Sábado, 20 de Julho de 2019
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'O poder público sozinho pode pouco', diz primeira-dama de Manaus

Esposa do prefeito Artur Neto, a titular da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos conta suas estratégias para superar  orçamento apertado e reclama da patrulha da beleza: “gosto de repetir roupa”



1.jpg Goreth Garcia é esposa do prefeito Artur Neto (PSDB) e titular da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh)
28/07/2013 às 09:45

Ela chega se queixando que os cílios postiços pesam muito e avisa, quando o fotógrafo pede que faça pose de braços cruzados, que a cena é rara. Obcecada pelo que faz (nas palavras da própria), a primeira-dama de Manaus, Goreth Garcia, mergulhou de cabeça no trabalho da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh), que assumiu logo após a posse de Artur Neto (PSDB) na prefeitura.

Desde então, tem conjugado dia e noite o verbo sensibilizar, na esperança tirar os cidadãos da zona de conforto. Para descruzar os braços alheios, Goreth contraria até os assistentes sociais, que recentemente fizeram chegar a seus ouvidos queixas contra o excesso de trabalho voluntário e o “primeiro-damismo”: “A prefeitura precisa rever o plano de cargos e salários da categoria, é uma coisa que a vou levar ao prefeito, mas continuo acreditando no voluntariado e acho que ele tem que ser estimulado”.

Confira os principais trechos da entrevista, concedida em dois tempos: a primeira parte em abril e a segunda, semana passada.

Existe diferença entre ser esposa de senador e esposa do prefeito de Manaus?

Tem uma diferença boa. Casar com o Artur, viver com ele essa “aventura” da política sempre foi estar sensível aos problemas da população. Mas, no Senado, a gente recebe telefonemas, recebe cartas, acompanha essas questões de uma forma um pouco mais distante. Agora as pessoas estão na sua porta, na sua secretaria, no seu caminho.

Há, então, uma pressão maior pela sua atuação?

Sempre fui muito ativa na assessoria ao Artur. É um trabalho não remunerado e informal, mas com muitas demandas. Em Brasília, acompanhava os projetos, o trabalho no gabinete, a agenda. O Artur sempre começou o dia lendo os jornais. Se saia uma notícia que pudesse afetar a Zona Franca, por exemplo, ele já disparava as articulações. E nessa hora eu era o gabinete dele lá em casa. Mas, enquanto mulher do prefeito, a gente é depositária de todas as esperanças da cidade. O peso é maior.

E como a senhora reage a essa cobrança atual?

Não podemos negar fogo pois as pessoas têm uma esperança gigantesca. Não digo que a gente tenha que ceder a pedidos nem que tenhamos de dizer “sim” sempre. Nosso papel é alertar que ser cidadão, viver numa cidade, significa amar e construir juntos essa cidade. Porque o poder público, sozinho, pode muito pouco.

Como foi o processo de escolha do seu nome para a Semasdh?

Uma vez vi meu nome anotado em um papelzinho, mas não ousei perguntar o que era para que o Artur não se sentisse pressionado. Pensei: ele tem que ter confiança no meu trabalho, na minha capacidade de liderar. Imagino que ele viu meu empenho nas atividades que comecei durante a campanha. Havia uma espectativa para que eu continuasse essas atividades do período eleitoral. Penso que o convite, e foi um convite, é reflexo disso.

No que consistiram essas atividades da campanha?

Foi um momento em que aproveitamos para passar noções de cidadania. Doações, benesses, promessas nunca foram prática do Artur e eu também sou muito rigorosa em relação a isso. Havia uma expectativa pela minha sensibilidade, pelos contatos que fiz, pelas reuniões.  Procurei ser os ouvidos do Artur. E como teve uma vacância enorme nesse papel de primeira-dama na cidade - seja por decisões pessoais ou questões familiares - criou-se essa grande espectativa.

Na sua opinião, qual o principal papel da primeira-dama?

A primeira-dama tem que dar bom exemplo. Tenho que ser uma boa cidadã, para começar. E não ser fútil. Devo me preocupar com o que de fato é importante para que a vida das pessoas mude. Meu marido se elegeu para dirigir uma cidade que, a gente sabe, não é fácil. O Artur é um dos melhores políticos que conheço, sempre se manteve conectado com a necessidade da nossa população. Então não posso ser diferente nesse papel. Primeira-dama do Artur tem que trabalhar.

Como é sua relação com os holofotes, com a mídia?

