Domingo, 23 de Janeiro de 2022
DECLARAÇÃO

'O governo mentiu descaradamente', diz ambientalista sobre novos dados de desmatamento

Muriel é ex-secretária nacional de Coordenação de Políticas Públicas para a Amazônia do Ministério do Meio Ambiente



WhatsApp_Image_2021-11-19_at_18.02.58_096A003E-46BF-444A-9276-41AF60AE932E.jpeg Foto: Divulgação
20/11/2021 às 08:10

Novos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o desmatamento na Amazônia Legal cresceu 21,97% entre agosto de 2020 e julho de 2021, maior porcentagem dos últimos 15 anos. A alta foi divulgada uma semana após o governo federal prometer reduzir o desmatamento na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança no Clima, a COP26. 

“O governo [federal] mentiu descaradamente. Não tem outra forma de dizer. Eles sabiam que o desmatamento havia aumentado e que incentivam essa prática por contradições internas. O ministro [do Meio Ambiente] diz ‘não vamos desmatar’ e o presidente [Bolsonaro] diz que vai liberar tudo”, critica Muriel Saragoussi, doutora em Fisiologia Vegetal e ex-secretária nacional de Coordenação de Políticas Públicas para a Amazônia do Ministério do Meio Ambiente.



A área total com perda de floresta é de 13.235 km². Compõem a Amazônia Legal os estados do Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Mato Grosso, Amapá, Tocantins e Amapá. 

Discurso na COP26 fora da realidade

Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança no Clima, o Ministério das Relações Internacionais buscou mudar a imagem negativa do Brasil em relação ao meio ambiente. O governo chegou a se comprometer a acabar com o desmatamento ilegal até 2028, mas não apresentou qualquer explicação sobre como irá fazer isso.

Na segunda-feira (15), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse em um evento para investidores em Dubai que a Amazônia não pega fogo porque é úmida. Agora, na mesma semana, o chefe do Executivo é confrontado com os dados recordes do Inpe, instituto que pertence ao próprio governo. 

“O fato mais grave é que o governo brasileiro escondeu esses dados durante a COP26, mas também no encontro das 20 maiores potências mundiais, o G20. No cenário internacional a pressão já era forte contra o Brasil e os números jogam uma pá de cal para quem ainda conseguia ter esperança. É uma quebra de confiança muito grande e um prejuízo em diversos níveis que mostra ao mundo o comportamento covarde do governo federal”, ressalta Marcio Astini, coordenador de Políticas Públicas do Green Peace Brasil. 

Nas redes sociais, a ativista ambiental Greta Thunberg repostou uma matéria do jornal BBC News e replicou em aspas o que dizia o texto. “Sua delegação queria ir a Glasgow e convencer o mundo de que as pessoas estavam erradas sobre o Brasil - chegou a dizer que avançaria em seu compromisso de acabar com o desmatamento até 2028. Mas com números como esses quem pode acreditar em Jair Bolsonaro agora?”. 

Sul do Amazonas preocupa

Os números divulgados nesta quinta-feira (18) mostram que a área total desmatada no Amazonas no último ano foi de 2.347 km², ou 234,7 hectares. O estado ficou em primeiro lugar no número de desmatamento proporcional, com alta de 55,22%.  Para ter ideia da perda, esse tamanho é similar ao de bairros manauaras como Adrianópolis (248,4 ha) e Nossa Senhora das Graças (211,72 ha). 

O Sul do Amazonas concentra altas taxas de desmatamento e puxa todo o estado para o topo do ranking do Inpe. Somente o município de Lábrea, com forte presença pecuária, registrou 3.535 focos de incêndio até 31 de agosto deste ano. É o município que concentra maior foco de calor em toda a Amazônia Legal. 

“Esse aumento no sul do Amazonas acontece por dois motivos. O primeiro é a expectativa que o governo gera nessas pessoas. Elas acreditam que vão ganhar as terras que desmatam, onde retiram madeira para vender e fazem plantações. Além disso, acreditam que não vão ser multadas por esse crime ambiental. E, de fato, os dados têm mostrado que a impunidade está em alta”, comenta Saragoussi.


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