Sábado, 31 de Outubro de 2020
Dom Leonardo Steiner

Novo arcebispo diz que distâncias não vão impedir Igreja de levar a fé

Nomeado esta semana pelo papa Francisco como o novo arcebispo de Manaus, ele falou em conversa ao A CRÍTICA sobre o significado de estar nas comunidades mais distantes, importância da floresta amazônica.



domleonardo1_99B4B391-F58D-4D6A-B585-00B57FF198F1.JPG Dom Leonardo Ulrich Steiner tem 69 anos de idade e toma posse como bispo de Manaus em janeiro / Foto: Euzivaldo Queiroz
01/12/2019 às 10:15

Natural de Forquilhinha (SC), o novo arcebispo metropolitano de Manaus, dom Leonardo Ulrich Steiner, tem 69 anos de idade recém-completados e um desejo que se realizou pelas mãos do papa Francisco: trabalhar na região amazônica e contribuir para a diminuição da distância entre os homens e a fé.

Trazendo como lema episcopal a frase em latim “Verbum Caro Factum”, que significa “Verbo feito carne”, o sorridente religioso, formado em Filosofia e Teologia, e ex-secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por dois mandatos consecutivos (de maio de 2011 a maio deste ano) vai prosseguir o trabalho feito por dom Sérgio Castriani de ouvir as comunidades, leigos, presbíteros, pastorais, etc. Ele é 



Primo do cardeal já-falecido  dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), o religioso, que tomará posse no próximo dia 31 de janeiro, respondeu a vários assuntos abordados por A CRÍTICA, como a evangelização na Amazônia em comunidades ribeirinhas, a importância da floresta amazônica, o momento atual da Igreja Católica e do cenário político do Brasil, entre outros:

Qual seu sentimento como novo arcebispo metropolitano de Manaus?

É uma alegria muito grande poder estar aqui e me encontrar com dom Sérgio, os bispos auxiliares e devagar me inserindo na realidade da Arquidiocese de Manaus. Eu sou muito grato ao Santo Padre de ter sido enviado para a Amazônia, esse era o meu desejo, havia manifestado isso a ele, e não esperava ser nomeado arcebispo de Manaus, mas vir para a Amazônia era um desejo meu pois já havia trabalhado nela em São Félix do Araguaia como bispo. Sou muito grato ao papa e estou muito alegre com a nomeação. Minha chegada definitiva será no final de janeiro, mas vim para um primeiro contato e conhecer um pouquinho a futura esposa. Dizemos na Igreja que o bispo tem uma esposa, que é a Diocese, no meu a Arquidiocese. E vim conhecê-la. Falarei com dom Sérgio, terei um encontro com os padres, presbíteros, também com a Cáritas Arquidiocesana, com os seminaristas. São os momentos em que devagar eu vou conhecendo a Arquidicese e vou me inserindo melhor.

Qual sua expectativa para esse trabalho?

Naturalmente quando somos enviamos a uma região, a uma Igreja, precisamos entrar com os pés da humildade. A Arquidiocese tem uma história, uma longa história, bonita. A Igreja de Manaus tem uma história de vida inserida na sociedade. Tem participado de debates, tentado ser uma presença testemunhal muito grande. O meu desejo é primeiro chegar, ouvir as comunidades, as necessidades, dialogar com tantas pessoas que estão á frente das nosas comunidades, os leigos, os presbíteros, os movimentos, as pastorais, para juntos darmos continuidade à vida da Arquidiocese. Entrar nesse novimento, eu creio que é decisivo, também, para podermos depois implementar as orientações que o Santo Padre há de nos dar com a Carta Pós-Sinodal. Eu participei um pouco das discussões anteriores ao Sínodo, procurei ouvir aquilo que foi discutido no Sínodo, e vamos aguardar o que o Santo Padre vai nos dizer. Venho graças a Deus de uma experiência muito rica da CNBB de ter tido a oportunidade de participar da vida de tantas igrejas do Brasil e espero dar, também, a minha contribuição no sentido de colocar os meus dons a serviço da Igreja aqui de Manaus. 

