Publicidade
Cotidiano
REVELADO EM DELAÇÃO

Notas frias para aluguel de jatinho por Braga daria para bancar 279 viagens a Eirunepé

Montante que delator da J&F diz ter repassado ao senador Eduardo Braga por meio de falso aluguel de jato dá para conhecer todo o estado do Amazonas 28/05/2017 às 05:00
Show dslfj sdlfm sdf
(Arte: Tiago Rocha)
Janaína Andrade Manaus (AM)

A propina de R$ 6 milhões que o executivo Ricardo Saud, da J&F, diz ter pago ao senador Eduardo Braga (PMDB-AM) durante a campanha de 2014, mascarada por meio do aluguel de um jato a ser usado pelo senador, possibilitaria que o político viajasse todos os dias por três anos e dois meses, incluindo sábados, domingos e feriados ao Município de Maués (a 267 quilômetros de Manaus).

O valor, segundo a delação, foi repassado a Braga no início da campanha para o governo do Estado, de onde saiu derrotado com uma diferença de 173.551 votos em relação a José Melo (Pros).

Segundo orçamento solicitado pela reportagem de A CRÍTICA à empresa Amazonaves Táxi Aéreo Ltda, onde o custo da viagem – ida e volta, ao Município de Maués, é de R$ 5 mil na aeronave modelo Caravan, com capacidade para nove pessoas e dois tripulantes, similar a utilizada em duas notas emitidas pela Rico Linhas Aéreas para viabilizar pagamento de propina, camufladas no aluguel de um jatinho com capacidade para 9 passageiros e dois tripulantes a Braga, financiadas, segundo o delator, pela J&F, dona da JBS.

Se quisesse ter utilizado o jatinho para viajar ao município mais distante do Amazonas – Eirunepé, que fica a 1.245 quilômetros de Manaus –, Braga conseguiria ter realizado 279 viagens, sob o custo de R$ 21,5 mil, cada. A Tabatinga, distante 1.105 quilômetros de Manaus, o senador poderia ter visitado 285 vezes, acompanhado de pelo menos oito assessores.

Para Carauari, a 702 quilômetros de Manaus, Eduardo Braga, desembolsando R$ 14,9 mil realizaria 402 vôos, ou seja, viajaria por um ano e um mês. A Coari, distante 370 quilômetros de Manaus, Braga conseguiria ter ido e voltado de jatinho 857 vezes com um custo de R$ 7 mil por viagem. Desta forma ele teria ido a Coari por dois anos e três meses. À terra dos bois bumbás Garantido e Caprichoso – Parintins (a 325 quilômetros de Manaus) –, o senador conseguiria com o valor da propina ter viajado também 857 vezes.

A reportagem de A CRÍTICA também procurou a companhia área CTA - Cleiton Táxi Aéreo, de onde obteve o orçamento na aeronave modelo CESSNA 208 Grand Caravan Turbo Hélice (C-208), com capacidade para 9 passageiros e dois tripulantes e 250 kg de carga, para os municípios de Maués, Carauari e Eirunepé.

Pelos custos da CTA, Braga conseguiria ter realizado com os R$ 6 milhões pelo menos 468 viagens, com o custo, cada, de R$ 12,8 mil. A Carauari, onde a viagem de ida e volta sai a R$ 39,6 mil, o político teria feito 303 vôos. A Eirunepé, com despesa de R$ 57,6 mil, por vôo, Eduardo Braga teria viajado por quase três meses e meios, totalizando 104 viagens.

 A Rico Linhas Aéreas, citada na delação como a empresa que camuflou o pagamento de propina para Braga, foi procurada pela reportagem, que lhe solicitou orçamentos de vôos para municípios do interior do Estado, mas até o fechamento desta reportagem não houve resposta.

Delator entregou notas fiscais

A informação referente ao pagamento de propina ao senador Eduardo Braga foi noticiada no Jornal Nacional, da TV Globo, na noite de 20 de maio, tendo como base documentos que o executivo Ricardo Saud, da J&F, apresentou como parte do acordo de delação premiada firmado com o Ministerio Público Federal.

