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‘No esporte, com pouco a gente pode fazer muito’, diz Fabrício Lima, prestes a assumir a Sejel

Cotado para assumir o comando da Secretaria de Juventude, Esporte e Lazer nos próximos dias, vereador revela porque decidiu trocar o “conforto” da CMM por pasta no  Governo Melo e afirma que ser “enxerido” tem aberto portas para ele 13/02/2016 às 16:30
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Fabrício Lima está no quarto mandato como vereador e foi secretário municipal de Esporte por duas vezes
Aruana Brianezi Manaus (AM)

Superação e desafio fazem parte do vocabulário de Fabrício Lima (SDD) desde o fim da década de 90, quando reencontrou o caminho do esporte, perdeu mais de 50 quilos e entrou de vez na vida pública. Agora, no quarto mandato como vereador, ele está prestes a trocar uma reeleição praticamente certa pelo cargo de Secretário Estadual de Esportes na gestão de José Melo (Pros), que briga na Justiça para manter o mandato de governador cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral no início do ano.

Fabrício demonstra não estar preocupado com a disputa judicial. Afirma que está entrando no Governo para fazer o que sabe melhor: incentivar práticas esportivas tanto de alto rendimento quanto as que têm cunho social. O esporte, diz ele, é um sacerdócio. E a vaidade, bem menor que a vontade de fazer acontecer. Confira, abaixo, trechos da entrevista concedida ao jornal A Crítica.

Rumores de que você assumirá a Secretaria de Juventude, Esporte e Lazer circulam nos bastidores políticos há vários meses. Agora é para valer?
É sim. Devo tomar posse nesta terça-feira, conforme acertei com o governador José Melo. Essa demora nos deu a oportunidade de conversar bastante, ele colocar o que pensa em fazer e eu passar para ele aquilo que acredito que seja importante. Ele me fez recomendações para olhar com carinho o alto rendimento, que é o sentido da Fundação Vila Olímpica e da Secretaria existirem, mas cuidar também da questão social. Há um trabalho muito bacana que ele quer desenvolver com a primeira-dama (Edilene Gomes), chamado “Todos Pela Vida”, que vai envolver uma série de secretarias. E o esporte é um dos carros-chefes desse programa. 

O governo Melo hoje funciona sob a sombra da cassação. Não passa pela sua cabeça estar fazendo a aposta errada?
Acredito que a verdadeira Justiça foi a que o povo fez. Não tenho nada contra o ministro e ex-governador Eduardo Braga (PMDB), mas foi disputada uma eleição e o Melo ganhou. Em outros casos correlatos, o julgamento não resultou em cassação. Acho que a decisão será revertida, pois acredito na Justiça. Acredito que vai ser feita Justiça e o Melo vai terminar o mandato dele. Quando, lá atrás, abracei a causa de ser secretário (municipal), muita gente falou que era maluquice. A prefeitura não tinha nem programa na área. E eu comecei a dizer para as pessoas que meu grande legado seria criar o hábito, na população, de praticar esporte. 

Mas dessa vez você estará abrindo mão de disputar uma reeleição que é praticamente certa...
Para mim, o esporte é um sacerdócio. Muitas pessoas entram na vida pública, na política, com um propósito. O meu é dedicar meu mandato, minha energia, minhas ações, ao esporte. E isso é maior que eu. Se fosse pensar só em mim, eu seria candidato a vereador. Tentaria me reeleger, garantir meu mandato por mais quatro anos. Mas eu penso que posso fazer mais. Posso e devo dar minha contribuição na secretaria estadual. 


E nas eleições de 2018? Você pensa em usar a experiência que acumulará à frente da secretaria para disputar uma vaga de deputado estadual?
Firmei um compromisso com o governador de fazer um trabalho voltado para o esporte e esquecer eleição. Se eu estivesse pensando em eleição, não estaria planejando andar com vereadores em bairros onde eles têm mais abertura. Quero fazer um trabalho conjunto. A mesma coisa com os deputados estaduais e os municípios do interior. Em Parintins não tem referência maior que o deputado Bi Garcia (PSDB). Em Itacoatiara o Josué Neto (PSD) teve uma votação bem grande. A deputada Alessandra Câmpelo (PCdoB) e o Orlando Cidade (PTN), em Manacapuru. Minha intenção é aproximar a secretaria dos deputados, ouvir o que eles pensam. E aproveitar o trabalho que eles já está sendo feito em alguns municípios. 

