem fala. Se para o senso comum, falar da morte (ainda que natural) já é proibido, falar da morte como algo auto infligido parece ter um peso duas vezes maior, principalmente na mídia.

“Acontece que esta crença está incorreta e traz grande prejuízo para o combate e auxílio a respeito do suicídio.  Claro que, se tratando das mídias, há necessidade de cuidados na propagação das informações, pois maior é o alcance”, pontua.

Em linhas gerais, existem profissionais especializados para auxiliar nesse processo de melhora. Se um amigo, um familiar ou um conhecido está dando indícios de que desejar findar sua vida, esteja ao lado, escute e auxilie no que puder. E, mais que isso, incentive à busca por apoio profissional. Cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física. 

“A ‘cura’ vem através da fala, então o importante é falar. Evitar falar não está evitando que suicídios ocorram. É hora de uma nova abordagem midiática orientada por profissionais qualificados”, finalizou o psicólogo.

Mais do que apresentar dados e estatísticas, a mídia exerce a função de incentivar debates e reflexões acerca dos dilemas vivenciados na sociedade. Na abordagem de conflitos sociais, mais especificamente, de temas que envolvem a prevenção ao suicídio e outros problemas relacionados a ele, como os casos de ansiedade e depressão, cabe aos meios de comunicação em massa, além de informar, estabelecer um diálogo que reforce a parceria entre profissionais de saúde, veículos e público receptor, para fins de sensibilizar o maior número possível de pessoas.

A conexão entre essas três esferas ajuda a reescrever roteiros que antes pareciam estar chegando ao fim, e transformá-los em histórias de recomeço, com capítulos de superação e expectativas de um presente/futuro mais bonito.

Confira no vídeo a história de superação de um guerreiro que após tentar tirar a própria vida, renasceu. Comunicar é a solução!

*Trabalho de autoria dos alunos Alan Marcos Oliveira, Clinsman Moreira Brito, Emily de Souza Maduro, Julia Lucia Barroso Rodrigues, Naritha Karla Migueis Cavalcanti,  Rebeca Beatriz dos Santos Santos, da Uninorte, como fruto do concurso de jornalismo universitário 'Suicídio e o Papel da Mídia.

 

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