Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
GAFE

'Na Amazônia, nós temos 87% de Mata Atlântica', diz ministro das Comunicações

Gafe foi cometida por Fábio Faria durante entrevista ao vivo, nessa quinta-feira (9). Os biomas citados pelo ministro são diferentes e não participam da mesma realidade geográfica



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10/07/2020 às 11:39

Em entrevista ao canal de televisão CNN, o ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD-RN), afirmou que existe 87% de Mata Atlântica na Amazônia, e que Manaus é o destino para turistas do mundo inteiro conhecerem a Mata Atlântica.

A gafe do ministro foi cometida durante entrevista ao vivo, nessa quinta-feira (9). O ministro explicava para os jornalistas uma reunião em que ele, acompanhado da ministra da Agricultra, Pecuária e Abastecimento, Maria Thereza, defendia a política do governo brasileiro em relação à preservação do meio ambiente.



“Hoje nós mostramos um mapa [na reunião com investidores estrangeiros], que ficou muito claro para eles, né? onde estava preservado… o tamanho, a dimensão que é toda a Amazônia, o que representa pro Brasil… Nós temos hoje, se você for chegar em Manaus e pousar, e se você quiser pedir um avião. “Ah, eu quero aqui ver Mata Atlântica”, você fica ali três horas sem parar vendo Mata Atlântica atrás de Mata Atlântica. Mas também se você quiser fazer o que muitos jornalistas fazem no exterior, alguns artistas, “Ah, eu quero ver aqui queimadas”, também tem. Ele vai mostrar ali a região onde tem algumas queimadas que, no total da Amazônia 87%, nós tínhamos 87% de Mata Atlântica e 13% de queimadas”, declarou.

Entretanto, os biomas citados pelo ministro são bem diferentes e não participam da mesma realidade geográfica. No mapa de biomas do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), a Mata Atlântica atinge 17 estados e fica situada em uma região de floresta tipicamente litorânea, bem distante da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo. 

"A declaração do ministro revela um profundo desconhecimento sobre a Amazônia e a Mata Atlântica. Mostra claramento que é necessário colocar pessoas com mais capacidade de entendimento da realidade amazônica para enfretar o grave desafio que é o combate do desmatamento na região", avalia Virgílio Viana, superintendente geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS).

Criticado

Para Lucas Ferrante, cientista e doutorando em Ecologia no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) a declaração do ministro recém empossado é absurda e justifica a cobrança de investidores para uma política ambiental mais séria.

"Uma fala completamente absurda. O ministro disse que a Amazônia tinha muita Mata Atlântica, sendo a Amazônia um bioma completamente diferente da Mata Atlântica, completamente isolado da Mata Atlântica. Tal confusão é absurda vinda de um ministro. É justamente por essas falas que o Brasil tem afastado investidores, e fica cada vez mais claro que o mercado não tem a mínima capacidade de se recuperar com Bolsonaro e Mourão", defende.

O cientista é autor de uma ação no Ministério Púbico Federal que questionou a decisão do Governo Federal de autorizar o plantio de cana de açúcar na Amazônia em ritmo industrial, em novembro de 2019. A Justiça Federal atendeu o pedido do MPF e suspendeu os efeitos da Medida Provisória no início deste ano.

O risco de investidores abandonarem o Brasil diante do impasse ambiental também é apontado como grave pela ambientalista e pesquisadora Muriel Saragoussi, que já atuou no Inpa e na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

"O governo está pondo em risco a economia brasileira e também o nosso futuro, já que a água que irriga o agronegócio brasileiro depende do funcionamento sadio da Floresta amazônica", explica. 

A ambientalista chama atenção para os incentivos que o governo tem dado para que políticas do agronegócio prevaleçam diante da pauta ambiental."O governo se mostra despreparado e, quem sabe, até mal intecionado nas suas declarações e nos seus atos, suas políticas públicas, projetos de lei para 'passar a boiada', incentivo aos ilícitos e o desprezo pela ciência", argumenta.

Confira o vídeo:

Não retorno

O professor Dr. Jairo Max, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), aponta a possibilidade de um ato falho do ministro das Comunicações ao citar Mata Atlântica como sendo a amazônica. 

O pesquisador sugere uma avaliação correta dos dados e aponta preocupações. "Se consideramos que a Amazônia possui 4,2 milhões de km², se retiramos o que é água, cidades, rodovidas e tudo aquilo que não é natural, e mensuramos o total de área degradada desde 2007 para cá, chegaremos aos 13% que o sr. ministro se refere", explica.

Ele acrescenta que neste cenário não se removeu as florestas imudáveis, e acrescenta que a a floresta amazônica não é resiliente às queimadas, além de ter sua capacidade mitigadora bem reduzida para este tipo de impacto.

"Por conta disso estudos mostram que estamos perigosamento no limite de não ter mais volta e começarmos com um processo de auto-degradação, a exemplo do que ocorre em várias regiões do Brasil. Isso porque quando o impacto é severo e grande, a natureza perde a capacidade de regeneração, o solo empobrece, erosões ocorrem, os corpos de água sofrem assoreamento e assim por diante", diz.

O professor destaca a declaração do ministro durante a entrevista, onde ele afirma que 'basta sobrevoar Manaus por 3 horas para ver Mata Atlântica', como sendo um claro equívoco. "É um claro equívoco de escala e direção. Sobre a direção: se qualquer um pegar um monomotor no Aeroclube de Manaus e sobrevoar por 3 horas em qualquer direção, irá encontrar exatamente o que o Sr. ministro falou. Mas se ele decolar de Porto Velho (RO) em direção a Manicoré, no mesmo avião, dificilmente irá ver floresta contínua. Isso acontece porque o desmatamento e queimadas só ocorrem onde com grande intensidade há rodovias", aponta.

Pressão internacional

Recentemente alvo de um bombardeio de críticas de grandes empresas e conglomerados de fundos de investimento internacional, o vice-presidente Hamilton Mourão, que comanda o Conselho da Amazônia, trava uma batalha para tentar acalmar o mercado diante do aumento do desmatamento, das queimadas e invasão de garimpos em terras indígenas. Mourão também recebeu uma carta conjunta de mais de 30 fundos de investimento pedindo a imediata paralisação do desmatamento na Amazônia. 

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia bateu novo recorde nos alertas de desmatamento em junho. Áreas de devastação atingem mais de 3 mil km² no semestre, aumento de 25%.

Uma operação militar integrada com as Forças Armada e Nacional de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), encabeçada por Mourão, foi deflagrada no ínicio de junho. Até o momento, a ação na Amazônia gastou em um mês o orçamento anual do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para fiscalização. O que tem sido alvo de críticas de fiscais dos órgãos ambientais.

Repórter

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