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'O Melo não mentiu, mentiram para a gente', diz Omar Aziz

Para o líder do PSD no Senado, Dilma e Lula  pregaram  uma realidade que não existia nas eleições de 2014, e agora, governadores como José Melo têm que tomar medidas impopulares para salvar seus governos 03/08/2015 às 12:04
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Na entrevista, o senador avaliou ainda os conflitos políticos no Amazonas
Janaína Andrade Manaus (AM)

Estreante no Senado Federal, o ex-governador Omar Aziz (PSD) aproveitou o recesso para matar a saudade de Manaus e avaliar sua atuação no retorno à atividade parlamentar - por onde começou sua carreira política, depois de um longo período de experiência no Executivo.

Em entrevista ao jornal A CRÍTICA, o senador falou dessa readaptação, dos projetos e desafios em Brasília, e da principal motivação que o levou ao Senado: defender o interesse do povo do Amazonas. “Não há outro interesse maior que não seja este”, garante ele. 

Na entrevista, o senador avaliou ainda os conflitos políticos no Amazonas, como a batalha travada na Justiça Eleitoral pelo ministro Eduardo Braga (PMDB), derrotado nas urnas, contra o governador reeleito, José Melo (Pros). E dispara: “Eu me sentiria muito envergonhado se perdesse uma eleição e depois tentasse ganhar no ‘tapetão’”. A seguir, trechos da entrevista.

Como é viver em Brasília?

Você sente uma diferença. Aqui no Amazonas estão meus amigos, pessoas que desde a minha infância convivem comigo, tem a minha família toda, então é lógico que você sente um pouco, mas ninguém me obrigou a fazer o que estou fazendo. Eu faço isso porque gosto, porque acho que posso servir o estado do Amazonas em Brasília.

Quais os desafios da sua atuação no Senado, que em parte é composta de ex-governadores?

Veja, você chega numa Casa Legislativa onde há senadores que estão lá há 30 anos, então quem chega para um primeiro mandato está ainda tateando. Mas cheguei ao Senado numa posição privilegiada, que é de líder de um partido, participando das reuniões com as lideranças, tanto no Senado quanto no Governo Federal, portanto, sendo ouvido e me posicionando, deixando muito claro a minha posição. Eu sou uma pessoa que estou lá defendendo o interesse do povo do Amazonas, não há outro interesse maior.

Em sete meses de mandato, o que o senhor destaca da sua atuação?

Apresentei alguns projetos, entre eles, o que trata de concursos públicos para a carreira Policial Federal e o Plano Especial de Cargos do Departamento de Polícia Federal. Um segundo projeto é para criar um banco nacional de impressões digitais, pois hoje temos muita dificuldade da nossa polícia técnica para se fazer uma perícia. Outro projeto trata da inclusão das agências dos Correios que atuem como Banco Postal e as unidades lotéricas nos estabelecimentos financeiros, porque muitos municípios não têm isso e precisamos ter essas lotéricas e bancos postais para que funcionem como bancos. Um que destaco também é uma proposta que dispõe sobre o fornecimento, pelas prestadoras de serviços de telecomunicações, mediante ordem judicial e sob segredo de Justiça, de dados que permitam o rastreamento físico de terminais móveis, para fins de investigação criminal, instrução processual penal e execução penal.

E a atuação da bancada do Amazonas. Qual sua avaliação?

Boa. Como coordenador não tenho do que reclamar. A bancada atua em conjunto quando é necessário. Os oito deputados federais e os três senadores estão muito atentos as questões do Amazonas e eu sempre deixo claro que nós temos divergências políticas internas, mas chega no Congresso a gente se une em torno do Amazonas.

Como a bancada atuou na defesa dos servidores da Suframa?

