Segunda-feira, 26 de Outubro de 2020
SETEMBRO AMARELO

'Não é fácil identificar os sinais', diz psicóloga sobre o suicídio

Segundo a profissional Luziane da Costa, que atua em Manaus, o suicídio ainda é rodeado por tabus, estigmas e preconceitos



ee93704d-51fc-4b6d-8e37-bd88713914fe_180D1636-C307-4E2E-833B-DA3D071CC2FE.jpg Foto: Yasmin Feitosa
30/09/2020 às 13:21

O suicídio se tornou algo muito abordado pela sociedade, muito se fala sobre os motivos que levam alguém a tirar a própria vida, motivos esses que podem ser decorrentes de problemas pessoais ou psicológicos. Neste Setembro Amarelo, muitas companhas foram iniciadas e várias pessoas se manifestaram em redes sociais oferecendo apoio para quem precisa ser ouvido, mas, de acordo com a psicóloga Luziane Vitoriano da Costa, as discussões que abordam o suicídio devem ser primeiramente analisadas antes de se tomar uma iniciativa para ajudar alguém.

"É importante conhecer um pouco sobre o propósito da campanha Setembro Amarelo. O Centro de Valorização da Vida (CVV) em parceria com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) iniciaram a campanha com o propósito de conscientizar as pessoas acerca da importância da prevenção do suicídio", informou Costa.



Ela também explica sobre como iniciar uma campanha para este assunto. "Para os envolvidos na campanha, a melhor forma de se evitar um suicídio é através de diálogos e discussões que abordem a temática, principalmente porque o suicídio é rodeado por tabus, estigmas e preconceitos", disse. 

Rede de apoio em Manaus 

"Em 2017, iniciei o MBA em Gestão Escolar pela USP/ ESALQ, na oportunidade pude desenvolver a monografia 'Prevenção do Suicídio: O olhar do docente da
rede pública de ensino em Manaus'. Durante vários anos tenho me dedicado a estudar sobre a temática, mas, não apenas isso, eu também consegui ministrar algumas palestras, cursos,
promover rodas de conversas e formar um grupo de estudo sobre Manejo do Comportamento
Suicida, também faço parte da equipe de voluntários do CRP 01-DF onde prestamos
atendimentos emocional para pessoas que pertencem aos movimentos populares da região", explicou Costa.

A Organizaão Mundial de Saúde, conceitua o suicídio como um ato intencional e
deliberado cuja a intenção seja a morte. O suicídio é um fenômeno complexo e de vários determinantes psicológicos, socioambientais, biológicos e genéticos que interagem. Assim, deve ser considerado como o desfecho de uma série de fatores que se acumulam na história do indivíduo, não podendo ser considerado de forma causal e simplista apenas a determinados acontecimentos pontuais da vida do sujeito.

Os fatores de riscos 

De acordo com Luziane, existem alguns fatores considerados de risco, que estão ligados ao suicídio. "Alguns fatores de risco podem ser observados como a ausência de suporte social, isolamento social, bullying, cyberbullying, perda de emprego e crises econômicas. Existem os fatores de risco individuais que englobam a história familiar, genética, mecanismos epigenéticos, adversidades na primeira infância, principalmente, abusos físicos, sexuais, negligência, deficit cognitivos, alta ansiedade, uso de substâncias psicoativas e álcool, traços
de personalidade e alta impulsividade, desesperança
e psicopatologias", detalhou Costa sobre os pontos. 

Luziane também explica que "não é fácil identificar os sinais e é importante ter consciência disto, pois, às vezes, nenhum sinal claro é percebido, mas, eventualmente, uma série de pequenos sinais são evidenciados e que só poderão ter significado se vistos em conjunto". 

Possíveis sinais

De acordo com Costa, não há uma “receita” para detectar seguramente uma crise suicida em uma pessoa próxima, mas, um indivíduo em sofrimento pode dar certos sinais que devem chamar a atenção de seus familiares e
amigos, para assim incentivá-la a procurar apoio profissional.

"Pode estar ligado a preocupação com sua própria morte ou falta de esperança, a expressão de ideias ou de intenções suicidas, falar comentários que muitas vezes são ignorados como “Vou desaparecer", “Vou deixar vocês em paz", “Eu queria poder dormir e nunca mais acordar". Pessoas com pensamentos suicidas podem se isolar, não atendendo a telefonemas, interagindo menos nas redes sociais, ficando em casa ou fechadas em seus quartos, reduzindo ou cancelando todas as atividades sociais, principalmente aquelas que gostavam de fazer", informou Costa.

Poucos recursos disponíveis em Manaus

Segundo a psicóloga "não há muitas políticas públicas sérias que possam promover a implementação de estratégias, voltadas para a prevenção e posvenção do suicídio, há certa dificuldade em encontrar inclusive pesquisas a respeito da temática, mas, temos grandes representantes em nossa região, como a profa. Dra. Denise Gutierrez, prof. Dr. Hudson Ribeiro e prof. Dr. Ewerton Castro, que atuam em uma universidade pública em Manaus", esclareceu. 

Com o pouco atendimento disponível em Manaus, Costa explica sobre uma grande necessidade em relação a isso. "Infelizmente, não temos Centros de Atenção Psicossocial o suficiente para dar conta da demanda de nossa cidade. O próprio Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro encontra-se há anos em uma situação vexatória. Os profissionais que trabalham nas UBS, CAPS e Policlínicas têm feito das tripa coração para suprir a necessidade da população, mas, proporcionalmente, há um déficit de recurso humano", explicou.

Como oferecer ajuda corretamente 

A psicóloga também dá detalhes sobre como oferecer apoio a uma pessoa de maneira correta, para assim, não agravar o problema que ela está enfrentando.

"Encontre um momento apropriado e um lugar calmo para falar sobre suicídio com essa pessoa. Deixe-a saber que você está lá para ouvir, ouça-a com a mente aberta e ofereça seu apoio. É importante não condenar/ julgar: “Isso é covardia.” “É loucura.” “É fraqueza.” Não banalizar: “É por isso que quer morrer? Já passei por coisas bem piores e não me matei.” Não opinar: “Você quer chamar a atenção.” “Te falta Deus.” “Isso é falta de vergonha na cara.” Não dar sermão: “Tantas pessoas com problemas mais sérios que o seu, siga em frente.” explicou Costa sobre atitudes que devemos evitar.

Redes de apoio em situações de crise 

Segundo Luziane, se você acha que uma pessoa está em perigo imediato, não a deixe sozinha. Você deve procurar ajuda de profissionais de serviços de saúde, de emergência e entrar em contato com alguém de confiança indicado pela própria pessoa.

"As possíveis redes de apoio que podem auxiliar antes, durante e depois de uma situação de crise são a família, amigos, colegas, unidades de saúde: CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), Unidades de Saúde da Família, clínicas, consultórios psicológicos, urgências psiquiátricas, profissionais de saúde: médicos, psicólogos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares de enfermagem, agentes de saúde. Centros de apoio emocional: CVV (Centro de Valorização da Vida), ligue para o 188 e grupos de apoio", esclareceu Luziane.

A psicóloga também informa que sempre devemos incentivar a pessoa, para procurar ajuda de profissionais de serviços de saúde, de saúde mental, de emergência ou apoio em algum serviço público. "Ofereça-se para acompanhá-la a um
atendimento", finalizou.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.