Sexta-feira, 03 de Julho de 2020
crise do coronavírus

Multinacionais de internet, fármacos e eletrônicos crescem enquanto a automotiva despenca

Pandemia afeta multinacionais de maneiras diferentes. As automotivas, de aeronaves, os segmentos de petróleo e de energia, moda e de joias estão perdendo



yamaha_EC87062F-6DD3-49A1-BF95-44C7BC40C326.jpg Yamaha da Amazônia retomou atividades no final de abril adotando medidas de prevenção à covid-19, enquanto a Moto Honda suspendeu o funcionamento. Foto: Junio Matos/Free lancer: 23/jan/2020
17/05/2020 às 17:34

O polo de duas rodas, que emprega diretamente mais de 13 mil trabalhadores na Zona Franca de Manaus (ZFM), foi um dos setores que já sentiu os impactos da pandemia do novo coronavírus. Em abril, a produção de motocicletas caiu 98,4% registrando a fabricação de apenas 1,4 mil unidades. Segundo lideranças da indústria, perdas também foram registradas nos setores de eletroeletrônico, metalúrgico e mecânico.

O presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas e Bicicletas, Marcos Fermanian atribuiu a estagnação da produção de motos a paralisação de 70% das fabricantes do Polo Industrial de Manaus (PIM). Em março, quando o vírus foi identificado no Amazonas, a produção de bicicletas recuou 8,3% na comparação com o mesmo período de 2019 sinalizando um efeito da pandemia, enquanto no varejo a venda de motos teve retração de 0,8%. Fermanian disse ainda que com o cenário atual as projeções para 2020 do segmento de motocicletas serão revistas.



“O mesmo está acontecendo com o polo eletroeletrônico. As fábricas em sua grande maioria estão trabalhando com 50% ou 60% da sua capacidade porque também os grandes revendedores de eletroeletrônicos estão fechados. Tem alguns supermercados com produtos, mas têm outros que não permitem essa venda. Quem está trabalhando 100% no polo é de 5 a 6% das indústrias”, declarou o  presidente do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco.

Queda

Em março, a produção industrial no Amazonas apresentou queda de 11%, em relação ao mês anterior, a maior redução mensal dos últimos quatro anos, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O fenômeno não é exclusivo do Estado. A produção industrial recuou nos 15 locais pesquisados pelo órgão na passagem de fevereiro para março.

Estudo, feito pelo centro de pesquisa do banco italiano Mediobanca, mostrou que a pandemia afeta as multinacionais de forma diferente. Multinacionais da Internet ("WebSoft"), varejistas, do setor farmacêutico e de eletrônicos são grandes ganhadoras, enquanto a indústria automotiva, fabricantes de aeronaves, os segmentos de petróleo e de energia, moda e de joias são perdedores com queda acentuada no volume de venda.

Descartáveis

De acordo com Périco, a produção de itens descartáveis revendidos em farmácias, medicamentos e de Equipamentos de Proteção Individual no PIM estão registrando ganhos. Ele afirmou que o Brasil nos principais segmentos de atuação 95% são de multinacionais e frisou que a ZFM reúne alta participação de capital multinacional.

“A indústria só vai poder voltar a sua atividade depois que acabar o isolamento social e não se sabe qual vai ser o tamanho desse mercado. Grandes empresas têm condições de passar por esse momento com menos dificuldade que as micro e pequenas. O maior número de fechamento deve ser das micro e pequenas empresas e chegar até as médias dependendo do segmento de atuação”, disse.

Automação

A presidente da Associação do Polo Digital de Manaus, Vânia Capela, pondera que a automação de processos auxilia na produção e minimiza o risco de contaminação dos profissionais. Capela citou ainda que nas áreas de suporte, planejamento, recursos humanos e compras da fábrica pode ser adotado soluções tecnológicas para viabilizar o home office.

“O mais difícil é a linha de montagem que precisa fisicamente das pessoas. Processos produtivos também podem ser automatizados. Não vejo que as nossas indústrias estejam buscando isso nesse momento, mas é uma possibilidade”, declarou.

Uma só parada

Levantamento do Cieam e do Sindicato da Indústria de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares revelou que do total de 19 associadas apenas uma empresa do polo eletrônico está com 100% da atividade industrial. Desse total, grande parte opera com 20% a 80% da sua capacidade. A pesquisa mostrou ainda que quatro empresas do Distrito Industrial, sendo três do setor de duas rodas e uma do eletroeletrônico, estão sem produção industrial.

