Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ECONOMIA

Número de famílias com dívidas registra leve queda em janeiro, aponta CNC

Presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que endividamento permanece elevado, mas a queda nos indicadores reforça que as dívidas têm sido compatíveis com a renda das famílias brasileiras



Jose-Roberto-Tadros-presidente-da-CNC_D200DA8E-38F7-4BD7-A0FC-C70DB1F70224.jpg Foto: Reprodução/Internet
10/02/2020 às 07:33

O estudante universitário, Emerson Martinz, de 23 anos, após ficar desempregado acumulou dívidas com a operadora de telefonia móvel e empresa de televisão a cabo. Em 2019, com a recolocação no mercado, ele organizou as finanças, negociou as contas em atraso e alterou hábitos no dia a dia para conseguir sair do endividamento. 

“Foi chegando conta e conta e quando fui vê a dívida já estava mais de R$ 3 mil e não tinha como pagar. Em 2019, me organizei reduzindo despesas, por exemplo, com alimentação, e juntei dinheiro. Negociei, mesmo assim o valor foi elevado, e paguei com essa economia no dia a dia. Com a mudança de hábitos, hoje já não gasto dinheiro com besteira”, disse o fotógrafo acrescentando que utiliza no planejamento financeiro uma tabela  com os valores que pode gastar durante a semana.



O percentual de famílias com dívidas em cartão de crédito, cheque especial e pré-datado, crédito consignado e pessoal, carnê de loja, prestação de financiamento de carro e da casa diminuiu, em janeiro de 2020, para 65,3%, após atingir o maior patamar da série histórica, de 65,6%, em dezembro.

Todavia, houve alta, nesse indicador, na comparação com janeiro de 2019, quando registrou 60,1%. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

De acordo com o estudo, foram registradas quedas em relação ao total de famílias com dívidas ou contas em atraso, de 24,5% para 23,8%, pelo terceiro mês consecutivo e no percentual de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas em atraso, de 10% para 9,6%. Os dois indicadores, entretanto, apresentaram alta em relação a janeiro de 2019, quando registrou 22,9% e 9,1%, respectivamente.

Equilíbrio

Na avaliação do presidente da CNC, José Roberto Tadros, apesar do endividamento permanecer em um patamar elevado, a queda nos indicadores de atraso e inadimplência reforçou que as dívidas têm sido compatíveis com a renda das famílias brasileiras. 

“As melhores condições do crédito têm permitido a ampliação desse mercado ao consumidor, que vem tendo mais segurança para comprar por conta da melhora recente do mercado de trabalho, confirmada pelos últimos indicadores econômicos”, afirmou.

A pesquisa ainda revelou que a parcela média da renda comprometida com o pagamento de dívidas mensais apresentou redução na comparação mensal: de 29,7% para 29,4%. O percentual é o menor aferido desde maio de 2019. Entre os principais tipos de dívidas apontadas pelos brasileiros em janeiro de 2020 estão: cartão de crédito (79,8%), carnês (15,9%) e financiamento de carro (10,9%). 

Análise

A economista da CNC, Izis Ferreira explicou que havia uma demanda represada por bens que são mais dependentes do crédito, como móveis e eletrodomésticos. 
“A proporção do comprometimento da renda com dívidas vem caindo desde novembro de 2019 e reforça que o consumo está sendo retomado através do que se pode chamar de dívida responsável, com as famílias se organizando para pagar empréstimos e financiamentos”, declarou a economista.

Para o assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas, José Fernando Pereira da Silva, a  pesquisa mostra que a economia amazonense lentamente se recupera e que a queda no nível de inadimplência é o principal indicador.

A pesquisa revelou a tendência de alta do endividamento que está associada à ampliação do mercado de crédito ao consumidor impulsionada por fatores como a melhora no mercado de trabalho e a redução das taxas de juros, que permitiu a redução do custo do crédito.

Cartão de crédito representa 77%

Estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontou que 80% da população de Manaus está endividada. O índice representa mais de  499,6 mil, em valores absolutos, e refere-se ao mês de janeiro. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) revelou também que desse total de endividados 26,6% possuem contas em atraso, o equivalente a 166 mil habitantes.

O tipo mais comum de dívida entre a população manauara é com cartão de crédito, representa 77,1%. Destes, 97,4% possuem dívidas com valor acima de dez salários mínimos. Em seguida, estão as dívidas com carnês (42,5%), crédito pessoal (7,7%) e crédito consignado (3,7%). Financiamento de casa e carro também aparecem com os índices 2,3% e 2,1%, respectivamente.

Conforme a CNC, 58,1% do público entrevistado possui dívidas em atraso com mais de 90 dias. A média é de 68,7% dias de atrasos. 

A pesquisa mostrou também a parcela da renda dos manauaras que é comprometida com dívidas mensais: até 10% (8,9%), de 11% a 50% (47,2%), mais de 50% (30,6%) e não souberam ou não responderam (13,2%).  O comprometimento médio da renda é de 35,3%.

"Ainda que tenha juros, prefiro parcelar e pagar” - Leonardo Jeronimo

O jornalista Leonardo Jerônimo, de 24 anos, conseguiu eliminar 95% das dívidas que somavam quase R$ 8 mil. Ainda na faculdade, em 2013, ele começou a fazer dívidas no cartão de crédito e a acumular contas em atraso em crediário, empréstimo e financiamento. “Desde cedo sempre quis ter cartão e fazer compras no meu próprio nome. Comecei a comprar bastante. Em 2019, vi que as minhas contas eram muito altas e o meu salário não era compatível para conseguir pagá-las a vista“, disse.

Ele listou todas as dívidas, entrou em contato com as empresas que estava devendo e selecionou contas que pudesse pagar o acordo, mesmo que fosse parcelado. “Ainda que tenha juros, prefiro parcelar, pagar e cumprir com o acordo. O Serasa Consumidor me ajudou na negociação e a ter controle. No site, algumas contas tive 90% de desconto“, afirmou.

Para sair do endividamento, Leonardo precisou cortar gastos e mudar hábitos na rotina. “Ano passado quase não fui ao shopping. Parei de ir ao cinema, comprar roupas, sapatos e outras coisas que a gente acaba comprando. Levei a própria alimentação para o trabalho e assim consegui manter os pagamentos. Tenho evitado fazer grandes compras que não caibam no meu orçamento. Estou negociando as dívidas restantes para o mês seguinte”.

Blog - Farid Mendonça Júnior Economista, advogado e administrador

A economia  brasileira ainda encontra-se em fase de recuperação, com os empregos sendo retomados pouco a pouco. Em 2019 foram criados 644 mil empregos formais.  A criação de empregos contribui para o aumento da renda das famílias e, consequentemente, para a obtenção de crédito, para o consumo e para o endividamento. Apesar dos números indicarem que o endividamento diminuiu nos últimos meses, a pesquisa mostra que o endividamento de janeiro de 2020 ainda está maior que janeiro de 2019, ou seja, o brasileiro ainda continua com um padrão de endividamento alto.

Não vejo ainda uma mudança no comportamento de endividamento do brasileiro. É bom destacar que ainda nesta fase de recuperação da economia, ainda mais com juros e inflação  historicamente baixos, além da facilidade de crédito, também com as chegada das fintechs rivalizando com os bancos tradicionais, os brasileiros visualizam um cenário mais favorável à obtenção de crédito e ao consequente endividamento, e isto pode representar uma armadilha. O ideal é que o brasileiro organize seus gastos, faça um bom planejamento, principalmente, com o objetivo de garantir sua sustentabilidade financeira e seu futuro.
 

 

 

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Repórter de A Crítica

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