Nós aprovamos um projeto que reformulava o Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração dos servidores da superintendência e infelizmente foi vetado pela presidente Dilma. Houve a greve, nós continuamos conversando com a liderança do movimento grevista e eu espero que o Governo Federal apresente o mais rápido possível uma solução, porque nós vamos lutar muito para derrubar este veto. Ou o governo apresenta uma solução ou nós vamos brigar para que a gente derrube esse veto no dia que ele for colocado em votação.

Quem deve comandar a Suframa?

Sempre lutei para que assuma uma pessoa com capacidade técnica. Não tenho nenhum nome para indicar. Aliás, não tenho e não faço questão de indicar ninguém. Eu gosto de ter independência e isso eu estou tendo. Porque quando você tem independência você pode lutar com mais força pelo estado do Amazonas, quem não a tem fica sujeito a amarras por causa de cargo. Se eu posso ir a tribuna questionar e cobrar o Governo Federal é porque não fui agraciado com nada.

E sobre a indefinição do modelo jurídico do CBA, qual é a sua proposta?

Foi feita uma medida paliativa até mesmo para os servidores receberem. Mas o CBA não tem como ficar ligado ao INMETRO. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Essa ideia foi porque o INMETRO é ligado ao Ministério da Indústria e Comércio e era o órgão que mais se assemelhava para absorver esses servidores. O CBA tem que ir para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Uma coisa está ligada a outra. Nós estamos trabalhando nessa questão, já conversei com o ministro Aldo sobre isso, ele é favorável. E numa oportunidade vou conversar com a presidente Dilma para que a gente defina isso juridicamente.

Como o senhor avalia a articulação da oposição sobre o impeachment da presidente Dilma? É politicamente possível e legal? Apoiadores da presidente chamam a iniciativa de golpe.

Acho essa articulação muito rachada. Não vejo o Fernando Henrique Cardoso defendendo impeachment, nem o Aécio (Neves), você vê algumas pessoas falando em impeachment como se fosse uma brincadeira ou porque está com “raivinha”. Isso é algo muito sério, pois a presidente Dilma ganhou a eleição, se ela está fazendo um mau governo quem vai decidir são as urnas. É muito cedo para se falar nisso, se dão o impeachment da presidente vão colocar quem no lugar? Quem é esse salvador da pátria que vai chegar aí e resolver todos os problemas? Porque o que parece é que com o impeachment tudo ficaria resolvido e não é isso. Estamos passando por um momento difícil e as coisas estão sendo cumulativas, pois o problema no Brasil é político e econômico. Já vi essa história, então a gente tem que ter muito cuidado.

No seu governo, o senhor deu atenção especial à área de segurança pública, a exemplo do programa Ronda no Bairro. Como o senhor avalia a chacina que ocorreu em Manaus com suspeita de grupo de extermínio composto por PMs?

Essa é uma história que a gente ouve há 30 anos. Eu sempre digo uma coisa: proteger o cidadão de bem é uma obrigação da polícia, pois o cidadão de bem não pode sofrer consequências. Não conheço bandido que se aposente, ou ele morre ou ele é preso. A grande maioria dessas pessoas que infelizmente vieram a falecer tinha envolvimento com o tráfico ou tinha passagem pela polícia. Isso não justifica. Mas você vê que isso não é algo diário, pois no final de semana seguinte não houve mortes. Eu tenho visto o esforço do governador Melo em relação a isso, do secretário Sérgio Fontes, titular da SSP, do comandante da PM, coronel Gouvêa, e do delegado-geral, Orlando Amaral.

Como o senhor avalia a gestão de Melo?

Ninguém na campanha previa uma crise econômica tão grande. A presidente Dilma sempre dizia que o País estava bem, o Lula enaltecia o País. Então, o Melo fez uma campanha baseada naquilo que esperava arrecadar ou até crescer e o que viu foi uma queda de 10% na arrecadação, e isso nos primeiros meses dá uma perda de quase R$ 400 milhões. Isso tira qualquer perspectiva de planejamento e aí você tem que se adequar a essa nova realidade para retomar obras, serviços, investimentos. E o Melo teve a coragem de fazer isso, apesar de que para ele, politicamente, isso pode gerar incompreensão. O Melo não mentiu na campanha, mentiram para a gente, disseram que o Brasil estava bem das pernas. Tenho certeza que no final dos quatro anos de mandato ele terá feito um bom governo.

