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Cotidiano
FORA DA LEI em Manacapuru

Novo subcomandante da PM em Manacapuru diz que já deu ordem para matar bandidos

Capitão Joel Zelian afirma que vai fazer um verdadeiro choque de gestão e que não tem medo de ser denunciado 28/10/2015 às 16:51 - Atualizado em 25/02/2016 às 18:59
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Em sua fala, Zelian tenta mostrar para a população que a polícia estará presente, mas acabou assustando os moradores (Foto: Reprodução)
Luciano Falbo

Em entrevista à Rádio Web Manacapuru neste fim de semana, o novo subcomandante da Polícia Militar em Manacapuru, capitão Joel Zelian, afirmou que vai fazer um verdadeiro choque de gestão no combate à criminalidade, nem que para isso tenha que burlar a lei.

O subcomandante revelou que nunca invadiu uma casa com autorização da Justiça e nem tem medo de ser denunciado e que é “audacioso mesmo”. Ele disse que já foi dada a ordem para que policiais matem bandidos durante troca de tiros.

Zelian foi elogiado pelo governador José MeloO comando do 9º Batalhão de PM foi trocado na última sexta-feira com o objetivo de conter uma onda  de assaltos e acidentes de trânsito na cidade. O áudio da entrevista viralizou por meio do aplicativo WhatsApp e, ao invés de deixar a população tranquila e confiante no trabalho da polícia, como esperava o capitão, as declarações de Zelian deixaram moradores aterrorizados.

“Aqui e acolá vocês vão ouvir de eu estar invadindo casa. E eu vou logo dizendo uma verdade para vocês, eu nunca invadi casa com autorização da Justiça. A gente faz na bruta mesmo. Então, você que tem sua casa, que é casa traficante, eu vou invadir tua casa, estou logo avisando”, disse o capitão.

 “Depois, pode me denunciar no Ministério Público, Justiça, promotor, para desembargador, para quem quiser. Esse pessoal não policia, quem policia sou eu e eu sou audacioso mesmo, tá certo. Se quiserem me mandar embora daqui, não tem problema, mas que nós vamos dar um choque de gestão, nós vamos”, afirmou.

“Se o nosso policiamento encontrar esse tipo de assaltante com arma caseira, que venha com a besteira de querer trocar tiro, já dei ordem para matar. Quero nem saber. Que chore, você, por ter criado um filho marginal. Não me interessa aqui se os direitos humanos estiverem me ouvindo. Eu lamento muito", disse na entrevista.

Zelian prosseguiu dizendo que os arrastões estão acontecendo porque está faltando a polícia estar "cassetando uns e outros" e faz um alerta aos pais de menores de idade: "E outra coisa, de menor. Cuidado, papai e mamãe, com seu filho de menor. Eu, aqui, pra mim, todo mundo é bandido, do cidadão ao cidadão infrator. Então, o cidadão que se comporta direitinho, ele não vai ser abordado. Então, eu quero que a população sinta que a polícia vai estar lá. Nós vamos atuar, nós vamos apertar. Esses arrastões que estão acontecendo... isso é falta da polícia estar cassetando uns e outros. E eu vou fazer isso bem feito", disse.

‘Ele foi infeliz nesse caso’, diz comandante do CPI

“Ele está totalmente equivocado na abordagem. Vamos chamá-lo para reorientá-lo”, disse o comandante do policiamento do interior (CPI), tenente-coronel França. O oficial disse lamentar o equívoco do subcomandante e  que essa não é a filosofia da Polícia Militar do Amazonas. “Nossa filosofia, inclusive, é algo muito frisado pelo comandante de lá, o major Gióia, é do policiamento comunitário. Nossa ideia é ter um policiamento ativo, mas não de repressão por repressão. Há situações específicas para a repressão. Nós temos o dever de fazer tudo dentro da lei”, afirmou.

Para José França, Zelian “se empolgou”. “Por ser um policial antigo, que busca resultados, se empolgou. Ele é um cara que busca o resultado, mas foi infeliz nesse caso. Nós prendemos e levamos para Justiça, que decide o que fazer. É assim que devemos agir”, acrescentou.

Atuação será dentro da lei, afirma major Gióia

O comandante do 9º BPM, major André  Gióia, ficou surpreso com a informação sobre as declarações de Joel Zelian. “Na entrevista que demos ao programa do prefeito, que é a que me lembro, não foi dito nada dessa natureza”, disse.

André Gióia disse que a atuação da PM em Manacapuru sob o seu comando será dentro da lei. “Vamos cumprir todos os regulamentos. Não vamos fazer nada de arbitrário. Nós chegamos ao município para somar, para ajudar a reduzir os números da criminalidade e deixar a população mais segura, se sentindo mais segura e está enganado quem pensa o contrário”, afirmou.

Nesse fim de semana, contou Gióia, a PM, em parceira com a prefeitura, a Polícia Civil e outros órgãos, realizaram uma grande operação para coibir a criminalidade e as infrações de trânsito. “A fiscalização de trânsito aqui é municipalizada, mas estamos dando apoio porque o número de acidentes aqui está muito alto”. “O que quero deixar bem claro é que chegamos para fazer um bom trabalho na cidade, que estava muito abandonada. Agora, a polícia vai estar na rua”, disse. A reportagem não conseguiu contato com Joel Zelian.

Denúncias de tortura e lesão corporal

O histórico de Joel Zelian na Polícia Militar é marcado por denúncia de tortura, lesão corporal grave e abuso de autoridade.  Em 2010 ele foi afastado pela Corregedoria do Sistema de Segurança Pública (SSP) da chefia da delegacia do município de Rio Preto da Eva.

Na ocasião, ele atirou em  uma das pernas de um detento nas dependências da unidade policial. Ele admitiu ter atirado, mas disse que o disparo foi acidental. Também pesou para o afastamento do PM a denúncia de tortura a uma jovem de 18 anos, que estava grávida. “Ele disse que ia colocar uma arma na minha cabeça se eu não falasse onde estava a droga e que meu lugar no hospital já estava reservado para eu abortar meu filho”, relatou a jovem à época.

A denúncia foi feita à corregedoria da SSP pela Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-AM).

A apuração das denúncias teve início no dia 5 de novembro  de 2010 e durou 15 dias. Conforme a lei, em caso de condenação, ele poderia  perder o cargo, a função ou o emprego público. No total, 11 procedimentos foram instaurados contra Zelian e outros policiais envolvidos no caso. A SSP ficou de enviar à redação, nesta quarta-feira (28), informações sobre o desfecho desses processos.

Em números: 160 policiais

É o efetivo  estimado de policiais militares em atuação em Manacapuru, segundo o comandante do 9º BPM,  André  Gióia. Segundo o chefe do CPI, José França, um dos motivos da troca no comando foi a tentativa de dar uma nova dinâmica no policiamento, dados os altos índices de criminalidade.

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