Domingo, 23 de Janeiro de 2022
Aquecimento global

'Imagem do Brasil não melhora só com promessa', diz cientista

Cientista Paulo Artaxo avalia que a COP26 deixou muito a desejar e que a percepção internacional sobre a política ambiental brasileira não mudará só com as promessas feitas na conferência



Paulo_Artaxo_A809D69C-190F-494A-AD69-9A9E237599B9.jpg Foto: divulgação
21/11/2021 às 08:38

Um dos cientistas mais respeitados do Brasil, principalmente nas questões que envolvem as mudanças climáticas, o físico Paulo Artaxo avalia que a 26ª Conferência do Clima promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) na semana passada deixou muito a desejar e que acabou prevalecendo “as necessidades da indústria do petróleo, do carvão e interesses corporativos”.

Crítico da política ambiental promovida pelo governo brasileiro, Paulo Artaxo ressalta que, apesar do país ter se comprometido a  reduzir o desmatamento, a percepção internacional sobre a maneira como o Brasil  lida com esse tema não melhorou. “A imagem do Brasil não melhora só com promessa. Nenhum diplomata vai olhar seu país de maneira diferente só por isso”, disse o cientista, que concedeu a entrevista abaixo.



A COP26 resultou na revisão de metas para amenizar a emissão do gás metano e o desmatamento em todo o mundo. Quão ambiciosas (ou não) são essas  revisões?

As novas metas ainda levam a um aquecimento da ordem de 2,4º a 2,7 º C, em média, no planeta. Essa projeção na Amazônia e no Brasil Central sobe para 3,5º C na segunda metade do século. Então, é extremamente alto, forte e absolutamente intolerável para o ecossistema. Essas metas ainda não alcançam 1,5 ºC [a cota mínima para evitar uma crise climática] apontada por cientistas. Faltou maior ambição dos países.
 

O que senhor destaca como pontos mais importantes da conferência deste ano?

 Os pontos onde as discussões mais avançaram foram o término do desmatamento de todas as florestas tropicais em 2030 e uma redução de 30% das emissões do gás metano. Como ponto negativo, temos a posição dos países ricos em não aceitar financiar e ajudar as nações em desenvolvimento a reduzir as emissões de gases do efeito estufa.  

Apesar da previsão para redução da emissão de gás metano e do desmatamento, o governo brasileiro não detalhou como irá alcançar essas novas metas. Como encarar isso? O senhor sente segurança nas palavras, a considerar todo o histórico da atual gestão federal no meio ambiente?

Vai depender de qual processo o governo brasileiro vai se empenhar na implementação da meta de desmatamento zero. Ou seja, quais políticas públicas vão ser aprovadas e implementadas em decorrência dessa nova meta de zerar o desmatamento. [Sobre acreditar ou não nessas promessas] é muito cedo ainda sem um plano concreto de como isso vai ser feito. Mas se não for o fortalecimento de sistemas de fiscalização da Amazônia pelos órgãos de controle ambiental do Brasil fica impossível. Falta agora o governo conversar com o Congresso Nacional e passar medidas que ajudem a alcançar esses objetivos.

O Brasil já chegou com uma péssima imagem na COP. O senhor avalia que esse aspecto mudou ao final? Está melhor ou pior?

A imagem do Brasil não melhora só com promessa. Nenhum diplomata vai olhar seu país de maneira diferente só por isso. Tem de ter medidas concretas e é isso que o Brasil está devendo. Então os governos todos estão esperando nosso país atuar nessa direção. 

Um dos principais pontos da COP26 foi o financiamento para que países em desenvolvimento consigam realizar sua transição verde. Em 2009, os países industrializados haviam prometido destinar US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020, mas as nações mais pobres não receberam esse dinheiro no ano passado. Além disso, este ano houve o pedido de países já afetados pelas mudanças climáticas para que países ricos os ajudassem com um fundo financeiro especial para lidar com os fenômenos climáticos. Essa questão de países ricos ajudando os mais pobres deve voltar a ser pauta na COP27? Como esse financiamento pode ajudar a evitar os efeitos das mudanças climáticas?

