Domingo, 15 de Dezembro de 2019
RISCO À SAÚDE

Morte de professor por picada de cobra expõe baixo estoque de antídoto no AM

Antônio Claudino, de 32 anos, morreu após ser picado por uma surucucu, em Japurá. Hospital em que ele foi atendido teve que usar todas as 10 ampolas de soro antiofídicos disponíveis



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01/11/2019 às 18:30

O professor de matemática Antônio Claudino Lopes da Silva, de 32 anos, morreu nessa quinta-feira (31), em decorrência de uma picada de cobra ocorrida no município de Japurá (distante 744 quilômetros de Manaus). O servidor foi picado por uma surucucu numa área de mata fechada e, segundo a direção do hospital Mayara Redman Abdel Aziz, demorou cerca de cinco horas para chegar à unidade e ser socorrido. No entanto, a repercussão do caso nas redes sociais acabou revelando um problema grave: o estoque baixo de soro antiofídico nos hospitais do interior do Amazonas.

Boa parte dos comentários feitos por moradores de Japurá na Internet questionava o estoque baixo de soro antiofídico nos hospitais do interior, o que pode ser fatal no socorro imediato a pacientes picados por cobras, que podem ficar com sequelas ou até mesmo morrer. A Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), de fato, confirmou que já distribuiu todo o estoque de soro para os municípios esse ano.



De acordo com uma servidora da Prefeitura de Japurá, que pediu para não ser identificada por medo de represálias, durante o atendimento do professor Antônio Claudino havia apenas dez ampolas de soro antiofídico disponíveis no hospital de unidade mista Mayara Redman Abdel Aziz.

‘’Ele tomou todas as dez para poder ser encaminhado para outro município próximo, Maraã, e lá ficou internado quatro dias sem que tomassem alguma providência. Na última quarta-feira, 30,  às 16h, ele foi encaminhado para Tefé já em estado grave e se queixando de muita dor. Mas para o encaminhamento acontecer, a família dele teve que fazer cota para comprar gasolina’’, relatou.

A servidora disse ainda que o município de Japurá tem um ótimo hospital, mas padece com a falta de profissionais para atuar. ‘’Temos que nos humilhar para outros municípios para sermos atendidos e muita vezes somos mal tratados por sermos de outra cidade’’, disse.

A Secretaria Municipal de Saúde de Japurá informou, por meio de assessoria, que o professor recebeu todo o tratamento necessário com soro antiofídico no hospital do município, além de uma dose suplementar na Unidade Mista de Maraã, e, com o agravamento da situação, o paciente foi transferido para o Hospital de Tefé.

A pasta explicou ainda que entre o momento do acidente e o paciente conseguir chegar na unidade hospitalar demorou cerca de cinco horas, o que contribuiu para o agravamento do quadro de saúde do professor, que não resistiu e acabou falecendo.

Estoque baixo

Questionada pelo Portal A Crítica sobre o estoque baixo de soro antiofídico no interior do Amazonas, onde acidentes ofídicos (picadas de cobra) são comuns, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam) explicou, em nota, que o fornecimento de soro para os municípios do interior é realizado pelo Ministério da Saúde, o que não ocorre desde janeiro desse ano.

‘’A Fundação de Vigilância em Saúde aguarda o repasse do soro pelo Governo Federal, com previsão de regularização em dezembro’’, diz um trecho da nota.

A explicação do Ministério da Saúde para a dificuldade no repasse do soro antiofídico na quantidade necessária para os estados é que os laboratórios produtores começaram as adequações estruturais para cumprir as normas definidas por meio das Boas Práticas de Fabricação (BPF), exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).


Todo o estoque de soro antiofídico no Amazonas já foi distribuido para as unidades hospitalares. Foto: Divulgação 

Picadas de cobra no AM

Segundo levantamento da FVS-AM, até agosto de 2018 foram registrados 1.348 acidentes por serpentes no Amazonas contra 1.576 casos no mesmo período de 2019, o que representa uma aumento de 17% no número de casos. O número de mortes por picadas de cobras aumentou de seis, ano passado, para oito até agosto de 2019.

Primeiros-socorros

De acordo com o diretor de Ensino e Pesquisa da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), Weulton Marcelo Monteiro, no caso de uma picada de cobra, a pessoa deve buscar imediatamente assistência de um hospital. Quanto antes melhor.

“A pessoa não deve colocar nada em cima da ferida, nenhum remédio caseiro. O máximo que a pessoa pode fazer é lavar com água e sabão. Lembrando que o hospital que ela deve procurar em Manaus é a Fundação de Medicina Tropical. No interior, cada município tem um hospital com o soro. Somente os hospitais têm esse soro’’, orientou.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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