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‘Não mudará muita coisa’, diz cientista político sobre prisão de empreiteiros em Operação

Rodrigo Augusto Prando avalia que a prisão de empresários ligados a grandes empreiteiras não terá grande impacto sobre os brasileiros, uma vez que a população tende a ver a corrupção como algo banal 07/01/2015 às 13:39
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Rodrigo Augusto Prando
Luciano Falbo Manaus (AM)

Para o cientista político Rodrigo Augusto Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pouca coisa muda no Brasil após a prisão de grandes empreiteiros na Operação Lava Jato. Prando observa que o brasileiro parece se encontrar anestesiado em relação às denúncias de corrupção. Apesar de um Congresso mais conservador, a partir de 2015, o cientista ressalta que a sociedade brasileira está mais conectada e preparada para fazer pressão quando mobilizada. Confira a seguir, trechos da entrevista concedida para A CRÍTICA.

Na sua avaliação, como fica o Congresso Nacional em 2015? Qual será o papel das oposições?

Ao que tudo indica, o Congresso apresentará um perfil mais conservador, segundo os dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar. Dilma ainda tem uma ampla base aliada e isso significa apoio aos projetos do governo, mas, como já presenciamos neste atual mandato, nem sempre essa base dá o apoio esperado e, ainda, causou muitos embaraços ao governo. Agora, no que tange à oposição, certamente, ela deverá ser mais aguerrida do que antes e até mesmo nos mandatos do ex-presidente Lula. Aécio – e o PSDB – saíram do segundo turno derrotados, mas com enorme capital político. Imagino que isso se configure numa oposição mais dura como, por exemplo, foi o próprio PT no governo Fernando Henrique.

O senhor acredita que os movimentos contra a presidente e favoráveis ao retorno dos militares continuarão neste ano?

Aqui, vale ressaltar que há dois elementos distintos: os que são contrários à Presidente Dilma e os que são contrário à Presidente e, também, favoráveis ao retorno dos militares. Não se pode confundir, para o correto exercício da análise, esses dois grupos. A maioria dos que saíram às ruas em ato contrário ao PT ou à Dilma não são simpatizantes dos militares. Nossa democracia está, ainda, se consolidando, mas já tem maturidade para não cair nestas armadilhas autoritárias como em períodos recentes. Se esse protestos continuarão? Provavelmente, sobretudo com as investigações envolvendo políticos na Operação Lava Jato e os desdobramentos do caso de corrupção da Petrobras.

Alguma coisa muda no País com a prisão e indiciamento dos grandes empreiteiros na Operação Lava Jato?

Tendo a crer que não mudará muita coisa. Ao que parece o brasileiro se encontra anestesiado em relação às denúncias de corrupção. No fundo, há quase que uma crença geral que quase todos são corruptos e que todos os políticos são iguais. No caso dos empreiteiros, dos gestores destas grandes empresas, podem até serem condenados – como foram políticos e articuladores no caso do Mensalão – contudo, a cultura da corrupção está arraigada em nossa sociedade. Aqui, devemos, sempre, coordenar a reflexão em dois níveis: o individual e o coletivo. Individualmente, eu contribuo para a corrupção? Eu ofereço suborno a um policial, por exemplo? Eu fraudo o imposto de renda? Se as respostas forem positivas, não adianta, depois, apresentar-se como indignado com empreiteiros e políticos. E, agora, no plano coletivo é se questionar: os grupos dos quais faço parte são eticamente corretos? Enquanto houver tolerância cultura ao jeitinho, à malandragem, a se burlar as regras, a corrupção terá terreno fértil em nosso País.

O que o senhor pensa sobre o financiamento privado de campanha?

Embora seja um tema complexo, sou favorável a um financiamento misto: uma parte (com claros limites do montante doado) deva ser privado e a outra parte deva ser público. O que não se pode é ter o poder político refém do poder econômico como acontece hoje. Imaginar colocar fim no financiamento privado me parece uma quimera, sobretudo numa sociedade capitalista.

Na sua opinião, é indispensável uma reforma política no Brasil?

Sim. O melhor caminho seria um Congresso e o Executivo buscarem de forma efetiva melhorar nosso sistema político, desde o financiamento de campanhas, das possibilidades de voto, da questão da representatividade, enfim, uma reforma que vá às raízes de nossos problemas e que se apresentem soluções acordadas com a sociedade e com os especialistas em cada área. Temos, todavia, dificuldade de uma participação social mais ampla e crítica, pois muitos movimentos sociais ou organizações sociais se encontram aparelhadas e à serviço, muitas vezes, dos poderosos.

O Congresso que foi eleito é capaz de fazer que tipo de reforma política?

Duvido. Não creio que este Congresso queira tratar de temas espinhosos da reforma política. Pensar na reforma política é repensar as formas de poder dentro do campo político e, obviamente, os políticos não tendem a mexer em seus espaços de influência e privilégios.

O senhor acredita que o Estatuto da Família vai excluir a união entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças por casais homossexuais?

Impossível prever este desfecho. Tudo dependerá da articulação da sociedade e dos vários grupos de interesse que esta questão envolve. Como disse no início, há indicação de termos um Congresso de perfil mais conservador e isso poderia significar dificuldades em implantação de políticas desta ordem.

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