Sei que é importante a presença na mídia, pois em você aparecendo, pode sensibilizar, engajar, transmitir uma mensagem. De forma alguma acredito em aparecer por aparecer. E tenho recebido muitos comentários de que, quando me pronuncio, é com consistência, e sensibiliza, que é uma palavra que uso muito. Então tenho essa preocupação midiática, sei que é importante. Mas preciso confessar que a patrulha da beleza me incomoda.

Como assim?

Às vezes nem quero saber de como está meu cabelo! Fora que se produzir leva um tempinho, em que eu podia estar fazendo outra coisa.

Mas a senhora tem assessoria para a imagem? Por exemplo: quem escolhe sua roupa?

É claro que aceito sugestões, mas gosto de ter minhas convicções. Adoro túnicas, peças mais artesanais. Sempre  fui muito despojada... Você não sabe como me pesam os cílios postiços! Minha cunhada, que mexe com moda, e minha irmã, sempre ficam tentando dar dicas para incrementar a produção, mas uma hora elas cansam ou se seguram. Ultimamente tenho cedido um pouco, mas essa questão do guarda-roupa e maquiagem não me tira o sono.

Nem um pouco?

Não mesmo. Elegância é legal, claro. Mas gosto do meu estilo e do meu jeito e sou muito bem resolvida nesse aspecto. Quer ver outra coisa que me incomoda? É essa história de não poder repetir roupa. Quando eu gosto de uma roupa, quero usar cem vezes. Tem roupa que, se eu pudesse, comprava duas iguais.

A senhora diz que sensibilizar é palavra chave em sua gestão. O ser humano anda insensível?

Há uns anos li um trabalho sobre “pessoas invisíveis”. Era uma socióloga, se não me engano, que se vestiu de serviços gerais. E ninguém falava com ela. Isso existe: de você não ver as pessoas ao redor. E aliado a isso há (em Manaus) um desconhecimento da cidade. Eu mesma, na campanha, conheci uma outra cidade. E conheci uma outra cidade agora, na secretaria. Hoje digo que não conhecia o bairro da União, que fica no coração de Manaus. A gente passa por ele a vida toda e muitas vezes não vê as fachadas mais duras, mais tristes.

Qual seu maior desafio à frente da Semasdh?

O grande desafio é você mudar a vida das pessoas. É fazer chegar no bairro delas o serviço que a gente oferece. Muita gente vai até a sede da secretaria buscar um benefício, um direito, mas a verdade é que a gente tem que disponibilizar isso lá, onde ela mora. O desafio, então, é intensificar esse contato com os cidadãos e ser um agente de mudanças na realidade deles.

Que tipo de dificuldades a senhora enfrentou nesses primeiros meses?

Fazer com que os sistemas de assistência social, educação e saúde, conversem entre si. É  outro desafio e temos buscado isso. No Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social)  acompanhamos casos de crianças fora da escola. E estamos tratando com a Semed (Secretaria Municipal de Educação) formas de reinserí-las. Uma grávida precisa saber onde ter acesso a todos os direitos que ela tem. É interessante que a atendente do posto de saúde repasse essa informação. Para isso, é preciso que a prefeitura converse entre si.

Como a senhora tem lidado com o enxugamento de gastos adotado pela atual administração?

Às vezes a gente tem discussões com a Semef (Secretaria Municipal de Finanças). Porque há coisas que não tem como enxugar. O aluguel social, por exemplo, que teve uma crescente. Quando toca o telefone da Defesa Civil, não importa se é rompimento de adutoras, cheia, incêndio, somos a primeira secretaria a ter que estar no local. Então, há horas em que você tem que dizer: “não dá para enxugar”. Mas também procuro buscar alternativas para viabilizar as atividades.

Sem recursos da secretaria?

Existe uma cobrança, expressa recentemente por profissionais da Assistência Social, para que não impere o “primeiro-damismo” na secretaria. Mas o que a gente puder fazer para compensar esse orçamento apertado, vamos fazer. Porque há um monte de problemas que são deixados de fora do orçamento, mas continuam existindo. Não é assistencialismo, não é clientelismo.  O primeiro-damismo no sentido de articular, buscar esses recursos até fora dos cofres da prefeitura, eu acho ótimo. Tem mais é que fazer isso mesmo.

Perfil: Goreth Garcia

Quem é: parintinense, concluiu o ensino médio na cidade natal. Cursou dois anos de Letras na Ufam, onde também fez vestibular para Jornalismo. Terminou em Brasília o curso de Comunicação. Conheceu Artur Neto em 1990 (“E meses depois  já estava ‘no meio’ de uma campanha para o Governo do Estado”). Com ele, tem dois filhos: Ana Carolina e Juliano.

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