Publicidade
Cotidiano
Entrevista da semana

“Nosso papel é gerar uma sociedade mais conectada”, diz presidente do Google Brasil

Responsável pela implementação de projetos do Google no Brasil, Fábio Coelho fala da visão da empresa a respeito da privacidade dos usuários e da importância de conectar as pessoas em regiões como a Amazônia 18/06/2018 às 13:18 - Atualizado em 18/06/2018 às 13:28
Show f bio
O engenheiro Fábio Coelho é presidente do Google Brasil e vice-presidente do Google Inc (Divulgação
Cinthia Guimarães São Paulo (SP)

Está com dúvida? “Joga no Google!” Por aqui, a expressão já virou referência de tão popularizada que é a plataforma número 1 de buscas na internet do mundo. A empresa, fundada em 1998 pelos estudantes Larry Page e Sergey Brin, da Universidade de Standford, nos Estados Unidos, cresceu tanto que tornou-se uma gigante multinacional de tecnologia e uma das mais valiosas do mundo (avaliada em US$ 120 bilhões), que organiza e controla todo tipo de informação na internet: mapas, imagens, vídeos, compras, documentos, contatos e conexões.

Sob o comando da holding Alphabeth, estão uma série de empresas do Google, como o sistema operacional Android, a plataforma de vídeos YouTube, o Gmail, o Waze, um fundo de investimentos e até projetos que desenvolvem drones para entrega e carros autônomos. Tudo como parte de um universo que surpreende e assusta ao mesmo tempo.

No Brasil, o escritório do Google é comandado há sete anos pelo presidente Fábio Coelho, um engenheiro civil capixaba com experiência de 30 anos em posições executivas de vendas, marketing e gestão em várias multinacionais. Com carisma e habilidade nada tecnocrata, Fábio embarcou neste universo com a missão de gerenciar um dos cinco maiores mercados de internet do mundo.

Além de abrigar um dos 25 escritórios do Google no mundo, na capital paulista, o Brasil tem um Centro de Engenharia em Belo Horizonte, um Google Campus em São Paulo, e um YouTube Space no Rio de Janeiro.

Neste bate-papo, o executivo fala sobre os projetos do Google para o país, o futuro da audiência na TV, os dilemas da privacidade do cidadão e como a internet tem o poder de impactar a vida das pessoas.

 

Quem é o Fábio Coelho?

Eu fiz uma mudança de carreira. Comecei a ver que existiam coisas que me atraiam na área de negócios, acabei indo para o marketing, vendas e até que cheguei na cadeira de gerência geral de um negócio e fui vendo que indústria me atraia mais. Isso me levou para área de tecnologia e estou há 7 anos no Google.

Como você migrou para área do marketing?

Fui aprendendo. Fiz pós-graduação no Brasil (na UFRJ, nos Estados Unidos, e sempre fui me reciclando). Hoje em dia é importante que todos nós tenhamos essa consciência. Nós somos o que nós aprendemos e temos o que nos manter relevantes o tempo todo. O conhecimento está disponível para as pessoas.  Na internet, em qualquer lugar do Brasil, em qualquer ocasião, você pode aprender. Fui me especializando e aprendendo até chegar a trabalhar com internet.

O que faz do Brasil esta potência para o Google?

Nós somos um país populoso, com 208 milhões de pessoas, com geografia continental que não está totalmente conectado e onde as pessoas têm uma necessidade muito grande de se conhecer! Somos um país pobre e as pessoas usam as plataformas digitais para tomarem as melhores decisões, para encontrar um preço mais barato, para entender o que podem comprar. A questão de tomar decisões mais inteligentes passa pelas coisas pequenas e pelas grandes. Como saber se aquele restaurante está aberto, como não perder a viagem, como usar o banco digital que pode ser acessado pelo celular. O brasileiro tem a combinação de ser criativo para lidar com uma economia com tanta volatilidade, associado a pessoas com jogo de cintura para lidar com dificuldades e tomar as melhores decisões. Isso faz com que as nossas plataformas façam tanto sucesso no Brasil e tenhamos um caso de amor com o brasileiro.

Qual a contribuição do Google para a economia brasileira?

O Google é uma empresa global que está presente em vários países. E acreditamos que temos o papel de tornar a informação disponível no mundo acessível para todas as pessoas. Com isso, nossa contribuição passa ser a oportunidade de gerar uma sociedade conectada onde todo mundo tem acesso a esse conhecimento. Pode usar este conhecimento para gerar negócios, comprar coisas, vender, encontrar um trabalho, se divertir, estudar. A proposta do Google é funcionar como se fosse uma combinação de plataformas que permitam com que as pessoas entendam que fazem parte de algo muito maior. Somos parte do mesmo planeta, respiramos o mesmo ar, consumimos os mesmos recursos e se a gente conseguir fazer de forma maior que permita com que todos tenham acesso de oportunidade, estamos fazendo nosso trabalho.