Como vai ser o início do seu arcebispado quanto a visita às comunidades do interior do Estado?

Trabalhei em  uma prelazia que tinha 150 mil quilômetros quadrados (São Félix do Araguaia, no Mato Grosso)e visitei todas as comunidades. Todas. A presença do bispo precisa chegar às comunidades. Assim como dom Sérgio tem feito, como dom Luiz fez, os bispos auxiliares. É necessário que o bispo conheça e seja conhecido, pois só assim é que se pode ouvir e dar uma mensagem. Meu desejo é, inicialmente, visitar todas as nossas comunidades. O Plano Pastoral está elaborado até 2022, já feita a discussão, e creio que a minha tarefa primeira será justamente visitar todas as comunidades se Deus me der a saúde necessária. Preciso me adaptar aqui primeiro também, pois não só a geografia é diferente da qual eu vivo atualmente, mas também as temperaturas. Mas Deus há de me dar a graça de estar presente em todas as comunidades. O interior do Estado precisa de nós. São as comunidades ribeirnhas que precisam da nossa presença. São as pessoas que vivem quase à margem da sociedade globalizada que precisam da nossa presença como Igreja, a presença do Evangelho para animá-las e levar esperança e continuar a vida harmônica que levam nesse distanciamento geográfico. Eu desejo encurtar as distâncias humanas, as distâncias da fé. As distâncias geográficas não vão nos impedir de levar a fé.    

Qual será o seu maior desafio à frente do arcebispado?

Será compreender a mentalidade das pessoas, a religiosidade, a diversidade religiosa, cultural. Vou fazer um grande esforço para tentar compreender pois vim de uma outra região, de outra formação. Isso é exigente. Quando fui transferido para São Félix do Araguaia eu vi as grandes diferenças que existem. E é preciso, primeiro, se colocar à disposição. Se Deus quiser eu vou conseguir isso.    

Como vai ser substituir um verdadeiro guerreiro como dom Sérgio Castriani?

Em primeiro lugar é um desafio, porque não vim para substituí-lo, e sim para dar prosseguimento e, é claro que a figura dele vai me ajudar no meu ministério.  

O senhor se classifica como um conservador? Qual a sua corrente na Igreja?

Não tenho corrente nenhuma: minha corrente é o Evangelho. Alguns me classificam de progressista. Na Igreja não existem conservador, e sim posições eclesiais às vezes diferentes, concepções diferentes inclusive teológicas que são normais e até necessárias em uma conferência episcopal tão grande quanto a nossa. Alguns também acham que a diferença das nossas posições políticas é que às vezes nos fazem ser de esquerda ou de direita. Eu prefiro ser do Evagelho. 

Para o senhor, qual a  importância da floresta amazônica?

Ela é fundamental para que a humanidade, apesar de pessoas terem dito que não é. E não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Vejam, por exemplo, as águas dos rios aéreos que chegam em Brasília, vêm daqui. Os rios aéreos só existem por causa da floresta amazônica. E na medida em que nós vamos diminuindo a área verde da Amazônia, os rios aéreos também diminuem. Vamos nos dar conta da importância real da Amazônia quando tivermos falta d’água. Quando percebermos que as águas não chegam mais. Que nós teremos que pedir auxílio, e talvez seja tarde porquê a floresta amazônica não se recompõe tão rapidamente, mas mais que o cerrado, que se recompõe quase sem possibilidade. A Amazônia representa a harmonia da nossa Casa Comum, na expressão do nosso papa Francisco. E eu estou alegre de contribuir na oreservação da Casa Comum de anunciarmos a todos a necessidade de cuidarmos dela. A Amazônia é uma região onde a Igreja pode inovar, pode criar junto com os ministérios dos leigos, pode pensar sua pastoral de maneira diferente quanto à sua inserção e também, com o Sínodo da Amazônia, meu sonho era poder dar minha contribuição a partir dele. 

