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Cotidiano
Tecnologia

Mulheres lutam por espaço no mercado da Tecnologia da Informação

Mulheres driblam preconceito e mostram competência no mercado de TI, majoritariamente masculino 05/03/2017 às 15:39
Show josy
A estudante Josy Martins conta que ouve ‘piadinhas’ por ser mulher em uma sala de aula onde 35 de 40 alunos são do sexo masculino (Foto: Jander Robson/Freelancer)
Geizyara Brandão Manaus

As mulheres têm lutado por cada vez mais espaço, representação e igualdade de gênero na sociedade o que, consequentemente, implica em áreas de atuação que predominam homens, como é o caso do mercado de trabalho de Tecnologia da Informação (TI). De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 20% dos profissionais de TI no Brasil são mulheres.

Finalista do curso de sistemas de informação e analista de sistemas da Fucapi, Josy Martins revela que no início teve receio em atuar na área predominantemente masculina.  “Ser minoria em qualquer lugar sempre traz receio, no entanto é questão de adaptação e representatividade”, enfatizou.

A principal dificuldade relatada por Martins é a minoria feminina na sala de aula, de 40 alunos somente cinco são mulheres e que não escapam de comentários indesejados. “Uma piadinha aqui, outra ali é geralmente comum, mas com competência de sobra, a tendência é pintar um cenário mais positivo e a resistência com certeza tende a diminuir”, disse.

Quanto ao mercado de trabalho, a universitária que trabalha em dois locais destaca que a diferenciação no trabalho entre homens e mulheres ocorre mais na questão de trabalhos “mais pesados”, onde há mais flexibilidade em funções relacionadas à programação, designers, entre outros.

Soraya Silva, que é formada em Sistemas de Informação e pós-graduada em Residência de Software - Engenharia de Software, revela que a maior dificuldade ao longo da carreira foi encontrar estágios que aceitassem mulheres, uma vez que as empresas solicitavam mais homens. 

Professora há 15 anos no Instituto de Computação (IComp) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Tanara Lauschner conta que existe um esforço atualmente de grandes empresas internacionais para atrair mulheres para a TI. “Existem estudos que os times mistos trabalham melhor e entregam produtos melhores do que os times que são feitos só por homens”, afirmou Lauschner.

Dentre os desafios enfrentados ao longo da carreira, Lauschner assegura que o preconceito faz parte da realidade das mulheres. “Uma profissão que é predominantemente masculina, dificilmente você não sofre preconceito”, contou.

Incentivos

Abrindo um espaço para as mulheres, a empresa mundial de serviços e soluções de TI Unisys já possui 24% do quadro de funcionários ocupados pelo sexo feminino, na região da América Latina são 885, sendo que 435 delas estão no Brasil. A Usisys pretende atrair ainda mais com ações direcionadas para mulheres atuarem no ramo. 

De acordo com a executiva Laura Lafayette, que lidera a área de Recursos Humanos da Unisys, a empresa possui uma ação interna de debate como forma de mostrar a valorização da mulher dentro da corporação.

Lafayette enfatiza, ainda, que a Unisys se destaca no mercado de trabalho por incentivar a participação do sexo feminino. A empresa foi homenageada pelo Fórum de Mulheres de Nova York por ter 40% dos assentos do Conselho ocupados por mulheres.

Cunhantãs Digitais

O Projeto Cunhantã Digital, criado em 2015, é a regionalização de um programa nacional denominado Meninas Digitais da Sociedade Brasileira da Computação (SBC). Segundo a professora e coordenadora Tanara Lauschner, o projeto atua em três frentes: antes, durante e depois da inserção da mulher no mercado de trabalho na área da Tecnologia da Informação (TI). Com o objetivo de desmistificar que a profissão é voltada apenas para homens, “Cunhantã Digital” trabalha no convencimento de meninas que ainda não escolheram a profissão a seguir para a área de TI. 

O segundo ponto é voltado para meninas que já estão cursando ciência da computação, engenharia da computação, sistemas de informação. “A gente tenta lidar com os problemas que elas enfrentam na faculdade, às vezes um preconceito ou outro, para a gente tentar mostrar que não tem que ficar se submetendo a certas coisas”, disse Lauschner.

No mercado de trabalho, com mulheres que já se formaram e estão trabalhando na área de TI são feitos debates sobre a profissão que é exercida por maioria masculina. De acordo com a coordenadora do projeto, nos dois anos de existência do projeto ainda é difícil mensurar os resultados, mas que questões que passavam despercebidas. “A gente tenta trabalhar isso também (empoderamento feminino)”, comentou a professora.

“Perceber e enfrentar” é o lema que norteia a importância do projeto. “Muitas vezes as situações são tão corriqueiras que nem se percebe”, contou Tanara.

BLOG

Ana Pliopas - Coach executiva
“Você olha os números e tem muito poucas mulheres na liderança, muito poucas mulheres em tecnologia, exercendo o poder.  [...] Aqui nós temos uma cultura mais avessa. Uma das coisas que as organizações têm, e é um papel delas, é trazer para a discussão de uma maneira consistente esse assunto. [...] Para mudar certas coisas é preciso falar sobre o assunto e falar de uma maneira muito transparente. [...] São as pequenas atitudes que se tem no dia-a-dia que prejudicam o desenvolvimento da carreira da mulher. Tenho esperanças que daqui a duas ou três gerações isso vai mudar”.

Mulheres, mães e empresárias

Posição de liderança também é um dos pontos do mercado de trabalho que são comumente representados por homens e as mulheres precisam fazer um esforço a mais para garantirem o cargo que ocupam. Os relatos das CEO’s das startups Trustvox e But First Coffee para o +DINHEIRO ressaltam esse fato.

A CEO da Trustvox, Tatiana Pezoa, relata que no início de carreira precisou lidar com a maternidade e com o início do empreendimento, além de lidar com homens investidores. “Você tem que sempre mostrar muito mais serviço, muito mais experiência, muito mais conhecimento de um determinado assunto do que talvez um homem. [...] às vezes a mulher precisa ter uma atitude mais masculinizada para ser ouvida”, disse.

A sensação de ser analisada sem atentarem para as suas competências era constantemente percebida por Tatiana.  “Eles são muito detalhistas, acho que se fosse um ‘Tatiano’ e não uma Tatiana, talvez eles não fossem tão duros, tão firmes como é comigo”, contou.

Durante a trajetória até ocupar o cargo de CEO But First Coffee, Rachel Casmala revela que sempre se sentiu pressionada, ainda mais sendo mãe. “Acho que a gente tem que trabalhar muito mais para construir uma reputação, você tem que acertar muito mais. É como se o cara nascesse com essa reputação pronta”, disse.

A empreendedora afirma que chegou a contar quantas vezes, durante uma reunião, ocorria a interrupção da fala de mulheres, que ganhou destaque na sociedade com o termo “mansplaining”, junção das palavras “man”, homem, com “explain”, explicar. 

Tanto Tatiana quanto Raquel possuem a mesma opinião quando se trata da importância de mulheres ocuparem cargos relevantes nas empresas. “A importância é o equilíbrio, uma sociedade sem mulheres nas lideranças de trabalho masculinas, a sociedade perde”, comentou Casmala.

Número
85% das mulheres empreendem, de acordo  com uma amostragem de 1,3 mil em todo o território brasileiro, realizada pelo Fórum Empreendedoras.

 

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