Segunda-feira, 19 de Abril de 2021
Viagem ao Iraque

Na cidade natal de Abraão, papa encontrará apenas uma família cristã

O papa fez de sua peregrinação a Ur, o local de nascimento de Abraão segundo a Bíblia, a etapa mais espiritual de sua viagem ao Iraque



papa3825b083_base_9C453785-ABED-4C15-9065-E07BADD8D6BE.jpg Foto: AFP
News thumb afp d084093c bf21 4ede 853c 0cfb6068260d AFP
06/03/2021 às 09:16

O papa fez de sua peregrinação a Ur, o local de nascimento de Abraão segundo a Bíblia, a etapa mais espiritual de sua viagem ao Iraque, mas hoje, na província rural e xiita de Di Car, vive apenas uma família cristã.

Maher Tobia, de 53 anos, afirma que a sua é a única família cristã ainda presente na cidade de Nasiriya, a 17 km dos vestígios arqueológicos de Ur. 



Foi neste local, a cidade mais antiga do mundo, "Ur dos Caldeus" da Bíblia, que nasceu o profeta Abraão, de acordo com a tradição. 

Todos os cristãos que Tobia conheceu quando era jovem, diz ele, "foram para Bagdá ou para o Curdistão iraquiano, e a maioria deles deixou o país depois". 

Mas com a visita do papa Francisco, que traz "uma mensagem de amizade e paz", Tobia está convencido de que "a situação vai melhorar" na província rebelde, ponta de lança de todas as "revoluções" no Iraque, entre elas a última, em outubro de 2019. 

Há apenas uma semana, vários manifestantes morreram.

No momento mais crítico da revolta, o papa argentino pediu o fim da repressão mortal aos protestos, nos quais quase 600 pessoas morreram e 30.000 ficaram feridas. 

"A visita de um homem dessa envergadura e com esse peso religioso pode beneficiar Di Car e seus locais de peregrinação", diz Tobia.

"Se a visita for bem feita, pode ter uma grande repercussão", assegura o iraquiano graduado em Belas Artes, cheio de esperança.

- "Nos passos de Francisco" -

Quando o avô de Maher Tobia nasceu em 1914 e depois ele, 57 anos depois, em Nasiriya, capital desta província agrícola e tribal, e até o embargo internacional contra o Iraque no início dos anos 1990, ainda havia entre "20 e 30 famílias cristãs" na área. 

Ao contrário de seu avô, que se estabeleceu em Nasiriya sob o Império Otomano e fundou uma fábrica, todas essas famílias, ele explica à AFP, eram funcionários enviados por Bagdá ou estacionados na cidade por um tempo, antes de retornarem ao seu local de residência. 

Após a invasão dos Estados Unidos em 2003, que derrubou o ditador Saddam Hussein, "havia apenas duas famílias cristãs em Nasiriyah", relata este homem, com um pequeno bigode branco e um terno preto impecável. 

Em duas décadas, a minoria cristã do Iraque - em grande parte caldeia, isto é, católica - foi drasticamente reduzida.

Se antes de 2003 era um milhão e meio, atualmente existem entre 300 mil e 400 mil fiéis, segundo organizações de defesa das minorias no Iraque, que alertam que essas famílias vão continuar a partir, em um país onde o índice de pobreza dobrou no ano passado, atingindo 40% da população.

E depois de quatro décadas de guerra, a economia do país está em péssimo estado, ainda mais devido à queda dos preços do petróleo - a única fonte de divisas do país - e à recente desvalorização brutal da moeda.

Aproveitando a visita de Francisco, várias agências de turismo iraquianas preparam passeios "nos passos do papa".

As autoridades garantem, por sua vez, que estudam facilitar as condições para a obtenção de vistos de turista, até agora quase inexistentes, exceto para o turismo religioso xiita nas cidades sagradas de Kerbala e Najaf.

Talvez as autoridades locais construam uma igreja para os peregrinos em Di Car.

E Tobia não terá mais que ir a Bagdá, 400 km ao norte, ou a Basra, mais ao sul, para "casamentos ou funerais".


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.