Os fiéis católicos, o “povo de Deus” já lhe acolheu desde a sua chegada, inclusive no aeroporto. O senhor já teve essa percepção de acolhida do povo amazonense?

É muito acolhedor sim, e eu já sabia que o povo do Norte é assim. Mas não sabia que era tanto assim, e espero poder acolhê-los a todos no meu coração durante o tempo em que estiver aqui em Manaus como arcebispo. 

O que os fiéis podem esperar do novo arcebispo a partir do dia 31 de janeiro de 2020?
 
Podem esperar um bispo que quer se inserir, estar presente, levar adiante o Plano Pastoral que dom Sérgio organizou e dinamizar a nossa Arquidiocese. Será, como é atualmente, uma Igreja muito presente na sociedade, abordando as questões conflituosas, da violência, drogas, desmatamento, indígena. São tantos os problemas, como as prisões. São questões às quais vamos dar continuidade a um trabalho que já vem sendo feito e que, talvez, em alguns elementos nós tenhamos que rever e aprofundar.   

Em um momento no qual o Protestantismo está tão forte em nosso País, onde o presidente da República, Jair Bolsonaro, é evangélico, como o Catolicismo pode atrair ainda mais fiéis?
  
Penso que não se trata de atrair, mas de anunciar e mostrar a beleza do Evangelho, do Ser Católico, sua possibilidade existencial. Católico quer dizer o todo, o generoso, gratuito, esse modo de vida de entrega, de cuidado aos irmãos e mais necessitados. Esse modo da acolhida, da receptividade, da urbaneidade. Isso é ser católico, e vamos fazer todo esforço para ser essa presença também consoladora e samaritana. Queremos ser essa presença como foi Jesus. Aqui tem um jeito de viver que vale a pena, um jeito de Ser Igreja que vale a pena, e percebemos que houve devagar uma mudança, com as pessoas percebendo que a nossa caridade, nosso estar presente no mundo da cultura e comunicação, é uma maneira livre, autêntica, e espero que continuemos uma Arquidiocese assim.

Qual a avaliação que o senhor faz reente Sínodo da Amazônia?

Os bispos da Amazônia brasileira já vinham discutindo há mais tempo, pois têm o costume de se reunir preriodicamente. E nao só em relação à floresta, mas a Amazônia como um todo na parte da evangelização, povos indígenas, ribeirinhos, desmatamento, grandes obras. Essa discussão foi feita até se chegar o momento de pedir ao Santo Padre se não seria interessante uma assembléia ou talvez um Sínodo, e o papa entendeu pois tem uma grande preocupação com a Amazônia. Fiz parte da Conferência Episcopal por dois mandatos e cada visita que fazíamos ao papa ele perguntava: “E a minha Amazônia? E a nossa Amazônia, como vai?”. Ele abordava isso não só como pergunta, mas como dinâmica, como estar mais presente. O Sínodo também inclui uma realidade urbana em que se encontra Manaus. Agora vamos esperar o que o Santo Padre vai nos dizer para podermos estar mais presentes e cuidar mais. Temos muito que aprender com nossos povos indígenas, que habitam a terra como casa. Estamos devagar sendo desenraizados, e a Amazônia  pode nos ensinar a permanecer, habitar, conviver, ser família aqui na nossa região. 

Como o senhor analisa o cenário da Igreja Católica no mundo atualmente?

A Igreja vive um momento muito bom. Vivemos uma crise hoje no mundo, até se fala na perda de valores, da fé, mas a fé a gente não perde. Se fala da violência, da migração que é problema seríssimo. E se fala muito que vivemos no mundo da Ciência e da Técnica, quer quer tudo comprovado. Mas a fé não comprova: a fé vive. É um momenro rico para a Igreja pois agora chegou um momento na História aonde aquele que crê precisa viver da sua fé, e não da comprovação, não do cálculo. E é um momento muito precioso onde a Igreja precisa sair de sí. Na Europa, por exemplo, há a diminuição de fiéis e o aumento enorme daqueles que não crêem e não tem religião. Aqui no Brasil já ultrapassou os 10%. É um momento muito importante e precioso do qual precisamos rever nossa evangelização, nosso anúncio, nossa comunicação. E a Igreja está acordando para isso: veja a figura do papa Francisco, que está mostrando onde estão os eixos fundamentais e elementos fundamentais da fé. Ele quando fala da misericórdia está tratando daquilo que é fundamental para a fé cristã. Viver da fé, mas uma fé solta, livre, gratuita, generosa, de fonte. Acho que estamos vivendo um tempo de graça atualmente.    