 A reportagem exibiu duas notas fiscais, uma no valor de

R$ 2.280.000 e outra de R$ 3,8 milhões, totalizando R$ 6,08 milhões. A nota emitida pela Rico Linhas Aéreas é referente ao aluguel de um jatinho com capacidade para nove passageiros e dois tripulantes.

De acordo com  os documentos apresentados pela reportagem, as notas referem-se ao aluguel de uma aeronave modelo Cesna Citation XLS, em dois períodos: abril a agosto e setembro a novembro, período no qual o senador Eduardo Braga disputava a eleição para o governo do Estado.

Segundo o delator, este pagamento a Eduardo Braga se encaixa no que ele chama de “reservatório de boa vontade”, quantias em dinheiro pagas aos políticos sem que houvesse uma contrapartida específica. A intenção era contar com os políticos quando necessário. “E para não atrapalhar a gente”, afirma.

‘Denúncia contém erros graves’

Em nota divulgada à imprensa, o senador Eduardo Braga (PMDB), sustentou que a delação do executivo Ricardo Saud, da J&F, onde foi afirmado o pagamento de propina de R$ 6 milhões ao político, durante a campanha de 2014, repassada por meio do aluguel de um jato a ser usado pelo senador, “contém erros crassos e graves”.

“Saud é explícito ao afirmar que sua empresa fez doações eleitorais registradas para a campanha de Eduardo Braga ao Senado Federal. É falso. Os registros da Justiça Eleitoral comprovam que Eduardo Braga não recebeu nenhuma doação do grupo J&F por via direta ou por meio de seu partido, o PMDB”, diz a nota divulgada pela a assessoria de Braga no dia 19 de maio.

Outra inverdade, segundo o senador, se refere ao apoio de Eduardo Braga à ex-presidente Dilma Rousseff. “A relação de proximidade entre ambos remonta ao período em que Dilma foi ministra do governo Lula. No governo Dilma, Eduardo Braga foi ministro de Minas e Energia, líder do governo no Senado e nunca negociou seu apoio à ex-presidente em qualquer base”, conclui a nota.

A assessoria jurídica de Eduardo Braga estuda medidas legais contra o delator.

Em números

43 milhões de reais  foram pagos a senadores do PMDB, chamados de ‘coringas’, para ‘pacificar’ a legenda em 2014. O valor inicial era de R$ 35 milhões. Mas depois subiu.  Deste total, R$ 6 milhões teriam sido pagos ao senador Eduardo Braga, que disputou o governo em 2014.

Ricardo Saud Executivo da J&F

“(O pedido ocorreu) quando estavam iniciando a pré-campanha. Tinha R$ 35 milhões destinados a seis membros do Senado, os ‘coringas’ do Senado. Renan (Calheiros) ficou com uma parte maior (R$ 9,3 milhões), Valdir ficou com uma parte menor - R$ 4 milhões), e o Jader, Eduardo (Braga) e Eunício, com a mesma parte, R$ 6 milhões, cada um”, enumerou o executivo Ricardo Saud, em delação premiada, onde trata de um grupo do PMDB que não queria Michel Temer como vice de Dilma. Um desses “coringas” era Eduardo Braga. Além dele, receberam propina Renan Calheiros, Jader Barbalho, Valdir Raupp e Eunício Oliveira. A decisão de pagar propina para os senadores do partido foi oficializada em uma reunião de Joesley Batista, da JBS, com o então ministro da Fazenda Guido Mantega, que representou o PT.

Outro caso

O senador Eduardo Braga também foi citado na delação da empreiteira Odebrecht. Em sua delação, o ex-diretor de Projeto de Infraestrutura da Camargo Corrêa, Arnaldo Cumplido, revelou um “ajuste” entre o Grupo Odebrecht e o então governador Eduardo Braga para que fossem feitos pagamentos em seu favor, relativos à obra da Ponte do Rio Negro.

Publicidade
Publicidade