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O japonês que quis ser índio: imigrante vive há 13 anos isolado entre ruínas na Amazônia

Shigeru Nakayama, de 65 anos, é o único morador de Airão Velho, cidade abandonada no meio da floresta amazônica. Há 13 anos vivendo entre construções abandonadas, ele é o guardião da história local - e só quer sair se deixar um sucessor 01/07/2015 às 12:17
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Nakayama sabe da importância da história da região e faz de tudo para preservar a área, que é patrimônio histórico localizado dentro de parque estadual
victor affonso Airão Velho (AM)

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O município mais perto de Shigeru Nakayama - um imigrante japonês de 65 anos, sendo 52 destes vividos no Brasil – está a quase oito horas de distância de canoa equipada com rabeta, único meio de transporte que ele dispõe. Para voltar até sua casa é o dobro do tempo, já que precisa ir contra a correnteza do rio Negro. Seu Nakayama, como é conhecido por todos da região, é o único morador de Airão Velho, município amazonense abandonado completamente no início da década de 1960 e que, hoje, conserva apenas nove prédios, sendo só dois de alvenaria, além de três ruínas e um cemitério, com lápides que datam de meados do século 19.

Nakayama mora há mais de 13 anos no local e adora a tranquilidade que a floresta amazônica lhe proporciona. “Muito diferente das cidades grandes, principalmente as do Japão. Sempre quis me meter na mata”, explica, num bom humor que parece habitual. O japonês natural de Fukuoka carrega um sotaque ainda bastante forte que nem meio século no Brasil amenizou, mas que se mistura naturalmente às expressões nortistas. Quando perguntado se ele se ofende ao ser comparado com um ribeirinho, Nakayama nem deixa a pergunta terminar para interromper, exclamando: “Mas eu sou caboclo! Como vou me ofender?”.

Ele passa a maior parte do tempo sozinho em meio às ruínas de uma cidade fundada pelos portugueses e que foi muito importante para a região durante o Ciclo da Borracha. Sozinho exceto quando recebe turistas, a maioria estrangeiros, curiosos pela história do local; jornalistas e pesquisadores; nos dois festejos religiosos comemorados na cidade antiga, um em janeiro e outro em julho, quando são celebrados os santos padroeiros da cidade e do Estado; e quando é ocasionalmente visitado por seu vizinho, que mora a 50 metros de distância, mas que fica mais tempo em Novo Airão (depois dele, o mais próximo mora a 20 minutos de barco).

Exército de um só

Antes de uma audiência pública realizada pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Sustentável (SDS) para definir o futuro da região, Nakayama estava ficando impaciente. “É tudo nos meus ombros”, chegou a desabafar, reclamando do descaso com a conservação da estrutura e história do local por parte do município, do Estado – já que Airão Velho está situado no Parque Estadual Rio Negro Setor Norte, a poucos minutos dos Parques Nacionais de Anavilhanas e do Jaú – e de órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam).


Agricultor, Nakayama continua cuidando da área. Ele leva a preservação tão a sério que mantém sua horta a 100 metros da residência, já que o local é tombado como patrimônio histórico. Seu maior medo, como revela, é que a história de Airão Velho se perca, como vem acontecendo aos poucos, mas sabe que é um risco iminente, até pela falta de interesse de turistas na área, pelo menos do jeito que está. “Aguento só mais dois anos”, teria dito.

No tempo ‘livre’, guia turístico

O mito das formigas-de-fogo terem expulsado os moradores de Airão Velho, o que teria consequentemente deflagrado a criação de Novo Airão, é um assunto que chega até a irritar Nakayama. Quando indagado se essa história é verídica, o agricultor grita, num misto de sotaque japonês e amazônico: “Não tem nada disso. Isso é história do (ex-) prefeito Hilton Santos. Era meu amigo, mas foi uma questão política. Inventou isso para tirar dinheiro. E o historiador Vitor Leonardi escreveu isso também. E você sabe, escreveu já era, o pessoal acredita no que está escrito. Depois para explicar que não é nada disso é complicado”. O que ele sempre conta é que foi a economia que fracassou, levando as pessoas a abandonarem a cidade.