O Google tem se preocupado com privacidade de dados das pessoas?

O Google é um oráculo. Lá você pergunta coisas que não tem coragem de perguntar nem para o melhor amigo. A gente espera que as pessoas usem isso de forma positiva, como você aprende coisas, como se educa. Cada um de nós pode tomar decisões melhores, independentemente de você estar numa cidade grande, como São Paulo ou no interior do Amazonas. Se você tiver conectividade, as pessoas não terão que sair de onde estão, porque terão condições de viver bem, construir sociedades, conhecimento, informação, perto de onde estão os recursos naturais e como poderão tratá-lo da melhor maneira possível. Agora, naturalmente, com todos esses dados, acreditamos que o direito à privacidade é sagrado. Primeiro, quem navega na internet pode deixar pegadas digitais ou não. Quem não quiser, podem navegar anônimo. Mas sua experiência não será tão boa quando você começa a entender os padrões de busca e comportamento. Obviamente, reforçando que esses dados de informações de busca não são vendidos, não estão associados a CPF, e para várias categorias nem podem ser registrados, como buscas em saúde, categorias éticas.

Quais seriam elas?

Por exemplo, se a pessoa for buscar informações sobre câncer porque está com a doença, você não pode oferecer nenhum produto à pessoa que tem a ver com aquela busca, porque é considerado busca em uma categoria sensível. Agora se eu vou a Manaus e quero conhecer o encontro das águas, daí eu busco: hotel em Manaus. Vão aparecer os hotéis, sugestões de passeios na cidade, experiências na região. Essas são informações que melhoram a experiência de busca da pessoa.

Como você avalia a discussão a respeito da privacidade?

A discussão de privacidade tem um lado bom (navegar logado). O que as empresas não podem fazer – e o Google não faz isso – é usar os dados das pessoas sem consentimento do cidadão ou usar de forma tal que possam parar na mão de terceiros. A gente acredita que o conceito de privacidade é importantíssimo e tem que ser trazido para a discussão da sociedade sim. Por outro lado, nós fazemos um esforço enorme para que as pessoas entendam como elas podem navegar por estas plataformas.

Como o Google se alinha à legislação brasileira?

Nós respeitamos 100% da legislação brasileira. Mas a questão de privacidade não está totalmente definida no que se refere ao tratamento de dados. Neste caso, estamos seguindo a GDPR (General Data Protection Regulation), que é internacional, e já estamos trazendo para o Brasil a forma de pedir consentimento das pessoas para que elas tenham clareza de que estamos tentando usar desse modelo europeu para tornar as pessoas mais protegidas e trazer o assunto à baila. Tem discussões no Congresso Nacional e temos tentado ajudar para tornar o brasileiro mais consciente dessa discussão e, com isso, nós podemos criar um ambiente melhor para os cidadãos, sociedade e para as empresas fazerem negócios.

Ao que se deve o sucesso do YouTube, sendo o Brasil o terceiro País do mundo que mais consome e produz conteúdo para a plataforma?

Nós somos um povo social, agregado, gostamos de estar juntos, brincalhão. Somos uma sociedade expansiva, que se comunica, até mesmo quando temos as desgraças a gente faz piadas. Nosso papel é democratizar o acesso, seja o acesso à informação, ao conhecimento, ao entretenimento ou ao comércio. Você lá de Manaus poder comprar um negócio na China e algo fantástico! Antigamente, quem eram os nossos influenciadores? Os artistas de televisão! Você tinha pouquíssimos canais de televisão. Isso dava uma cara não, necessariamente, que refletia a população deste país, que tem gente branca, negra, índia, homens, mulheres, gays. Até pouco tempo atrás, esses grupos não tinham voz. Hoje eles têm. Talvez a maior beleza do YouTube e do influenciador digital seja o fato de eles poderem influenciar comunidades que antes estavam à margem da foto. Antes, a imagem do país era o Rio de Janeiro e São Paulo. Hoje você tema Thaynara OG, que veio de São Luís, o Whindersson, que veio do Piauí, você tem influenciador do mundo inteiro. Então, você pode escolher que tipo de coisa quer assistir. Esta é a maior maravilha do YouTube. Quando você distribui para mais gente, muitas vezes existem pessoas que se sentiam donas de determinados territórios e ficam incomodadas. Então, eu acho que a democratização da oportunidade tem que ser celebrada!

