Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
Entrevista

‘Ninguém aguenta mais escândalos de corrupção’, diz padre Sérgio Lúcio

Após alguns anos longe de Manaus, Pe. Sérgio Lúcio visitou a capital, onde foi recebido por uma multidão de fiéis que foi prestigiar o “Celebrai 2016”. Ele fala de sua vocação, de política e da experiência de servir no Nordeste



padre.JPG Padre Sérgio Lúcio atuou por anos na Igreja de São José Operário, no bairro Praça 14/ Foto: Márcio Silva
09/07/2016 às 14:52

Ele é bastante conhecido por levar centenas de fiéis às igrejas por onde passou, como a Igreja de São José Operário, no bairro Praça 14, Zona Centro-Sul. Estamos falando de padre Sérgio Lúcio, que atualmente é reitor da Basílica Menor do Sagrado Coração de Jesus, em Recife (PE). No último final de semana, o religioso amazonense esteve em Manaus para participar do “Celebrai 2016”, evento que reuniu mais de 800 fiéis na quadra do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), na Zona Leste. Na ocasião, ele concedeu entrevista exclusiva e falou, dentre outras coisas, sobre sua vida de evangelização no Nordeste. 

Como está o trabalho de evangelização no Nordeste?

Está muito bom. Estou como reitor da Basílica Menor do Sagrado Coração de Jesus, uma igreja dos salesianos, no bairro de Boa Vista, próximo ao Centro Histórico de Recife. Sou encarregado do Santuário. O trabalho de evangelização comum a toda igreja católica são as missas, os grupos, as pastorais, as novenas, o atendimento individual às pessoas. Graças a Deus, a gente continua esse trabalho de evangelização levando a boa nova de Jesus Cristo, o amor e o perdão dele para todos.

Quais os motivos de sua saída de Manaus? Até hoje sua partida surpreende o povo católico da cidade?

Os padres salesianos têm prazo de trabalho em cada região. Diferente do padre diocesano, que fixa morada e trabalho numa cidade, nós religiosos temos esse aspecto missionário. Depois que se completa um trabalho, onde precisa a gente vai evangelizar. Depois dos cinco anos que passei à frente da paróquia de São José Operário, na Praça 14, outra missão foi me dada. Só que o povo estava muito apegado, entra também essa questão do afeto, mas a gente vai crescendo e amadurecendo sabendo que aonde a gente vai, levaremos o nome de Jesus.

Como nasceu sua vocação para ser padre?

Eu venho de uma família muito cristã, muito católica. Tenho muito alegria de dizer que eu cresci dentro de uma igreja doméstica, pois antes de ir para a igreja institucional eu já vivia na igreja doméstica que era o meu lar. Soma-se a isso, depois, o fato de eu desde pequeno ter frequentado as missas, ter sido levado a frequentar a paróquia e depois como aluno salesiano, desde a quarta série primária, eu estudava no Colégio Salesiano Dom Bosco, onde fui bebendo, aprendendo e cresceu esse dom de Deus. Ele foi me dizendo: eu preciso de você para levar mais esperança para esse mundo.  É algo que você sente dentro de si. Muitas vezes você nem consegue racionalizar e explicar, a vocação é uma intuição, porém uma intuição que você percebe que é Deus que está colocando em você os dons dele que ele quer que você use para fazer o bem.

Há quanto tempo o senhor é padre?

Há 21 anos

Por quais regiões passou nesse período?

Ah, além do Amazonas, já trabalhei em Rondônia (Porto Velho), no Norte do Mato Grosso (em Juína), em São Paulo (nas cidades litorâneas de Ubatuba e São Sebastião) e agora, os meus superiores me dão essa missão. Fico muito feliz de realizá-la. Nunca tinha pensado em trabalhar no Nordeste e agora estou em Recife, capital do Estado de Pernambuco, que é um polo de evangelização onde a presença da congregação de Dom Bosco, dos salesianos, é muito forte.