Nessa busca incansável por histórias do município, o japonês virou um especialista e sabe tanto quanto os guias da região. Airão Velho, inclusive, é uma das paradas quase obrigatórias nesses passeios pelo Rio Negro, onde o único morador da cidade caminha pelo local com estrangeiros, sempre munido de seu terçado e quase sempre com um cigarro aceso entre os dedos, contando histórias da época dos coronéis de barranco. Mas a crescente falta de interesse pela história preocupa Nakayama cada vez mais: segundo ele, o ecoturismo está matando o valor histórico da área.

“Antigamente a história daqui fascinava as pessoas, mas hoje em dia existe o ecoturismo. Onde tem animais, cachoeiras, pedaço da floresta bonita, já é ecoturismo, e as pessoas gostam mais destes roteiros. Aqui não tem nada disso, é só casas antigas e ruínas, e cada vez está diminuindo mais o interesse. As pessoas preferem ir mais para outros cantos. Não querem saber de história, querem é ver macaco”, desabafa.


Segundo ele, grupos de até 100 pessoas desembarcam no município. As pessoas que ainda vão ao encontro de Nakayama - e isso inclui norte-americanos, italianos, alemães e chineses - recebem uma digna aula sobre a região. E o imigrante deixa claro que não há nenhuma taxa obrigatória a ser paga. “Já disseram que eu tenho que cobrar por estar deixando de fazer algum trabalho meu, mas eu não gosto”, resume.

O que mais impressiona os visitantes? “A questão da borracha. Eles se encantam com as seringueiras, mas eu explico que aqui tudo foi plantado”, esclarece, sempre preocupado em passar a verdade.

Movido pela curiosidade

No meio do bom humor, que se mistura naturalmente a uma timidez nipônica, restam as atividades diárias: Shigeru Nakayama segue uma rotina habitual, ao acordar cedo e limpar o terreno, cuidar da sua plantação (que tem de tudo, desde melancia, limão e cupuaçu até tomate e repolho), receber eventuais visitantes, pescar, caçar e recolher objetos centenários, que não deixam de aparecer a cada nova capinada.

“Comecei a organizar um pequeno museu num dos quartos da casa onde moro com as coisas que acho”, revela. “Para quem tem condições, é fácil e rápido montar um museu, mas para quem não tem, como é o meu caso, é aos poucos. E tudo que acho guardo: um pedaço de ferro, uma foto antiga. Mas tem também telhas portuguesas, uma garrafa holandesa antiga, um artefato indígena, uma espingarda do século passado...”.

O valor histórico dos objetos é o que motiva o japonês a organizar seu museu com tanta dedicação. “Isso é a história daqui. Quando as pessoas perguntam como era naquela época da borracha, tem uma foto ou um objeto para comprovar”, diz, sempre lembrando de Glória Bizerra, última descendente e herdeira de Francisco Bizerra, coronel de barranco de Airão Velho, na época chamado apenas de Airão, que mandava e controlava toda a área. Foi ela quem chamou Nakayama para servir como uma espécie de caseiro da cidade esquecida, no início dos anos 2000


Glória Bizerra já morava em Novo Airão há décadas quando conheceu Nakayama, que estava se mudando do Jaú após três anos morando no local. “Eu estava subindo o rio quando ela me convidou para morar aqui. Eu disse que tudo bem, mas que iria embora assim que reabrisse (a área), e ela concordou”. Depois de um ano, ela não deixou ele partir. “Acabou que ela morreu em 2012 e eu ainda estou aqui”, conta o agricultor, com um semblante saudoso. Nakayama imaginava que sua antiga patroa gostaria de ser enterrada junto com sua família, no cemitério de Airão Velho, que concentra lápides com datas como 1892.

