Domingo, 25 de Outubro de 2020
ENTREVISTA

Mônica Portugal fala sobre como mitigar o sofrimento diante da Covid-19

A psicanalista e escritora mantém clínicas em Manaus e Fortaleza. Ela conversou com A Crítica sobre os relatos de ansiedade, insegurança e tristeza, que aumentaram bastante durante a pandemia



IMG-20200813-WA0078_36898BDF-985C-46A7-8C61-92D67372E523.jpg Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal
19/08/2020 às 10:43

Nas clínicas que a psicanalista e escritora, Mônica Portugal, mantém em Fortaleza e em Manaus, são comuns os relatos de que as sensações de ansiedade, insegurança e tristeza profunda aumentaram diante das incertezas causadas pela pandemia do novo coronavírus. Cearense de nascimento e amazonense de coração, Mônica é autora de dois livros, um mais acadêmico, chamado “A formação do analista – um sintoma da psicanálise”, e outro infanto-juvenil, “Menino Tupé e a “Caça do Pirarucu”, inspirado nos netos amazonenses. Recentemente, ela escreveu um artigo intitulado “A psicanálise e o isolamento na pandemia”, em que discorre como a psicanálise pode ajudar a mitigar as sequelas emocionais causadas pelo período pandêmico que vivemos. Ela conversou, por e-mail, com A CRÍTICA sobre os principais pontos discutidos em seu artigo.

 



A CRÍTICA - O que te motivou a escrever o artigo “A psicanálise e o isolamento na pandemia” e distribuir na internet?

MÔNICA PORTUGAL - O texto foi escrito para informar que a psicanálise pode ajudar pessoas em situação de sofrimento, e sobretudo informar que o momento atual é delicado. É preciso observar com muito cuidado e atenção as pessoas de nosso convívio, pois há muita ansiedade e muito medo pairando no discurso. A comunidade precisa se informar para exigir políticas públicas de saúde, as quais contemplem meios para que profissionais possam escutar pessoas em situação de risco, sobretudo crianças, adolescentes e mulheres vitimadas pela violência doméstica.

 

A CRÍTICA - Em dado momento, a senhora diz que a crise de saúde pública foi intensificada pela crise econômica que, entre as consequências, elevou o número de desempregados no País. O que dizer às pessoas que estão extremamente ansiosas ou depressivas porque perderam emprego e acumularam dívidas nos últimos meses?

MÔNICA PORTUGAL - Cada um responde de modo singular ao desemprego ou a perda de dinheiro por conta da quarentena. A resposta vem a partir da própria queixa do sujeito, construída por ele próprio. Contudo, ele está inserido no laço social; ele é afetado não só pelo desemprego e o endividamento, mas também por um discurso que exige muito de cada um.

A CRÍTICA – Como assim?

MÔNICA PORTUGAL - Vivemos numa sociedade individualista, em que até mesmo o lazer se torna um peso - como se todos estivéssemos sobrecarregados em ter que mostrar “estados ideais” de felicidade e eis que agora o sujeito é instado a responder de modo ainda mais isolado, isto é, primeiro, sem o arrimo de um sentimento de comunidade, de solidariedade, mas num clima de “cada um por si”. Segundo, como “se mostrar” bem para o mundo exterior (nas redes sociais, por exemplo) diante de uma fragmentação do que parecia ser uma ordem já plenamente estabelecida?

 

A CRÍTICA – Isso pode explicar, em parte, por que andamos tão ansiosos desde o início da pandemia no Brasil?

MÔNICA PORTUGAL - A ansiedade pode surgir por diversos fatores, e a sensação de impotência diante de um quadro que não depende apenas de cada um, mas de todos, pode intensificar esse estado.

 

A CRÍTICA – Qual seria o caminho para atenuar esse estado de ansiedade?

MÔNICA PORTUGAL - O fortalecimento dos laços sociais, e isto no momento não implica necessariamente a presença física, mas uma mudança de postura no discurso, de modo que a cooperação comunitária possa ter vez e lugar. O outro precisa ter importância na vida de cada um, pois não sobrevivemos sem o outro. O ser humano precisa de seu semelhante.

 

A CRÍTICA - "Por que corremos, ou por que não temos tempo nem para respirar?", a senhora questiona em seu artigo. O isolamento social deixou a nossa rotina ainda mais corrida que antes? 