E Roma? O senhor passou um tempo por lá, o que foi fazer?

Sim. Eu fui fazer mestrado em Comunicação Social. Depois que me ordenei em Manaus, trabalhei praticamente um ano em Porto Velho e de lá meus superiores me mandaram para Roma, onde por três anos fiz o mestrado em Comunicação Social pela Universidade Pontifícia Salesiana. Tenho título reconhecido inclusive pela Universidade de São Paulo (USP), em Comunicação Social. Como estudei teologia em São Paulo, tive a oportunidade de tirar meu DRT profissional em rádio locução, sou radialista também e dentro desse campo da rádio, da televisão, da mídia, a gente procurou atuar bastante.

Quais as novas visões da igreja em relação a leigos e homossexuais estimuladas pelo papa Francisco?

Eu acredito que o papa Francisco é um papa segundo coração de Cristo: misericordioso. O que o papa Francisco fala é o que o próprio Jesus fala: acolher o ser humano. Jesus é o Bom Pastor, como ele mesmo descreve, que deixa as 99 ovelhas e vai atrás daquela ovelha que se perdeu. O que o papa está fazendo é incentivando todos nós a sermos como Jesus: mais humano, com coração misericordioso. Não foi a toa que ele instituiu este ano o Ano da Misericórdia para termos essa sensibilidade a mais para acolher o fraco, o pecador e estimular a pessoa humana para que seja cada vez mais a imagem e semelhança do Cristo.

Como os religiosos veem as questões políticas atuais?

A gente vê, naturalmente, com a preocupação que o povo vê porque a própria palavra política significa o cuidado com a polis – a cidade. É claro que a política afeta todos nós e o que a gente quer é exatamente o que todo o brasileiro quer: que o país seja passado a limpo, que aquilo que é errado, contra a ética e contra o direito seja corrigido. Estamos vendo uma maturidade, eu acredito que um momento de muita maturidade das nossas instituições democráticas, sobretudo no que se concerne ao Poder Judiciário, a Polícia Federal e ao Ministério Público. Eles estão ajudando a gente a fazer essa passada a limpo. É dolorosa? É, porque ninguém aguenta ficar vendo todos os dias escândalos descoberto de corrupção, mas é necessário para passarmos o País a limpo e assim amadurecermos para não voltarmos a repetir os mesmos erros.

Que lição podemos tirar disso?

Uma lição de aprendizado; de que o homem não é autossuficiente; que a gente precisa uns dos outros; e da força da comunidade e de uma maior interação. O trabalho democrático é esse da gente saber buscar aquilo que nos é comum. Divergência vamos sempre ter, mas os valores fundamentais a gente precisa buscar em comum.

Por que vemos um ódio crescente entre as pessoas que pensam de maneira diferente?

Esse é um problema. O ser humano, enquanto colocar a si mesmo como centro de tudo, vai sempre ter um motivo para guerra. Nós não somos o centro de tudo. Somos criaturas. Existe um criador. Temos uma dependência de um Pai comum e se temos essa dependência de um criador comum nós somos irmãos uns dos outros. Então, independente da cor da pele, da raça, da cultura e da religião que professa, o ser humano tem valores em si mesmo porque ele traz o DNA de Deus. A passagem do primeiro livro da Bíblia, o Gêneses, diz exatamente que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. Somos filhos todos de Deus e Ele nos quer exatamente valorizando o dom da vida que ele nos deu. Diferenças vamos ter, mas o comum é a dignidade da pessoa humana.

Qual a visão cristã em face do fundamentalismo de certas crenças?