“Muitas coisas que eu sei foi a dona Glória que me ensinou, me contava muitas histórias e eu guardava na memória. Agora não, pois a maioria já faleceu, mas até dez anos atrás muitas pessoas que moraram em Airão Velho e nessa região ainda estavam vivas, com 80, 90 anos, e eu ia atrás desse pessoal para perguntar”, conta, dizendo que sempre foi guiado pela curiosidade. “Eu queria entender o que foi aqui e o que tinha acontecido”.

Ruínas virarão atrativo turístico

Apesar de Nakayama morar no meio da floresta amazônica e, literalmente, tirar todo seu sustento da selva, ele sabe que a área não é dele. “Aqui é patrimônio histórico e Parque Estadual. Eu não saio porque eu gosto muito daqui. Se eu sair, a historia daqui vai morrer, e eu não quero isso. Tem até algumas pessoas daqui – e eu não estou me gabando – que tem  a ‘cabeça’ muito atrasada. Não sabem da história daqui e nem se interessam. Isso que me preocupa, não quero deixar isso tudo morrer”, diz, apreensivo.

Mas a hora de partir está próxima: o plano é voltar para Belém do Pará, onde ele tem dois irmãos, ou passar um tempo em Roraima, onde um sobrinho dele é vereador. “Meus dois irmãos vivem me chamando e eu só não levantei daqui porque ainda não é o momento certo. Mas futuramente terei que ir, não quero morrer sozinho aqui, né?”, confessa, entre risadas.

De acordo com o asiático, se tivesse alguém para assumir seu posto, a situação seria bem menos complicada, mas ele nunca tinha achado ninguém disposto. Mesmo sem saber (esta entrevista foi realizada antes), as preocupações de Nakayama estão chegando ao fim.

É provável que o agricultor nem conheça Kamila Amaral, titular da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Sustentável (SDS), e nem tenha completa noção do que está acontecendo à área onde mora, que, segundo a secretária, deve virar unidade turística conservada em breve.

O Parque Estadual Rio Negro Setor Norte foi um dos assuntos abordados durante a audiência pública realizada em Novo Airão no dia 13 de dezembro do ano passado, quando foi aprovada a proposta de transformar o Parque Estadual Rio Negro e a Área de Proteção Ambiental Setor Norte em Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS). Segundo a SDS, Nakayama não estava presente.

“Fizemos a audiência para podermos recategorizar boa parte daquela região - que é área de Proteção Integral, o que teoricamente impede até de ter pessoas morando ali - e transformá-la em área de uso sustentável”, explica Kamila. Também protegido pelo Iphan, Airão Velho será restaurado e preservado para virar atrativo turístico do Parque Estadual. "Queremos preservar a área ao máximo, mas também abrir para termos algo para chamar atenção", completa.


Dez perguntas para Shigeru Nakayama

1. Explica como foi a sua vinda ao Brasil?
Eu tinha 13 anos e tive que acompanhar meu pai. Ele inventou de imigrar para a Amazônia por causa de um acordo entre os dois governos (brasileiro e japonês) para implantar a agricultura oriental aqui. Sou japonês mas criado no Brasil, então sou caboclo mesmo.

2. O que despertou esse sonho de viver no meio da  floresta?
Na minha terra era tudo muito apertado, vinha de uma guerra onde estava tudo destruído, a vida era ruim. Queria muito estar na floresta. Um dia, com 21 anos, eu disse: “Agora vou andar no mato”.

3. Quando que começaram a sair de Airão?
(A população) começou a sair na década de 1930 e abandonaram por completo nos anos 1950 e 60. Depois de 30, aguentaram um pouco, começaram a produzir castanha-do-Pará, que ainda segurou um tempo, mas foi fracassando, fracassando, e em 60 acabou.

4. E quando você veio para cá foi logo depois que a Marinha do Brasil deixou de usar este local como área de teste, certo?
Isso, testavam tiro e míssil. Não deviam saber (da existência da cidade), pois se soubessem não teriam feito aqui. Destruiu muita coisa. Isso foi um grande erro, mas acabou por volta de 1994.