Blog: Nelson Azevedo, vice-presidente da Fed. das Indústrias do Amazonas

“A nossa grande preocupação é o que poderá acontecer após isso. Até lá quem conseguirá aguentar? As multinacionais têm recursos e temos que nos preocupar com as outras empresas e pensar na cadeia como um todo. Enquanto a indústria tradicional, que produz bens de consumo duráveis que não são produtos de primeira necessidade, está completamente paralisada porque não tem pedido e as lojas e revendas não estão abertas, as fábricas que estão ganhando musculatura são as que estão investindo na produção de fármacos, álcool em gel, equipamentos de proteção individual em geral e respiradores. Nas empresas, que convivo, de metal mecânico e material elétrico, que inclui o polo de duas rodas, vai ser uma queda muito acentuada em termos de produção e mais de 80% a 90%. Tem impacto nos seus fornecedores locais e nacionais que estão parados. As empresas estão se planejando, programando e acredito que nós não seremos nunca mais o que éramos. O momento é de pensar para melhorar. São nas dificuldades que aparecem grandes oportunidades”.

Análise: Osíris Silva, economista, empresário e escritor

A queda da produção do setor de duas rodas é um reflexo do que está ocorrendo com os demais setores do Polo Industrial de Manaus (PIM) porque a ponta, o consumidor, não está funcionando. O comércio está com 80% das atividades paralisadas e não há venda.

A venda online ainda vai demorar no Brasil, e em muitos outros país, a se consolidar como tendência. Nos Estados Unidos muitas cadeias atacadistas e varejistas de grande porte estão fechando as portas. A indústria está fazendo o possível para sobreviver nesse mar tempestuoso que estamos atravessando.

Como vai ficar o emprego depois da pandemia? Assim como a academia Atala que fechou as portas outras atividades também. O cenário é de muita incerteza no plano nacional e internacional. Certeza e segurança só teremos quando for descoberta, testada e aplicada a vacina. Enquanto isso vamos passar por momentos de muita turbulência.

Como conciliar a preservação da vida e a economia? Um sem o outro não sobrevive. No Brasil, é a politização da pandemia. Uma situação que não se vê em nenhum lugar do mundo. A grande maioria (segmentos da indústria) está registrando perdas. As grandes cadeias produtivas do Distrito Industrial ou estão paralisadas ou com suas linhas de produção reduzidas a escala mínima. Se o PIM naufragar imagina o que vai acontecer com a nossa economia e com a arrecadação estadual, que já está despencando 30%.

Temos que ter um plano alternativo para complementar o PIM e formularmos uma nova dinâmica econômica. Isto é uma coisa que pode ser feita agora e é de responsabilidade do governo do estado junto com a Suframa.

Comentário: Carlos Geraldo Feitoza, CEO e diretor-executivo do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico

A área de telecomunicações teve um impulso muito grande. A demanda nesse momento são por equipamentos e tecnologias na área de informática seja laptop, celular para fazer videoconferências, equipamentos para prover uma internet com velocidade. Deve-se a forma que temos para trabalhar, estudar, se comunicar e manter o contato com as pessoas nesse isolamento.

A área de televisores continua em uma alta boa porque a pessoa, se puder, compra uma televisão melhor com mais recursos. Destaco os equipamentos de diversão e lazer em casa como videogames. Tudo aquilo que é voltada para área de TI e telecomunicações está em um momento crescente. Empresas estão vendendo diretamente da fábrica ao invés de entregar para distribuidoras, as lojas, e elas venderem. Algumas empresas estão fazendo pacotes corporativos.

Antes da pandemia, já era discutido, nos últimos anos, a quarta revolução industrial com mais informatização, automação, tecnologias e outros fatores voltados para segurança industrial e menos pessoas. A quantidade de pessoas que vão ter que buscar novos empregos é muito grande. Não é somente na indústria. É em todas as profissões. Muitas carreiras vão encerrar e muitas vão começar. As pessoas vão ter que passar, obrigatoriamente, por um novo ciclo de estudo e formação. Somou-se a revolução (industrial) essas mudanças aceleradas de comportamentos em função da pandemia.

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Repórter de A Crítica

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