Mas muitos parlamentares estaduais hoje te veem como ameaça.
Eles vão passar a me ver como parceiro. Quero todo final de semana estar num interior diferente. E, se Deus me permitir, acompanhado de um deputado estadual que possa abrir as portas, me passar a visão que ele tem do município. Se eu não fizer isso, o trabalho vai demorar a fluir pois terei que ir lá, fazer um raio-x da cidade, tentar identificar lideranças. Em resumo, terei que começar do zero. Em parceria com os parlamentares, vou conseguir diminuir um pouco essas barreiras. Quero levar o que eu fiz em Manaus para o interior do Estado. Fazer o esporte acontecer lá. 

Que tipos de projetos você já esboçou?
Penso em criar um calendário de corridas de rua no interior. Tenho intenção de apoiar a Copa dos Rios, dar suporte à Federação Amazonense de Futebol. Quero também criar um campeonato da Região Metropolitana e a partir desse campeonato de futebol, criar o de basquete, o de voleibol. Movimentar os municípios, fazer eles interagirem. E, de alguma forma, aquecer a economia. Temos o triatlo em Maués. Os melhores lançadores de dardos do Brasil são de Parintins. Precisamos identificar a vocação das cidades e dar apoio para descobrir talentos. Muitas vezes é um investimento mínimo, para aquilo que representa. No esporte, com pouco a gente consegue fazer muito. 

Alguma modalidade será priorizada?
Vou tentar acabar com o estigma de que esporte é só futebol. Futebol é muito importante, claro, mas é preciso apresentar outros esportes a essas pessoas. Por exemplo: em virtude da nossa geografia, tanto humana quanto física, a canoagem aqui é muito forte. Mas não temos ninguém na seleção. Na hora que dermos oportunidades, pode acontecer o que ocorreu no arco e flecha: hoje temos grandes atletas nessa modalidade, inclusive na seleção brasileira e com chance de disputar uma Olimpíada. Não entro na secretaria vendo defeitos. Pelo contrário, vejo pessoas que dedicaram suas vidas, fizeram seu trabalho. Agora chegou a hora de fazer o meu. Quero colocar meu tijolinho ali. Vamos criar um conselho estadual, a exemplo do conselho municipal que criei, para, uma vez por semana, reunir e ouvir pessoas experientes e que vão me ajudar a tomar decisões. Não tenho vergonha nenhuma de chegar pessoas mais experientes, como já fiz com o Messias Sampaio e o Estevão Pedrosa, e perguntar: “Estou fazendo um bom trabalho? Onde você acha que eu posso melhorar?”. 

O fato de não ter vergonha de abordar as pessoas ajudou a construir essa grande rede de networking que você tem?
Eu digo que sou enxerido. E muito. As pessoas vão me dando abertura e eu vou aproveitando a oportunidade. No Ministério dos Esportes, onde da primeira vez que fui atrás de recursos para Manaus ninguém me cumprimentava direito, depois fiquei conhecido como o garoto da bala de cupuaçu. Pensei: vou comprar bala de cupuaçu, que eu sei que lá não tem e é gostoso, e quebrar esse gelo. Daqui a pouco já conhecia todos os diretores. As portas foram se abrindo. Conheci o Romário, o Nalbert, o Giba...

Todo mundo comeu bala de cupuaçu?
Todo mundo. Menos o José Aldo, que já conhecia. Desse jeito conheci pessoas na China, em Abu Dhabi. Na ocasião em que Manaus recebeu a seletiva para o torneio de jiu jitsu, o Rickson Gracie fez uma ligação e me colocou em contato com o sheik de Abu Dhabi. Esses grandes atletas acabam sendo meus avalistas. Isso pesa muito. Quando fui na Confederação Brasileira de Vôlei, no Rio de Janeiro, que é um mundo, estava acompanhado pelo Nalbert. Em dois minutos estava na sala do presidente. Se eu estivesse sozinho, não teria conseguido falar com ninguém. 

