Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
ENTREVISTA DA SEMANA

‘O ministro Paulo Guedes tem que namorar com o PIM’, diz presidente do sistema FIEAM

Com uma queda de mais de R$ 40 milhões de receita, o Serviço Social da Indústria completa 70 anos de existência e procura se adequar à crise pela qual passa o país para continuar atendendo os trabalhadores



1498380_712F9583-09D1-41D4-9682-DD47C3C09D94.JPG Antonio Silva, presidente do Sistema FIEAM (Foto: Junio Matos/Freelancer)
21/07/2019 às 10:29

Formador de gerações por meio do ensino, e sempre lembrado pelos serviços de saúde e lazer prestados à comunidade e trabalhadores do Polo Industrial do Amazonas (PIM), o Serviço Social da Indústria (Sesi Amazonas) completa sete décadas de existência neste ano.

A CRÍTICA conversou com Antonio Silva, presidente do Sistema FIEAM, sobre os desafios enfrentados na manutenção do modelo, a perda de empregos e os rumos econômicos viáveis para o setor.



O Sesi completou 70 anos. Qual o desafio encontrado hoje?

É a manutenção do que o Sesi é e dos serviços que ele presta, em função da dificuldade que não só o Amazonas, mas o país continua vivenciando por causa da crise, a perda de mais de 50 mil empregos que nós tivemos. O Sesi foi criado em 1949, investimos em saúde, segurança e lazer, especificamente para o trabalhador, e mesmo assim, atendemos não só o trabalhador e seus dependentes, mas a comunidade em geral, como o caso do Sesi Saúde, que eu tenho um preço para o trabalhador e outro para a comunidade.

Como o serviço foi afetado com a queda de arrecadação trazida pelo desemprego?

Nós tivemos queda de 42% na arrecadação. O custo do Sesi é de R$ 9 milhões por mês, e nós não arrecadamos nem R$ 6 milhões, então eu tenho uma média de R$ 36 milhões a R$ 43 milhões de queda de receita. Estamos fazendo uma readequação para que a gente consiga se manter, porque além da capital, temos escola em Itacoatiara, Parintins e Coari. Iranduba eu nem chamo de interior porque atravessa a ponte e está lá do outro lado. Nós atendemos hoje quase 9 mil alunos, mesmo com a crise. Outrora nós tínhamos cerca de 12 mil. Com isso tive que demitir professores, assistentes de professor, assistente social para que eu pudesse sanfonar e atender. A prioridade é atender o trabalhador, os dependentes e a comunidade.

E como é feita a arrecadação?

Nós temos duas fontes, a direta e a indireta. Aquela que é compulsória, que vem da verba privada. Essa verba transita por dentro do INSS, por conta do que foi acordado no governo Getúlio Vargas, o Euvaldo Lodi fez essa legislação e colocou essa contribuição obrigatória. É uma verba privada, sai da folha de pagamento, mas é a parte do empregador. Transita na Caixa Econômica Federal e de lá sai o rateio para os Sesis, Senac, Senai. No caso da indústria, vai o Sesi nacional e faz a distribuição pelos regionais. Aqui nós tínhamos a particularidade de arrecadar diretamente com as empresas, que caíram por causa das demissões. Então, se perde aqui, se perde lá, e com isso vamos ajustando para oferecer essa gama de serviços que oferecemos.

A educação do Sesi é uma área forte. O investimento em robótica é uma estratégia para o PIM?

Nós estamos com quase 9 mil alunos nas modalidades de creche, educação fundamental e ensino médio. Um dos diferenciais das escolas Sesi é o ensino com a robótica. Nós fomos credenciados e Parintins foi classificada em um torneio de robótica. O caboquinho do interior foi pra Brasília disputar com a turma que a gente pode chamar de elite, e estavam lá os nossos parintinenses disputando, e ganharam o primeiro e terceiro lugares. Daqui mais um tempo nós vamos falar só pelo computador. Eu brincava de jogar bola, bolinha de gude, caroço de botão. Hoje é uma bola pro futebol de grama, para o futebol sintético. Isso é tecnologia.

Os serviços para a comunidade vão seguir, mesmo com as dificuldades financeiras?