Esse assunto vai voltar sem dúvidas, porque é chave para os países em desenvolvimento.  Tenho certeza que será um dos principais da COP27, inclusive porque o evento ocorrerá no Egito, um país em desenvolvimento. A importância do financiamento desses países mais pobres é essencial [para evitar uma tragédia climática], porque nenhuma dessas nações consegue alcançar as metas sem auxílio externo.

O Brasil e o Amazonas já sentem os danos das mudanças climáticas, como tempestades de poeiras, grandes enchentes e outros fenômenos. Com base no que já está acontecendo, o que mais podemos esperar de consequências caso os países não consigam reverter os efeitos das mudanças climáticas? 

 Os eventos climáticos vão continuar a aumentar em intensidade e frequência, o que vai impactar economicamente a agricultura brasileira, como nas  grandes cidades. Sem dúvidas, o chamado ciclo hidrológico [que forma as chuvas] também será ainda mais prejudicado. 

Como a discussão sobre o mercado de carbono se fez presente na COP26? Tivemos avanços nesse ponto? 

O mercado de carbono foi muito discutido e agora está completamente regulamentado. O Brasil pode, se for inteligente, ter avanços importantes nessa questão, porque tem um potencial de sequestro de carbono muito alto, em particular no setor florestal. 

Como o Brasil pode ser uma potência no setor florestal do mercado de carbono?

O Brasil, com uma enorme extensão de florestas nativas, sequestra carbono através destas matas. Com isso, tem um potencial de vender créditos caso essas florestas nativas sejam incluídas nas negociações do mercado de carbono. O governo brasileiro pressionou muito para que isso fosse regulamentado na COP26, mas não conseguiu porque a codificação e a certificação são muito complicadas. 

Vimos indígenas e outras populações minoritárias no evento. Essa presença tem peso nas discussões sobre o clima e torna a COP mais democrática, ou é algo muito mais visual e pouco efetivo para as negociações?  

Obviamente aumentou muito a participação da população indígena, não só brasileira. Agora dizer que isso fez com que a COP26 fosse mais democrática eu acho um exagero. Aumentou sim [a participação dessas populações], mas os governos e as grandes empresas petrolíferas falaram mais alto.

Como o dinheiro e o poder político-econômico se entrelaça nas discussões dos países sobre mudanças climáticas? Os líderes estão mesmo preocupados com o meio ambiente ou há interesses mais ocultos? Quais?  

 Os interesses são econômicos. Seria muita ingenuidade pensar que mesmo o Brasil não tem os interesses econômicos. O que manda não são os interesses ambientais. Esse pensamento é que domina a nossa estrutura de hoje. São interesses geopolíticos. Muito mais que a questão do capital, são interesses geopolíticos legítimos. O Brasil foi à COP26 defender os próprios objetivos e a Índia e os Estados Unidos, por exemplo, fizeram o mesmo. 

Como o senhor resume a COP26?

É  evidente que essa COP deixou muito a desejar, porque nem de longe atendeu as necessidades da população do planeta. Atendeu muito mais as necessidades da indústria do petróleo, do carvão e interesses corporativos. Isso pautou toda a reunião. Agora o que esperamos é que, conforme vá aumentando a questão da emergência climática, e ela esta aumentando rapidamente através do impacto na produtividade agrícola e eventos extremos, com certeza os governos vão começar a olhar para a questão com outros olhos. Esperamos que os governos façam algo. 

O  que esperar da próxima conferência que ocorrerá no ano que vem, no Cairo?
A próxima COP vai ocorrer em um país em desenvolvimento e que faz parte do continente africano. Na África você tem bilhões de pessoas que não têm acesso à comida, energia de qualidade, e esse fosso social vai pesar muito mais na COP27. Por esse motivo, é de se esperar que tenhamos uma conferência mais focada em atender aos interesses da população como um todo.


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