E onde você conheceu o Nalbert?
Pelas redes sociais. Mandei uma mensagem para o twitter dele, perguntando se queria jogar em Manaus, um jogo de apresentação. Ele ficou meio assim, pois estava com um problema no ombro. Daí eu descobri que ele tinha um restaurante, o LeBronx, e falei: “Vamos marcar um almoço?”. Ele pergunto quando. E eu: “Amanhã”. Peguei um avião correndo. Daí nasceu uma amizade. O fato de eu cumprir minha palavra, honrar os compromissos, vai me credenciando a eles me apresentarem para mais e mais pessoas. 

O fato de você viajar muito gerou críticas em mais de uma ocasião. Como você responde a elas? Como explica as viagens?
A maioria das viagens é a trabalho. Viajo também para disputar competições, e essas saem do meu próprio bolso. Mas não tem jeito, não tem como você buscar recurso em Brasília se você não for para lá. Tem uma infinidade de municípios, prefeitos, vereadores do Brasil inteiro brigando por essa verba. A mesma coisa das confederações que funcionam no Rio e São Paulo, onde também estão as sedes de empresas que patrocinam o esporte. 

Mas você já pensou em viajar menos?
Para competir, sim. Mas, no mais, não tem como fazer diferente. Na época na negociação para as eliminatórias do mundial de Abu Dhabi, por exemplo, o sheik jamais viria aqui. O interesse era de Manaus. Então eu fui até lá. E lembro como se fosse hoje ele elogiando minha ousadia e dizendo: “Tá tudo resolvido”. Eu perguntei sobre o contrato e ele disse: “No meu país, em mesa que homem senta não se assina papel”. Ou seja, não tinha um documento que eu pudesse assinar. Ele queria me ver, olhar nos meus olhos, verificar se eu passava credibilidade. Não tem jeito, tem que viajar. Dadá Maravilha dizia que quem desloca, recebe, mas quem pede tem a preferência. Então, por mais que Manaus e o Amazonas sejam bacanas, temos que brigar pela farinha. Farinha pouca, temos que puxar para nosso pirão primeiro, né? 

O Galera Nota 10 e o Bom de Bola voltam?
A ideia é reformulá-los, com uma visão atualizada. Estes projetos são maravilhosos e devem acontecer de outra forma. Adaptar, dar a cara da gente e fazer acontecer. Acho que a grande vantagem que eu tenho é de ser atleta até hoje. Eu consigo olhar a secretaria com olho de atleta. Também é um diferencial a proximidade que já tenho com a população. Conheço todos os campos de Manaus, acho que joguei em boa parte deles, tenho contatos com líderes comunitários e ao mesmo tempo tenho contato com atletas do alto rendimento. Sei o que é ser atleta de alto rendimento. Vou juntar a fome com a vontade de comer.

O governador Melo se mostrou entusiasmado com os teus projetos?
Sim. Ele me passou isso. Está muito preocupado em fazer o esporte acontecer. Até porque ele é professor por formação. E o esporte e a educação caminham lado a lado. Há artigos científicos que mostram que crianças que praticam esportes aprendem a ler e escrever mais rápido que as demais. Se eu conseguir sensibilizar ainda mais o governador, não tenho dúvida de que o trabalho será um sucesso. Amazonino (Mendes, ex-prefeito) me ajudou a criar o bolsa atleta. Foi na gestão dele que criei a faixa liberada. Ele que construiu a Vila Olímpica. E o Amazonino nunca foi atleta. 

Estamos vivendo mais um ano de crise? Você se preparou para as dificuldades extras na gestão?
Carro bom qualquer um dirige, né? Ayrton Senna se diferenciou porque foi campeão do mundo mesmo sem estar em uma equipe grande. Nelson Piquet também. A hora de mostrar que posso fazer um bom trabalho é num momento como esse. Em momento de abundância, com recurso sobrando, seria muito fácil administrar. Fazer isso em tempo de crise é para quem realmente gosta, quem realmente quer, quem pode de alguma forma inovar e dar um drible na crise e fazer as coisas acontecerem. E temos como fazer as coisas acontecerem. A própria iniciativa privada, quando ver que vai ter retorno de visibilidade ao se associar a programas sociais importantes, não tenho dúvida de que vem para somar. E também tem muito recurso em Brasília. Como vereador, eu visitei o Ministério dos Esportes, tive reunião com o secretário de alto rendimento. E identifiquei, lá, muito recurso. Então, se trabalharmos de maneira planejada e organizada, a gente consegue dar suplemento na secretaria com recursos federais e da iniciativa privada.


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