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Cotidiano
VALE DO JAVARI

MPF e PF investigam denúncia de que índios do Javari foram mortos por garimpeiros

Caso ganhou repercussão internacional e acendeu o sinal de alerta sobre crescimento desenfreado de garimpos ilegais 11/09/2017 às 20:20 - Atualizado em 11/09/2017 às 20:56
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Pelos menos 16 grupos de indígenas isolados vivem na reserva (Foto: Gleison Miranda/AFP)
Kelly Melo Manaus (AM)

 A denúncia de um massacre de índios que vivem isolados na Terra Indígena (T.I) do Vale do Javari, a segunda maior T.I do País, no município de São Paulo de Olivença (AM), pode servir como um “sinal vermelho” para o crescimento desenfreado de garimpos ilegais na região. Desde o mês passado, o Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF) investigam o envolvimento de garimpeiros nas mortes dos índios, conhecidos como “flecheiros”. O caso tem ganhado repercussão na imprensa nacional e internacional.

 A preocupação de especialistas e ativistas do movimento indigenista com a expansão de atividades mineradoras, da  caça e até do tráfico de drogas na região não é nova. Pelo menos 16 grupos de índios que vivem isolados habitam a reserva e o contato deles com  não-índios é conflituoso e, por vezes, mortal.   

A denúncia sobre o massacre  foi apresentada por funcionários da Coordenação da Fundação Nacional do Índio (Funai) do Alto Solimões  e Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari ao MPF, em agosto,  após ouvirem relatos de garimpeiros falando sobre o ataque. 

Os garimpeiros chegaram a ser presos e conduzidos  a Tabatinga para prestarem depoimento, em cumprimento de mandado de busca de apreensão, mas eles não confirmaram as mortes. De acordo com a denúncia encaminhada ao MPF, o massacre ocorreu nas proximidades dos rios Jandiatuba e Jutaí, perto da fronteira com o Peru (a 1.000 km de Manaus). 

O coordenador substituto da Frente de Proteção do Vale do Javari – entidade ligada a Funai -, Gustavo Serra, destacou que a denúncia é grave e que precisa ser apurada com cautela. “O caso está sendo investigado e estamos em busca de provas concretas porque até o momento, nenhum corpo foi encontrado. Sem dúvidas, isso é muito grave e temos que ter cuidados com as informações”, explicou ele. 

Conflitos

Apesar da cautela ao comentar sobre o denúncia do massacre, Gustavo Serra afirmou que existe uma preocupação da Funai com os povos indígenas que habitam na região do Vale do Javari porque algumas áreas começam a apresentar sinais de invasões por garimpeiros, caçadores e pescadores, o que pode gerar conflitos. 

“Até 2014, nós possuíamos uma base da Funai no rio Jandiatuba, mas com os cortes no orçamento, essa base foi desativada e, desde então, perdemos os controle sobre essa região. Antes de 2014, não havia registros de invasões nessas áreas mais isoladas. Porém, de lá para cá, já é possível encontrar vestígios de dragas nessas terras indígenas”, afirmou ele. 

A atividade garimpeira tem avançado sobre o rio, que corta três terras indígenas e é amplamente utilizado por índios isolados, conforme apontam monitoramentos da Funai.

Investigações seguem em sigilo

Em nota, a Funai informou que está empenhando todos os esforços para apoiar o MPF e a Polícia Federal nas investigações, apesar das dificuldades para chegar ao local. O procurador da República Pablo Luz de Beltrand, responsável pelo caso no MPF, não confirmou as mortes dos índios, mas afirmou que o  caso está sendo devidamente investigado.   “Instauramos um procedimento para apurar o caso e há diligências em curso, mas não é possível dar detalhes para não prejudicar a investigação”, explicou o procruador.

A Polícia Federal no município de Tabatinga (a 1108 quilômetros de Manaus), que preside o inquérito, também foi procurada pela reportagem de A CRÍTICA, no entanto, a instituição informou apenas que as investigações  estão em andamento e que por enquanto não pode dar informações sobre o caso. As investigações iniciaram no mês passado. 

Por se tratar de uma comunidade isolada, segundo a Funai, não há informações sobre como os índios “flecheiros” vivem e se comunicam. Eles ficaram conhecidos com esse nome por atacarem “brancos” com flechas em situações de conflito.  

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