Nós temos o Sesi Saúde, com uma gama de especialidades, e a nossa fortaleza é na parte de odontologia. Temos atendimentos de consultório, nada de internação. Temos aqui nossa tabelinha de preços que são diferenciados para a comunidade. O prédio que fica de frente para a avenida Getúlio Vargas é área de saúde como um todo. Estamos inaugurando uma parte lá no Clube do Trabalhador, que também é um dos maiores complexos do Norte do Brasil. Nós temos também a parte de segurança do trabalhador, temos também o apoio ao diagnóstico de subvenção, um preço pequeno, de custeio. Se eu não tiver esse dinheiro pelo menos para comprar equipamentos, eu não vou ter como atender. Não posso fazer de graça, de graça é com o Estado. Com a calamidade do serviço público de saúde, aqui temos os melhores especialistas, pagando pouco, se faz todos os exames. Basta adquirir uma carteirinha no valor de R$ 10 e pode utilizar os serviços. Na parte de lazer temos o Clube do Trabalhador equipado. Na época que a Arena estava interditada, os jogos eram feitos no nosso estádio. O serviço médico que temos aqui. Com a calamidade do serviço público de saúde, aqui temos os melhores especialista, pagando pouco, se faz todos os exames. Basta adquirir uma carteirinha no valor de R$ 10 e pode utilizar os serviços.

O senhor viveu os tempos áureos do PIM. Acha que o modelo pode se reestabelecer?

Há quatro ou cinco anos nós estamos remando e não conseguimos. Acho que não vamos reestabelecer. Dia 25 teremos a reunião do CAS. Regimentalmente, o Conselho de Administração da Suframa teria que se reunir seis vezes no ano, duas vezes a cada bimestre. Nós estamos na metade do ano e vamos ter a primeira reunião. Espero que o superintendente tenha como fazer pelo menos quatro. Temos projetos novos de implantação, que vão gerar empregos. Projetos de modernização, de ampliação, projetos que devem gerar empregos diretos no chão de fábrica. Será muito bom ter a presença do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Paulo Guedes para que eles possam conhecer nosso polo industrial e porque nós tivemos essa inserção na Constituição dos benefícios fiscais.

O ministro tenta implantar uma economia mais liberal que não condiz com o modelo ZFM. O senhor acha que falta tato?

Eu acho que o ministro precisa conhecer. Por exemplo, para eu namorar você posso te conhecer por meio da foto, mas a foto engana. Aí eu lhe conhecendo, vou saber como você é de verdade, então o ministro tem que namorar com o Polo Industrial de Manaus, tem que conhecer para que depois nós todos e os vários atores que compõe, possamos decidir sobre o futuro do Brasil. Nós aqui não queremos que o país não deslanche, mas não podemos ser prejudicados. Nós já temos um grande problema aqui que é o problema de logística. Temos aqui um transit time de 22 dias para todo e qualquer insumo que se adquire no Sul e no Sudeste do País são 22 dias para estar da fábrica, porque o único estado brasileiro que tem essa peculiaridade do rodo fluvial é o Amazonas. Se sai de São Paulo, Cuibá, você pega o [rio] Madeira, aí tem mais dez, doze dias de navegabilidade, mais dois ou três dias para despachar. De avião o custo é caro e de navio é esse tempo todo.

Nessa área a BR-319 seria uma solução?

Se conseguirmos liberar a BR-319, nós teremos o transit time [tempo de trânsito] de cinco dias. Olha, de 22 para cinco, são 17 dias a menos. Veja quanto é a diminuição desse capital empatado. No caso das concessionárias, os veículos são pagos antes de chegarem no pátio para ser vendido. Olha o tempo que ficou parado enquanto podia estar girando e mexendo na economia, porque quanto mais se gira, mais capital.

O senhor não acredita que o PIM possa voltar a ser o que era. No que se deve investir?

Voltar com 135 mil empregos que entendo que seja difícil. Temos que ver as alternativas de polo de cosméticos, turismo. Passagens para Parintins, São Paulo ou Rio de Janeiro no preço que está, é preferível ir para Miami. Temos que repensar para atrair, ter investimento, hotelaria. No passado o hotel mais conhecido era o Amazonas e agora já não sei nem o que virou. Temos uma cadeia de incentivo tem o incentivo estadual e o incentivo federal. O Codam aprova o ICMS, a Suframa tem o IPI e a Sudam tem o Imposto de Renda. Os três condutores essenciais para que uma empresa possa se instalar aqui no Amazonas. Essa cadeia produtiva é que é importante para nós darmos seguimento ao modelo existente e criar alternativas como fármacos, fertilizantes, biotecnologia.

Perfil

Nome: Antonio Silva

Idade: 71 anos

Estudos: Bacharel em Administração

Experiência: Presidente da FIEAM, vice-presidente da CNI, diretor regional do Serviço Social da Indústria, presidente do Conselho Regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial.

Repórter de A Crítica

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