Como será a audiência da TV no futuro, diante do poder cada vez maior dos smartphones e dispositivos móveis?

Acho que será um desdobramento que você vê hoje. Você assiste ao conteúdo que você quiser (on demand) aonde você estiver! Isso explica o tamanho e o sucesso da Netflix, do YouTube, em qualquer plataforma digital. Todos nós gostamos de assistir, interagir e compartilhar. E ao longo do tempo, as pessoas poderão escolher que tipo de informação elas vão consumir. A televisão aberta tem o seu papel. Mas acredito que o poder cada vez maior vai estar dentro dos smartphones, inclusive com a própria transmissão da televisão. Inclusive, a gente conversa isso com as emissores de televisão que são parceiras nossas, quando mais pontos de vista tiver no mundo, do ponto de vista jornalística, melhor será. Estas empresas estão trazendo seu conteúdo para o ambiente digital, porque entenderam que o consumidor está aqui (aponta para o celular). Muita gente não tem mais o hábito de ver televisão. E as empresas de televisão entenderam isso e falam com o consumidor: vejam mais no aplicativo, no site da emissora. Então vira uma coisa só e somos parte desse movimento!

As dimensões do Brasil e as dificuldades de conexão em muitas regiões, inclusive na Amazônia, afetam os planos do Google?

É difícil você fazer um trabalho de conectividade muito bom num país continental e de dimensões geográficas como o Brasil. Quando fizemos o projeto dos balões (o Loon), no Piauí, conseguimos conectar uma escola no meio do nada! Tem regiões do Amazonas, por exemplo, que é economicamente inviável você conectá-la da maneira tradicional, com torres de transmissão e rádio base. Por um lado, é um desafio. Por outro lado, estão aparecendo tecnologias alternativas que vão favorecer esta conectividade, sendo o Loon uma delas. Em um prazo de cinco anos, essas tecnologias vão conseguir conectar todas as pessoas. Tem muita gente trabalhando nisso porque é um potencial econômico. O potencial de integrar uma região com baixa conectividade é trazer mais gente para o mercado de trabalho, especialmente numa região como a Amazônia.

Falando em Amazônia, o que mais o Google está projetando para a região?

A Amazônia não é só importante para o Brasil, mas para o mundo! Você tem a maior biodiversidade do planeta, maior reserva de água doce, então aumenta a consciência do planeta em relação a isso. Acho que tem o lado da importância para todos nós e também a possibilidade de conectar pessoas para que elas possam proteger e usar as riquezas de forma sustentável. Nos últimos dez anos, vemos mais esta preocupação, mas temos um longo caminho pela frente. Então, nós, do Google, acreditamos que a tecnologia tem que conectar as pessoas, inserir as pessoas que vivem na região no contexto global, trazer a consciência sobre desmatamento, riscos, desastres ecológicos, entendimento sobre questão climática na região. Tudo isso faz parte de um processo de conscientização. Se temos que deixar algo de bom para o planeta é torná-lo mais consciente.

Como a empresa tem escolhido adotar alguns projetos de responsabilidade social para o Brasil?

Esses programas servem para a gente dar acesso a todos. A tecnologia evolui muito rápido. Fazemos cursos, palestras, desenvolvemos empoderamento de mulheres, trabalhamos a questão das minorias negras, indígenas. Se não pensarmos no brasileiro nativo, no negro, nós estamos deixando metade da população de fora. Quando falamos de mulheres, em programa como WomanWill (que ajuda elas a ganharem maior consciência de sua capacidade empreendedora) você não ajuda só a mulher, mas a família inteira que está por trás. Então, a gente tem essa consciência, tem trabalhado para isso. Fazemos treinamento para 3 mil pessoas. A ideia é essa: a gente acredita que uma empresa só consegue ser parte de uma sociedade, de compartilhar com as pessoas o máximo de suas plataformas. Isso que temos tentado fazer.

 

Perfil

Nome completo: Fábio José Silva Coelho

Idade: 54 anos

Formação: Engenharia Civil na Universidade Federal do Rio de Janeiro; MBA em marketing e planejamento estratégico pela  UFRJ e Pós em Administração de negócios pela Harvard University, em Boston.

Experiência: Presidente do IG; presidente da AT&T Inc; vice-presidente de Marketing do Banco Citibank; diretor de Marketing da Quaker Oats e da Gillete Brasil e Estados Unidos.

Publicidade
Publicidade