O fundamentalismo se baseia em ideias que são fechadas e muitas vezes tiradas fora do contexto. Falo pelo fanatismo, por exemplo, se você tira passagens bíblicas e as emprega de forma fora do contexto você pode criar fanáticos. A palavra de Deus tem que ser discernida e interpretada com a força da tradição, com aquilo que Deus nos colocou, que é a igreja e o magistério. Agora, se você faz com que esses grupos simplesmente cresçam debaixo do ódio, se você ao invés de favorecer o diálogo favorece o alijamento e a marginalização, você só vai fazer crescer ainda mais esse fanatismo. Um exemplo claro é o candidato norte americano do partido republicano, Donald Trump, ao dizer: eu vou proibir a entrada dos mulçumanos. Vou expulsar os mulçumanos presentes nos Estados Unidos. Isso só alimenta o outro lado fanático dos mulçumanos que distorcem o Alcorão, as palavras de Maomé, e vai fazer crescer ainda mais o terrorismo.

Qual o conselho que o senhor dar aos jovens?

Meu conselho é um só. É o de a gente voltar a depender de Cristo. Nosso maior inimigo não é aquela pessoa que nos inveja, que não gosta ou que fala mal da gente. Nosso maior inimigo somos nós mesmos quando ao invés de adorar a Deus adora o nosso ego, nosso orgulho, nossas vaidades. Cristo nos ensina a sermos criancinhas quando diz: se não vos transformar-des como criancinhas não entrareis no reino dos céus. A criança depende dos pais para viver, se a mãe não der a alimentação ela vai morrer, se o pai não a defender dos perigosos ela vai se acidentar. Então, quando Cristo diz: voltem a confiar no Pai do céu como uma criancinha, se entregando, se jogando nas mãos de Deus e ele cuida de nós, o que ele mais anseia é estar no controle da nossa vida. É dirigir novamente a nossa vida conosco para levarmos o propósito que ele tem para nós. Às vezes a pessoa diz: ah, eu vou atrás da minha felicidade. Não existe esse negócio de ir atrás da felicidade. É ilusão! É a felicidade que nos encontra quando voltamos a ter Cristo como centro de tudo. Ele é o dínamo que atrai toda felicidade nesta terra e no céu, na outra vida. Em Cristo, a felicidade não tem fim.

E como buscar a Deus?

Em primeiro lugar, você tem que ter um encontro pessoal com Cristo. Ele está presente em todos os lugares. Agora, é claro que o nosso Senhor deixou a sua revelação, em Mateus, capítulo 16, quando perguntou para os apóstolos quem ele era e Pedro tomou a palavra e disse: tu és o Cristo de Deus vindo ao mundo para nos salvar. E Jesus disse: não foi por voz humana que você falou isso, mas foi pelo meu Pai, por revelação do Pai, por isso eu digo você Pedro sob esta pedra construirei a minha igreja e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela. Te darei as chaves dos céus, o que ligares na terra será ligado no céu, o que desligares será desligado. Então, nós cremos como cristãos, como católicos, que nosso Senhor fez a sua obra, realizou a salvação, mas ele não deixou tudo solto. Jesus é muito organizado, é muito certinho, depois que ele realizou a sua salvação ele quis e instituiu a sua igreja através de Pedro e dos sucessores de Pedro, que hoje significa para nós o papa Francisco. Nós cremos como católicos que juntos aos sucessores de Pedro, que são os papas, e com toda a organização da igreja, o Clero, os fieis, os religiosos e os leigos nós formamos o corpo de Cristo e esse corpo de Cristo jamais será vencido pelo inferno. Então, aceitar Jesus sim, mas também procurar aquela igreja que Ele deixou que é a igreja que acolhe todos nós através do sacramento do batismo.

Perfil

Nome: Sérgio Lúcio Alho da Costa

Idade: 49

Estudos: Mestre em Comunicação Social

Experiência: reitor da Basílica Menor do Sagrado Coração de Jesus, em Recife (PE), já trabalhou como pároco em igrejas de Manaus, Maturacá (Alto Rio Negro), Porto Velho (RO), Juína (MT), São Sebastião e Ubatuba (SP)


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