E como avalia a gestão do prefeito de Manaus, Artur Neto?

O Artur é um bom prefeito. Ele se superou em relação aos outros prefeitos, tem feito uma boa administração, apesar do boicote natural que se tem contra a pessoa do Artur, e Manaus sofre essas consequências. O Artur é um prefeito presente, não é um prefeito de gabinete, ele é da rua e isso é importante para a cidade. Espero que ele continue desse jeito. Ele tem razão das cobranças que faz à presidente Dilma. Manaus é uma capital grande, que contribui para o desenvolvimento deste País, e para a mobilidade urbana ele ainda não viu um real.

Há um distanciamento entre Artur e Melo?

Isso não existe. Toda hora eles estão conversando. É burrice alguém apostar nisso. Nós apostamos na união para fazer as coisas. Dividido ninguém faz nada. Só na semana passada tive três reuniões: Eu, ele (Melo) e o Artur. Não tem nada disso. Esse distanciamento é fofoca de quem não tem o que fazer.

Como o senhor vê o chamado terceiro turno para o Governo disputado na Justiça Eleitoral entre Braga e Melo?

Além do esforço que o Melo tem feito para equilibrar a economia do Estado ele ainda tem que lutar para manter o mandato que conquistou nas urnas, nem nisso querem deixar ele em paz. Nós já estamos passando por um momento difícil, aí ainda tem gente que perdeu o mandato, perdeu a eleição e quer tomar no “tapetão”. Você pega aí sete juízes que vão decidir a vida de 3 milhões de amazonenses.  Não existe terceiro turno, isso daí é brincadeira. Nenhuma pessoa que seja democrata pode querer ganhar mandato em “tapetão”. Não se rouba 170, 200 mil votos, principalmente na capital. Eu me sentiria muito envergonhado se perdesse uma eleição e depois tentasse ganhar no “tapetão”.

O senhor confia no julgamento do Tribunal Pleno da Justiça Eleitoral do Amazonas?

Não é questão de confiar ou não confiar. Todos eles sabem que o Melo ganhou a eleição, independente de quem vota a favor ou contra ele. Até porque essas pessoas são muito bem informadas, não há nenhum desinformado ali. Eu sei quem votou e quem não votou ali no Melo. Eu sei nome e sobrenome. Os dois (Afimar Cabo Verde Filho e Délcio Santos) indicados ao TRE pelo Eduardo Braga não votaram no Melo. Lógico que em qualquer circunstância vão estar ao lado do Braga, ele estando certo ou errado. É isso que não pode acontecer, mas eu confio muito na experiência de desembargadores que estão historicamente no juizado. Uma coisa é o juiz de carreira, outra coisa é um advogado que trabalhou para um candidato e que está lá dizendo que é imparcial. 

O PSD vai apoiar a reeleição do prefeito Artur Neto em 2016?

O PSD com certeza apoia o Artur. Não temos nada contra o Artur. Tivemos juntos em 2014, ele me apoiou para o Senado, apoiamos o Melo juntos, e aquilo que é possível ajudar a cidade de Manaus, enquanto senador, tenho feito.

A presidente Dilma atrapalha essa união?

Não. Ninguém tem o direito de cobrar nada da gente. Ninguém fez nada pela nossa eleição aqui. 

Perfil

Idade: 56

Nome: Omar José Abdel Aziz

Estudos: Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Experiência: Iniciou a vida pública como vereador de Manaus, em 1988, sendo reeleito em 1992. Dois anos depois foi eleito deputado estadual e, em 2002, vice-governador na chapa de Eduardo Braga, sendo reeleito quatro anos depois. Em 2010, Omar foi eleito governador com 63,9% do total de votos.

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