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Cotidiano
REFORMA INDIGESTA

Mudanças no Ensino Médio aprovadas por Temer provocam muita aversão

Educadores do Amazonas divergem sobre o futuro da educação após a reestruturação, com o fim da obrigatoriedade de algumas disciplinas 20/02/2017 às 05:00
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Mudanças começam a valer na prática a partir do ano letivo de 2019. Foto: Evandro Seixas
Alik Menezes Manaus

Com a aprovação da reforma do ensino médio, educadores do Amazonas divergem sobre o futuro da educação após a reestruturação, com o fim da obrigatoriedade de algumas disciplinas. A Medida Provisória que institui a reforma do ensino médio, foi aprovada no Senado na última quarta-feira, por 43 votos a 13, e sancionada pelo presidente Michel Temer (PMDB), na quinta-feira.

Com 20 anos de experiência em sala de aula, o professor de história Robert de Souza Valois Batista, 49, acredita que a reforma é uma perda para a formação dos estudantes, que deixam de conhecer, por exemplo, a sua própria “terra”. “Nós precisamos conhecer a nossa região. Sem esse ensino, muitas pessoas vão deixar de conhecer, por exemplo, quando Manaus foi fundada e o processo para que isso acontecesse”, disse.

O educador defende que todas as disciplinas são importantes para o desenvolvimento intelectual e crítico dos jovens. Sem elas, a sociedade poderá ser formada por pessoas alienadas. “Essa reforma vai provocar uma alienação porque essas matérias que trabalham o intelectual, que deixam as pessoas críticas e que estimulam o pensamento serão praticamente excluídas”, disse.

Há seis anos trabalhando como professor de geografia, Cássio Daniel Ramos Aranha, 27, afirma que a educação do País está em luto com a aprovação da reforma. “Nós incentivamos a criticidade desses jovens por meio de argumentos que são conhecidos apenas nas disciplinas de humanas. Sem essas matérias, sem esses conteúdos, o aluno acaba perdendo todo esse pensamento mais crítico”, explicou o professor.

Para o educador, os alunos serão prejudicados em várias áreas da vida e, principalmente, no ingresso em uma universidade por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Hoje o Enem tem a interdisciplinaridade, por mais que esteja diferenciado, o aluno precisa saber o conteúdo de todas as disciplinas”, disse o educador, ao salientar que os estudantes podem ser prejudicadas a curto prazo.

A reestruturação do ensino médio tornará a educação deficiente, é o que acredita e defende a professora de filosofia Maria Icilda, 49, que leciona há três décadas em escolas públicas do Estado. “O jovem tem a ilusão que vai ser mais direcionado, mas na verdade ele precisa de todas as disciplinas. Uma coisa vai determinar a outra, está tudo interligado, as disciplinas não são estanques, o conhecimento não é estanque. Com essa reforma absurda, o conhecimento se torna capenga, deficiente e fraco, mas vai seguindo, só que de forma duvidosa”, disse.

Diferentemente dos professores de humanas, Thiago Gonçalves Rebelo, 29, professor de educação física há seis anos, acredita que a reforma da educação é positiva porque os alunos poderão se dedicar mais aos conteúdos de acordo com o seu perfil.

Com relação a possivel “fuga” de alunos que não tem tanta intimidade com as disciplinas de exatas e biológicas, Thiago acredita que não vai acontecer, mas haverá um direcionamento. “O aluno não será mais obrigado a estudar uma disciplina que ele não gosta. Com isso, o estudo será muito mais prazeroso e proveitoso e fará dele um profissional de excelência na área que escolher”, explicou o educador.

O secretário de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Rossieli Soares, que já foi secretário de Educação do Amazonas, lembra que, em todo o mundo, “o ensino médio é altamente diversificado e permite um amplo espectro de opções de estudo e formação para os estudantes, ao mesmo tempo em que procura assegurar os aspectos mais gerais da educação que se inicia no ensino fundamental e deve ter continuidade no nível médio até os 15 ou 16 anos de idade”. “O novo modelo de ensino médio trata da oferta de uma alternativa de formação média de nível técnico e profissional. Nessa proposta, essa formação deverá ocorrer dentro do programa escolar regular, que hoje só é possível nas escolas de tempo integral”, ressalta.

Alunos divergem sobre as mudanças
A reforma também divide as opiniões dos estudantes. De um lado há os que se animam com a possibilidade de focar o estudo naquilo que mais interessa e por outro lado, a preocupação com uma formação deficiente.

Na opinião do estudante do primeiro ano do ensino médio, Michael Souza Santos, 15, a reforma pode ser positiva, pois dá ao estudante a oportunidade de se dedicar as matérias que tem mais “envolvimento” e na área que pretende se formar. “Eu pretendo cursar engenharia, se eu me dedico mais em exatas tenho mais chances de me sair bem nas provas e conseguir entrar na faculdade”, disse o jovem.

Diferentemente de Michael, para o também estudante do primeiro ano do ensino médio João Carlos Machado, 16, a reforma do ensino médio limitará o estudo. “Eu ainda não sei o que irei cursar. Gosto de humanas e exatas, se entrasse hoje em vigor não sei o que faria”, explicou.

Principais mudanças
1. Ampliação da grade obrigatória, que passa de 800 horas para 1.400 horas anuais. Com isso, o governo pretende que 50% das escolas sejam de ensino de tempo integral até 2024.

2. 60% do currículo será preenchido pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os outros 40% ficarão a critério do aluno, que poderá escolher entre as cinco áreas de estudo: linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; ciências humanas e sociais aplicadas e formação técnica e profissional.3. Professores do chamado “notório saber” (que não tem formação superior, mas apenas curso técnico) poderão dar lecionar no ensino técnico . 4. Língua Inglesa passa a ser obrigatória a partir do sexto ano do ensino fundamental.

Rossieli Soares - Sec. Educação Básica do MEC
O modelo de ensino médio usado até então não desperta o interesse do jovem pela escola. Seja pela defasagem entre o ensino e a realidade cotidiana, seja pela falta de perspectiva de futuro e pelo excesso de disciplinas.

A falência do ensino médio atual pode ser medida pelos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), estagnado desde 2011, e pelo Pisa, avaliação internacional.

E, também, pelo número de jovens fora da sala de aula: 1,7 milhão de 15 a 24 anos não estuda e nem trabalha – é a geração “nem-nem”. O jovem estudante não vê sentido em frequentar a escola e nem em terminar os estudos, no formato existente no dia de hoje. Porque o modelo enrijecido é enfadonho e sem conexão com a realidade dele.

Silmara Guadalupe Souza - Mestre em Educação
Acredito que essa reforma está vindo em uma momento errado e sem muito planejamento. A gente deve repensar a educação. Nós não sabemos como essa forma vai acontecer na prática. Como serão distribuídas as aulas? Esse aluno vai ser orientado para selecionar as disciplinas? Será que esse aluno vai estar preparado realmente para o vestibular? Será que ele está preparado para escolher? Outro ponto polêmico é tirar certas disciplinas do currículo que são fundamentais para a formação. Acho que o governo está pensando mais no mercado de trabalho e não com um pensamento mais na formação intelectual e política. Nosso sistema de educação tem muitos problemas, mas tem muita coisa boa que pode ser aproveitada.

 

 

 

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