MÔNICA PORTUGAL - O isolamento social pode mostrar o quanto corremos, pois além de termos que dar conta das tarefas usuais ligadas ao trabalho, enfrentamos as tarefas domésticas, as demandas das crianças e sobretudo corremos para estarmos “presentes” em todos os lugares virtuais onde somos demandados. No isolamento, somos impactados pelo frenesi da presença, só que desta feita, virtual. Há pessoas que reagiram bem e que não intensificaram o seu ritmo, mas há uma queixa generalizada acerca da falta de tempo.

 

A CRÍTICA - Em relação ao “home office”, quais seriam as consequências observadas dessa ausência de fronteira entre trabalho e casa?

MÔNICA PORTUGAL - Uma das consequências é a percepção de que não há mais o privado, e isto vem somado ao fato da expansão do horário de trabalho e da precariedade deste. Aquilo que poderia ser um bônus, acaba se transformando num ônus. Num primeiro momento, a pessoa até se anima e diz, “pelo menos estou em casa e fico mais tempo com a família, evito o trânsito etc.”. Num segundo momento, a pessoa já se vê meio que “aprisionada”, pois muitos precisam dar conta de um percentual maior de tarefas justamente por conta do trabalho ser feito em casa.

A CRÍTICA - A senhora concorda que a quarentena evidenciou que a ansiedade é um dos maiores males do nosso tempo?

MÔNICA PORTUGAL - Posso afirmar que sim, pelo que escuto na minha clínica. A ansiedade parece ter se tornado ainda mais evidente com a quarentena. Ressalto que cada sujeito tem uma resposta diferente ao lidar com mudanças em relação ao que lhe era familiar. Com a quarentena, esse sujeito [ansioso] se percebe mais acuado. O quadro da doença, das mortes, da ausência de respostas a curto prazo, da guerra de informações, de indefinições em relação ao seu futuro e de seus familiares, enfim, há algo desconhecido para o sujeito que a realidade da quarentena lhe revela de modo drástico. Os estados depressivos também se somam entre os males do nosso tempo.

 

A CRÍTICA - Com o isolamento social e, consequentemente, a intensificação das relações pessoais e profissionais pela internet, estamos fadados a nos tornarmos cada vez mais distantes e solitários?

MÔNICA PORTUGAL - Acredito que esse quadro depende de como agirmos neste momento para modificar a nossa relação com o outro. Não se trata de uma perspectiva de longo prazo, mas do agora. O isolamento social por conta da Covid-19 evidenciou o que já vem há muito acontecendo: estamos nos fechando em “guetos”, “tribos”, “condomínios”, “identidades” etc. Estamos criando muros em relação ao contato com o outro, mesmo que esse outro esteja diante de cada um de nós, pois o contato com dezenas de outros ao mesmo tempo, pelas redes sociais, e o desejo de reconhecimento de todos esses outros, na virtualidade, nos distancia daquele que está diante de nós, face a face. Esse fechamento resulta que só importa aquilo que defende a minha “tribo” ou a minha “identidade”, sendo que princípios universais os quais deveriam nortear uma democracia, no campo político, por exemplo, são colocados de lado.

 

A CRÍTICA - Por outro lado, com a abertura do comércio, há muitas pessoas voltando ao "novo normal" com entusiasmo, se reunindo em bares e balneários, sendo que a orientação ainda é a manutenção do distanciamento social. À luz da psicanálise, como podemos explicar essa falsa sensação de que o vírus não é mais um risco, mesmo sem vacina e medicamento comprovadamente eficaz?

MÔNICA PORTUGAL - Respondo a partir desse “novo normal”, pois o que há de novo nesse “normal”, senão a velha tentativa de esconder a terrível percepção do sintoma social? Ou seja, há algo na sociedade que não anda bem, mas isso precisa ser colocado debaixo do tapete. Nesse caso, a pergunta seria por qual razão corremos riscos? Será que fatores econômicos antecedem valores relacionados à vida? Estamos pagando um preço alto em manter um discurso que tenta negar a realidade e nesse aspecto, Sigmund Freud [considerado o "pai da psicanálise"] foi enfático ao esclarecer que a psicanálise não coaduna com a ilusão. É como se tivéssemos diante de um recalque coletivo. 

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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