Quarta-feira, 28 de Julho de 2021
Emissão de gases

Município amazonense está entre os que mais emitem gases de efeito estufa no Brasil

Lábrea está em 7º lugar em um ranking de dez cidades brasileiras



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09/03/2021 às 12:58

O município de Lábrea (distante a 702 quilômetros de Manaus) ocupa a sétima posição dos dez municípios que mais emitem gases de efeito estufa (GEE) no Brasil. Segundo estudo da primeira edição do SEEG Municípios, realizado pelo Observatório do Clima, Lábrea emitiu 13,77 milhões de toneladas brutas de gás carbônico equivalente (CO2e) para a atmosfera em 2018. O município que mais emite no Brasil é São Félix do Xingu (PA), com 29,7 milhões de toneladas brutas de CO2e no mesmo ano.

O SEEG calculou as emissões de gases de efeito estufa de todos os 5.570 municípios brasileiros. O levantamento cobre todos os anos de 2000 a 2018 e é detalhado para mais de uma centena de fontes de emissões nos setores de energia, transporte, indústria, agropecuária, tratamento de resíduos e mudanças de uso da terra e florestas.



Além de Lábrea em 7º lugar, outros quatro municípios amazonenses figuram entre 25 maiores emissores de Gases de Efeito Estufa (GEE) no país, para o ano de 2018: Novo Aripuanã (14º), Apuí (15º), Manaus (16%), Manicoré (25º). Segundo o professor e coordenador do Atlas ODS Amazonas, Henrique Pereira, a alta emissão de gases de GEE se deve as "mudanças de uso de terra e floresta" nos municípios do interior.

"Com exceção de Manaus, essa alta emissão de gases de efeito estufas dos outros municípios se deve ao setor de mudanças de uso da Terra e Floresta que em outras palavras são as emissões provocadas pelo desmatamento e pela degradação florestal. Quando se retira a floresta para dar à terra um outro uso, o carbono e nitrogênio estocado nas árvores e no solo são liberados para a atmosfera pela decomposição da matéria orgânica. Por causa das termoelétricas, Manaus seria o município que mais teria emitido GEE oriundo desse setor no país, naquele ano", comentou o professor.

Pereira ressalta ainda para as graves consequências que esta alta emissão de CO2e podem trazer para a sociedade, como o aquecimento global.

"O dióxido de carbono é o principal gás de efeito estufa. Então o aumento de sua concentração e dos demais GEEs na atmosfera causa o 'aquecimento global' que é o aumento da temperatura média da atmosfera. Esse aquecimento é ocasiona o que se convencionou chamar mudanças climáticas. Na nossa região, essas mudanças se manifestam na forma do aumento da intensidade e da frequência dos eventos hidroclimáticos extremos, tais como estiagem prolongadas, cheias ou vazantes intensas dos rios e de chuvas torrenciais", destacou Pereira.

Queimadas na Amazônia

Questionado se as queimadas na Amazônia que ocorreram entre 2019 e 2020 podem influenciar no aumento do índice apontado pelo estudo feito em 2018, o professor que é ecólogo, pontuou que as queimadas não devem mudar substancialmente o nível de emissões de gases de efeito estufa. O que deve ser levado em consideração é que as queimadas geralmente acontecem em áreas de florestas primárias, trazendo o balanço das emissões ainda mais negativo.

"Se a vegetação derrubada irá ou não ser queimada isso não muda substancialmente o nível das emissões. Com o tempo, as árvores mortas irão ser decompostas pela ação dos microrganismos (i.e., fungos e bactérias, principalmente) e assim o carbono será liberado para a atmosfera pela 'respiração' dos organismos decompositores. Da mesma forma, quando expiramos, estamos liberando o gás carbônico resultados do nosso metabolismo celular. Se houver a queima, o que acontecerá é que uma parte do carbono e do nitrogênio que estava estocado nas árvores vivas serão transformados imediatamente em gases de efeito estufa durante o processo de combustão, acelerando as emissões. O importante aqui é ressaltar que a maior parte das queimadas nesses municípios acontece em áreas de desmatamento de florestas primárias e não em florestas em regeneração. Isso torna o balanço das emissões ainda mais negativo. É bom lembrar que é a floresta (árvores e microrganismos) que retira o carbono da atmosfera e estoca esse elemento nos caules, folhas, raízes que depois irão ser transformadas no carbono orgânico guardado no solo", pontuou o ecólogo.

Sustentabilidade e combate ao desmatamento

Apesar dos índice alarmantes, Henrique Pereira afirma que ainda é possível correr contra o prejuízo. Entre os trabalhos que devem ser feitos para reduzir o número de emissão de gases estufa no Amazonas, destacam-se o uso da "enegia limpa" e o combate ao desmatamento.

"No caso de Manaus, principalmente a mudança da matriz energética para fontes não poluidoras ou emissoras, ou seja, menor dependência dos combustíveis fósseis para a geração de energia. No caso dos municípios do sul do estado com altas taxas de desmatamento seria a adoção de práticas agrícolas e pecuárias mais sustentáveis e combate ao desmatamento ilegal", acrescentou o professor.

Inovação

Esta é a primeira vez que se enxerga as emissões na esfera municipal, e a primeira vez que um levantamento desse tipo é feito para um país grande. Segundo o estudo, o objetivo é aumentar o conhecimento de prefeitos, câmaras de vereadores e da sociedade local de todo o país sobre a dinâmica das emissões e prover uma ferramenta para o desenvolvimento de políticas de desenvolvimento municipal com redução de carbono.

Para Pereira, o estudo contribui significativamente para que os propríos municípios atuem no combate às mudanças climáticas e na adoção da sustentabilidade.

"Esse levantamento é inédito, no mundo, e é uma grande oportunidade de os municípios se tornarem eles mesmos atores importantes no combate às mudanças do clima e nas inciativas de desenvolvimento local sustentável pois passam a contar com informações relevantes e estratégicas para o planejamento de ações para a transição para economias de baixo carbono", contou.

Pereira destacou ainda que a Meta 15.2 do Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS 15), para o Brasil inclui até 2030, zerar o desmatamento ilegal em todos os biomas brasileiros. O projeto Atlas ODS Amazonas demonstra com os dados que Lábrea é o município com a maior área desmatada do Estado. (https://datastudio.google.com/u/0/reporting/1NQ8DDia861LPJ-2mSL4HN1WvmXcT5_Mo/page/jzbt)

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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