5. Todo o seu alimento vem da plantação que mantém no terreno?
É, além da caça pequena, como cutia e paca, e os peixes que pesco, principalmente tucunaré.  É difícil eu comprar remédio na farmácia. Eu uso de tudo, andiroba para mim não falta, por exemplo. Tiro o óleo e guardo, uso em arranhões, mordidas de formiga, um cortezinho... Pode passar que não inflama. Tudo do mato serve para alguma coisa.

6. Tem muita cobra nessa área?
Muita, eu até já fui mordido. Na última eu quase perdi o braço, há sete anos. Foi uma jararaca-açu, mas apesar do nome é bem pequena (assinala cerca de 1 metro com as mãos) - apesar de veneno não ter tamanho. Eu estava capinando quando fui mordido entre os dedos da mão esquerda. Na hora eu não senti muito, só percebi quando vi o sangue escorrendo. Mas depois inchou um pouco. Eu cheguei a matar a cobra. Voltei para casa e cavei um buraco – isso é técnica indígena para controlar o veneno. Cava-se um buraco na terra da grossura do braço e mete o braço todo, até a altura do cotovelo, e deixa lá por mais ou menos uma hora. Mais eu só deixei por meia hora, porque cansa (risos). Apesar de ter uma sede do Ibama a uns 10 minutos de barco descendo, pedi para me levassem até Novo Airão. Rapaz me levou e quando cheguei no hospital, o médico disse que eu tinha muita sorte e me disse que, se tivesse passado mais do que 24 horas desde a mordida, eu poderia ter perdido o braço. 

7. E onça, já encontrou alguma por aqui?
Já sim, até briguei com uma certa vez. E sem arma, eu só tinha um remo. Mas não foi aqui, foi no rio. E não foi onça vermelha não, foi a pintada mesmo. Tava pegando peixe com uma zagaia de noite e vi um brilho diferente – o olhar da onça pela noite é conhecido -, foquei a lanterna e vi que era uma onça mesmo, mas tava muito distante então nem me preocupei muito. Depois ouvi um grunhido e percebi que a onça tinha caído n’água. Ela começou a riscar a proa da canoa com as unhas e eu pensei “Comigo, não!”. Eu tinha a zagaia, tá certo que é arma, mas não tinha nem terçado muito menos a espingarda, só uma faquinha, a zagaia e o remo. Quando começou a tentar virar a minha canoa, eu percebi que a coisa era séria. Peguei o remo de itaúba, uma madeira que parece ferro de tão dura, e toda vez que a onça levantava eu metia o remo de quina na cabeça dela. Nem para matar, não tem nem condição de matar, só para ela ir embora mesmo. 5 minutos depois de ficar batendo eu já estava cansado e pensei “Agora já era, a onça vai me comer. Se eu cair na água, vai ser pior, aí que ela vai comer mesmo”. E fiquei com medo. Rapaz, só sei que um pouco depois ela parou de segurar na canoa, deve ter ficado cansada também (risos). Aí eu fui embora, salvei minha vida.

8. Morando sozinho aqui, qual seu maior medo?
Se tem homem que não conhece medo, sou eu. Muita gente fala do cemitério, que é perto da minha casa, mas não tenho medo não. Tem que ter medo é de gente viva, não das que estão mortas.

9. A cultura brasileira lhe agrada?
Já estou tão acostumado que não posso nem reclamar. Eu faço uma brincadeira que gosto muito do Brasil, mas não tanto do brasileiro (risos). Brasileiro, rapaz, é cada um muito diferente de opinião. O brasileiro não se une. Na minha terra não era assim não. Mas não tenho quase lembrança do Japão. Já virei índio.

10. Ter uma escada servindo como porta de entrada para Airão Velho é seu maior sonho hoje?
Justamente, e tem que ser bem feito. Eu pedi (ao Ipaam) para ser em alvenaria e eles aceitaram, mas até agora nada. Tenho é vergonha das pessoas que vêm...

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