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Cotidiano
SETEMBRO AMARELO

Suicídio entre idosos está acima da média para outras faixas etárias no Brasil

Abandono da família, exclusão do mercado de trabalho, frustrações, arrependimentos e outros problemas emocionais estão entre as motivações 23/09/2018 às 15:50 - Atualizado em 24/09/2018 às 12:04
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Foto: Reprodução/Internet
acritica.com* Manaus (AM)

“O importante é não desistir da vida, porque quando você escolhe encará-la da melhor maneira, a mesma pode surpreender positivamente. Morrer nunca é lucro ou a melhor opção”, afirma o aposentado Mário Fonseca, de 73 anos. Ele superou recentemente a depressão, mas, antes disto, tentou duas vezes tirar a própria vida. Neste Setembro Amarelo, mês nacional de prevenção ao suicídio, os últimos dados do Ministério da Saúde alertam para o número de suicídios na terceira idade do País.

Entre os anos de  2011 e 2016, os índices de suicídios apontam que na faixa etária dos idosos a partir de 70 anos, foi registrada média de 8,9 mortes por 100 mil habitantes. A média nacional para as outras faixas é de 5,5 por 100 mil.

O aposentado Mário, por exemplo, foi diagnosticado com depressão há três anos, quando se viu fora do mercado de trabalho, e no início de 2018 tentou suicídio. Ele conta que a sensação de inutilidade foi a principal causa para que ele olhasse a vida de forma negativa. “Percebi em um processo seletivo o preconceito com a minha idade, apesar do bom currículo, e foi uma das piores sensações já vividas”, desabafa o idoso.

O consumo de bebidas alcoólicas, arrependimentos e frustrações na vida também contribuíram para o declínio da saúde mental de Mário. Segundo ele, todos estes fatores, em conjunto, o levaram à tentativa do ato, interrompido pela família, que se mantém mais vigilante hoje em dia.

Para superar a depressão, o idoso menciona a ajuda Deus e a família. “Como um estalo, depois de tantas quedas, percebi que era amado e que minha morte só traria sofrimento para as pessoas importantes a mim”, relata Mário Fonseca. 

Sete meses após o quase acontecido, ele diz que sente a vida transformada da água para o vinho desde que tomou a decisão de escolher viver. O aposentado compartilha que, depois disso, até recebeu novas propostas de emprego, das quais escolheu uma, por meio da qual retomará sua trajetória profissional. Um incentivo a mais na nova vida dele.

Fator emocional e social

No olhar da psicanalista Lilian Barros, o tema precisa ser debatido com atenção. “A maioria não vai suicidar porque está em idade avançada e sim por falhas e problemas emocionais que já existiam há tempos. Raros são os casos de não serem compreendidos pela idade, por isso é preciso divulgar o assunto para que a família fique atenta”, observa.


Mário Fonseca, que venceu a depressão, tentou suicídio após se ver fora do mercado de trabalho. Foto: Patrícia Rabelo

Para o sociólogo Marcelo Seráfico, é importante falar, mas ainda existe um determinado tabu que precisa ser quebrado.

“Eu acho importantíssimo essa ideia de se discutir o suicídio. O tema é, como diria  Émile Durkheim, um fato social inegável que se amplia. Não falar dele significa fingir que essa realidade não existe. E pior, significa também ignorar que a decisão de tirar a própria vida é uma decisão que envolve certo grau de consciência”, comenta Marcelo Seráfico.

Ele acrescenta que é necessário entender e discutir as causas que levam a esse fato realizando discussões além do campo moral, como com frequência se faz, e que atribui ao suicídio uma conotação apenas de coragem ou covardia. “Procurando saber quais são de fato as motivações, condições sociais que envolvem tal decisão, a mídia pode contribuir positivamente na questão à medida em que ajuda a esclarecer e não apenas a produzir juízos de valor sobre os casos”, ressalta o sociólogo.

Ajuda

188 é o número de telefone gratuito de atendimento do Centro de Valorização da Vida (CVV), que dá apoio emocional e preventivo ao suicídio. O atendimento também é feito pela internet (acesse aqui).

Abandono contribui para a depressão

Cento e vinte e três idosos com mais de 60 anos participam do Programa Longa Permanência (ILPI) desenvolvido pela Fundação Dr. Thomas. O Município presta assistência em caráter à pessoa idosa em risco social, sem ou com vínculo familiar, cuja família seja carente de recursos financeiros ou que tenha sido vítima de agressão.

Dentro do programa, eles recebem alimentação, atendimento médico, psicológico, fisioterapêutico, social, e realizam atividades ocupacionais de recreação e cultura, entre elas: pilates, funcional, caminhada orientada, ginástica, meditação, etc.


Fonte: Ministério da Saúde

Do número de idosos acolhidos pelo programa de Longa Permanência, apenas 20% deles recebem visitas familiares e há ainda aqueles que não possuem ligação com ninguém da família. De acordo com a Assessoria de Comunicação da FDT, até o momento não houve nenhuma tentativa de suicídio de forma direta ou indireta por nenhum dos internos.

Cuidadora de idosos há sete anos, a enfermeira Suely Lima, diz que o abandono da família contribui para o desenvolvimento de depressão. “Quando a idade vai chegando, a pessoa pensa que não tem mais utilidade para nada, muitos idosos são abandonados em asilos, não recebem visitas e acabam criando a ilusão de que não são importantes, sendo acometidos por várias doenças, entre elas a depressão, que se não curada, leva ao suicídio”.

 

*Trabalho de autoria dos alunos Laura Cristina da Silva Freitas, Gabriele da Costa Moura, Cindy Patrícia Lopes da Silva, Dionisson Jorge da Silva e Patrícia Rabelo, da UniNorte, como fruto do concurso de jornalismo universitário 'Suicídio e o Papel da Mídia'.

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