Quinta-feira, 24 de Setembro de 2020
Pesquisa e saúde

Mudanças climáticas trazem mais doenças, afirma projeto da Fiocruz

Malária, Dengue e Leishmaniose são doenças tropicais que deverão ter a dinâmica delas alteradas pelas transformações do clima e afetar um grupamento maior de pessoas, revela estudo feito em 62 municípios



Clima.JPG Responsável pelo estudo no Amazonas, Júlia Menezes diz que mudanças já são uma realidade em nosso Estado (Foto: Aguilar Abecassis)
16/09/2016 às 14:02

As mudanças climáticas podem influenciar a dinâmica de algumas doenças, principalmente as infecciosas. Neste caso, as doenças transmitidas por vetores, a exemplo de Malária e Leishmaniose, podem ser especialmente influenciadas pelo clima, pois fatores como temperatura e precipitação são capazes de interferir no ciclo reprodutivo de insetos transmissores de doenças. A conclusão é de  uma pesquisa que identificou a vulnerabilidade à mudança do clima nos 62 municípios do Amazonas.

De acordo com o estudo, que faz parte do projeto Vulnerabilidade à Mudança do Clima realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), alguns municípios do Alto Rio Negro (região Norte), da calha do Solimões (Central), Região Metropolitana de Manaus (RMM) e porção Sul do Estado  foram considerados os mais vulneráveis à ocorrência desses eventos.  



O município de São Gabriel da Cachoeira, no Norte do Estado, foi o que apresentou a maior vulnerabilidade à ocorrência das doenças avaliadas devido, principalmente, a maior frequência de dengue e acidentes por animais peçonhentos. Os outros municípios com elevada vulnerabilidade nesse item foram Tefé, com alta incidência de Leishmaniose Tegumentar, Manaus (Dengue) e Humaitá (Leishmaniose Tegumentar).

A pesquisa – que é realizada em mais cinco Estados brasileiros: Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraná e Pernambuco -, também avaliou aspectos relativos à população que pode aumentar sua vulnerabilidade em situações de mudanças do clima futuro, dentre elas, está o número de idosos, crianças e de população ribeirinha em cada município. 

O que se observou foi que grande parte do Estado apresentou uma vulnerabilidade intermediária, com destaque para o município de Boa Vista do Ramos (calha do rio Amazonas), o mais vulnerável do Amazonas. Conforme o estudo, um dos fatores que contribuiu para esse resultado foi o elevado percentual de população com alguma deficiência e a presença de jovens como chefes de família.

Outros municípios, como os da Região Metropolitana (Manaus, Careiro da Várzea e Itacoatiara) e do Sul do Estado (Boca do Acre e Lábrea), também se apresentaram vulneráveis, por motivos diversos, dentre eles o elevado contingente de população idosa e infantil, de população ribeirinha e de mulheres chefes de família.

Integrante da equipe responsável pelo estudo, Júlia Menezes lembrou que a mudança climática é uma realidade e as perspectivas não são muito boas. Além disso, não tem como evitar à mudança do clima, mas pode trabalhar para se adaptar a ela. “O que podemos fazer agora é tomar medidas de adaptação para que a gente possa lidar com os impactos, se recuperar deles com facilidade e garantir a qualidade de vida para a população”.

Estimativas graves

No Amazonas, a região Nordeste do Estado poderá apresentar um aumento de 5°C na temperatura e uma redução de até 25% no volume de chuvas nos próximos 25 anos. Entre os municípios mais expostos à mudança do clima, nesse mesmo período, estão Careio da Várzea e Parintins, além da Região Metropolitana de Manaus, em virtude de desmatamentos, variações bruscas de temperatura e poluição.

Preparando a adaptação

Iniciado em 2014, o projeto “Construção de Indicadores de Vulnerabilidade da População como Insumo para a Elaboração das Ações de Adaptação à Mudança do Clima no Brasil” é um esforço conjunto do Ministério do Meio Ambiente e da Fundação Oswaldo Cruz para a elaboração de uma proposta de modelo de análise da vulnerabilidade dos municípios em relação aos impactos da mudança climática global.

Espera-se que seus produtos possam subsidiar a implementação do Plano Nacional Brasileiro de Adaptação às Mudanças Climáticas, sob a responsabilidade do Governo da União, e orientar as políticas públicas dos governos estaduais visando à proteção da população e seus territórios.

Informações importantes

Além da divulgação dos dados inéditos sobre as alterações climáticas no Amazonas, representantes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Minas Gerais e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) estiveram em Manaus, na última quarta-feira, para apresentar o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima e debater sobre as mudanças do clima do País e questões relativas à vulnerabilidade das populações. 

De acordo com o representante do Ministério do Meio Ambiente, Pedro Christ, o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima foi lançado em maio deste ano e tem quatro anos para ser inteiramente implementado. “O objetivo dele é reduzir os riscos do País à mudança do clima pensando num horizonte a longo prazo”, contou.

E são exatamente através de informações de pesquisas científicas que o governo federal elabora as ações. “É por meio desse tipo de estudo que promovemos articulações entre atores sociais, setores de planejamento do governo e a sociedade para levar informações a fim de que municípios e Estados possam desenvolver suas estratégias para enfrentar as mudanças”, explicou.

Ainda conforme Christ, o interesse do Ministério do Meio Ambiente em apoiar estudos sobre as mudanças climáticas, como o que identificou a vulnerabilidade à mudança do clima nos 62 municípios do Amazonas, é para que consiga desenvolver dentro do País uma visão crítica dos Estados, municípios e da sociedade como um todo sobre a adaptação ao fenômeno. 

“Dependendo da trajetória da emissão de gases de efeito estufa no mundo o clima vai se alterando e gerando impactos. A nossa preocupação é como se preparar para enfrentar esses impactos”, apontou. “A gente precisa saber quais são as mudanças para se preparar e antecipar soluções”, completou.

Pedro Christ afirma  que está na  hora do País se preparar para as mudanças (Foto: Aguilar Abecassis)


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