E como o senhor vê o momento político do Brasil?

É um momento muito difícil para o País. Tive a graça de poder durante os oito anos em Brasília de ter contato com o Congresso Nacional e ver quantos senadores e deputados sérios que realmente são políticos e não trabalham em benefício próprio e não para determinadas corporações ou grupos sociais. Mas também pude o outro lado da dificuldade, do conluio, da corrupção, e acabamos colocando todo mundo dentro de um mesmo cesto. E isso não é verdade. Talvez o maior problema político que estamos vivendo é termos denegrido a Política, termos dito que ela é podre. A Política é vital para uma sociedade, e mesmos os partidos. Sem Política não existe convivência, sem ela não há o cuidado da sociedade e nem políticas públicas. Vivemos um  momento difícil porque a Política deixou de ser Política, e os meios e comunicação têm ajudado a denegrir a necessidade da Política, falando mal dos políticos, mas também dela. Hoje em dia até se ameaça com o AI5. Isso é uma questão de fundo da concepção da Política. Hoje em dia estamos trabalhando na base da agressividade, das notícias falsas. Estamos tentando governar o País na base de notícias falsas, da agressividade, da violência. Isso não constrói um Brasil. E, com isso, cada vez mais os povos, e os trabalhadores, vêm sendo marginalizados. Na chamada “Reforma Trabalhista”, se disse que haveria aumento de emprego, mas isso não aconteceu. Veja que a sociedade foi enganada. É, também, um momento difícil na Política porque os poderes estão se desentendendo. Não estão sendo uma prsença necessária de poderes que trabalham em conjunto, mas numa determinada tensão - democracia tem essa tensão. E há uma determinada agressividade de determinados grupos em relação aos poderes, onde sem eles não há democracia. Podemos discordar de um determinado ministro, de um senador, deputado, do presidente, mas não podemos colocar em risco, em jogo, o Executivo como tal, o Judiciário e o Legislativo como tal. Podemos criticar pois existem problemas. Essa agressividade grande em relação aos três Poderes, devagar fragiliza nossa democracia. 

Como garantir um diálogo afetuoso com quem pensa diferente de nós?

É difícil porquê o diálogo está difícil. A palavra diálogo é muito rica. Seria mais ou menos assim: eu chego em uma sala e vejo tantas coisas e devagar eu vou colocando, devagarzinho, cada coisa em seu lugar. Assim nós, em grupo, pela palavra, vamos tentando colocar as coisas no seu devido lugar sem empurrar por cima do outro as minhas concepções. Vamos dialogando para ver o que é melhor. Temos que demonstrar de novo afeto pelo outro, respeito por ele, cuidado. Família é essencialmente isso. Se nós, com as nossas diferencças pudermos permanecer no cuidado, no afeto, na responsabilidae um pelo outro, podemos recompôr a relação familia, especialmente agora no Natal pois Deus veio nos mostrar que tipo de relação podemos ter entre nós, que é a da fragilidade, do pequeno, do próximo. Imagina poder pegar Deus no braço, uma criança extremamente frágil. A relação familiar é frágil extremamente forte quando cuidada.        

Qual a mensagem que o senhor deixa para os fiéis do Amazonas ?

Vamos viver juntos o Evangelho, viver juntos Jesus e anuncia todos juntos a Jesus. Que Deus abençoe a todos os nossos queridos fiéis.

Repórter de A Crítica

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