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‘O que nos une é muito maior do que o que nos separa’, diz Dom Sérgio Castriani em entrevista

Problemas como crise política e econômica, desemprego e violência não devem ser capazes de acabar com o otimismo  do povo manauara. É tempo de compartilhar, crê o arcebispo de Manaus 06/12/2015 às 15:49
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Arcebispo de Manaus, dom Sério se dedica ao Evangelho há 37 anos. Para ele, é preciso manter a fé e a esperança na humanidade
Natália Caplan Manaus (AM)

As notícias de crise econômica e política, o aumento dos índices de desemprego, violência crescente e a visão pessimista dos especialistas para o Brasil em 2016 não assustam o arcebispo de Manaus, Dom Sérgio Eduardo Castriani, 61. Para ele, o momento é de desprender-se do “ter”, em prol do “ser” e praticar atos de amor, compaixão e misericórdia em prol do próximo.

Em entrevista ao A CRÍTICA, ele falou sobre a posição da Igreja em relação a assuntos polêmicos que ganharam a mídia neste ano — como aborto, diminuição da maioridade penal e discussões sobre ideologia de gênero — e ressaltou o papel dos cristãos na sociedade. Na opinião dele, que se dedica ao Evangelho há 37 anos, é preciso manter a fé e a esperança na humanidade.

Essa semana ocorreu a abertura do "Ano da Misericórdia". Qual é a mensagem e a importância desta ação? Teremos eventos especiais?
Os anos jubilares são, antes de tudo, tempo de perdão e de reconciliação. É necessário restaurar a verdade, a justiça e o amor que, pouco a pouco, vamos perdendo. No jubileu bíblico, a terra também devia descansar. O papa, ao convocar um ano jubilar extraordinário da misericórdia, chama a atenção para o princípio fundamental da ação de Deus. Deus é misericórdia e Jesus é o rosto da misericórdia. Só a misericórdia salva e redime. Na Igreja, todos deveriam encontrar um oásis de misericórdia. O mundo só superará a guerra e o terror se trilhar o caminho do perdão e da reconciliação. A paz não admite vencidos e vencedores, mas supõem perdão. A abertura da porta santa em Roma carrega em si o simbolismo da passagem, da esperança, do rompimento de limites, de perdão. Durante o ano todos os eventos eclesiais devem ser vividos nesta perspectiva.

Tivemos aumento na violência, inclusive, com crimes bárbaros em Manaus — casos de esquartejamento, por exemplo. Será que as pessoas estão menos compassivas? Como o senhor lida com essas notícias?
Estas notícias causam uma profunda tristeza e decepção. As pessoas assassinadas e os assassinos são parte de nós mesmos, pois partilhamos a mesma humanidade. Pergunto-me onde estão séculos de anúncio do Evangelho e prática cristã; por quê tanta banalização da vida e insensibilidade diante do sofrimento? Os requintes de crueldade com que são praticados determinados crimes podem nos levar a duvidar da humanidade daqueles que os praticam. Mas, para quem tem fé, estas situações levam a um compromisso maior com a defesa e a promoção da vida. A resposta de Deus foi a cruz, colocando-se no lugar das vítimas. Devemos olhar as causas destes comportamentos e fazer tudo para eliminá-las.

Em 2015, tivemos muitas polêmicas no Congresso Nacional, como leis sobre o aborto e diminuição da maioridade penal. Também houve discussões sobre ideologia de gênero em diferentes parlamentos. Qual é a visão da Igreja sobre esses temas?
O aborto não pode ser admitido em hipótese alguma, uma vez que implica a destruição de uma vida humana. Outra coisa é como tratar com dignidade e respeito a mulher que engravidou de forma indesejada, ou que abortou. Respeito e compaixão são sempre fundamentais. Somos todos responsáveis pela vida em todas as etapas. A diminuição da maioridade penal como forma de conter a violência juvenil é uma falácia. Procura-se uma saída fácil para um problema complexo. Educação de qualidade, moradia digna, uma política para a juventude que inclua esporte e lazer; e, sobretudo, a implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente [ECA] são o caminho certo de enfrentamento da criminalidade juvenil. A questão de gênero é até mais séria. Para os que professam a fé cristã existe uma natureza humana que foi assumida na revelação. A pessoa humana não se define a si mesma, e não é fruto de uma construção cultural, mas realiza um projeto que a antecede. Podemos respeitar quem pensa diferente, mas também queremos ser respeitados e, em todo caso, não se deveria usar a lei para impor a ideologia de gênero.

Por falar em política, o que o senhor acha da homenagem que será feita ao deputado Jair Bolsonaro (PP), na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM)?
Não acreditei quando vi a notícia e apoio integralmente os que se posicionaram contra. A Pastoral da Juventude da Igreja católica escreveu uma carta ao deputado proponente [Platiny Soares (PV)] que expressa bem a nossa posição. No entanto, como estamos em uma democracia, temos que respeitar os que pensam diferente de nós.

O ano foi marcado por uma série de escândalos nacionais e em diferentes cidades do interior do Estado, como Iranduba, onde a paróquia se uniu à população para protestar contra a corrupção. Qual é o papel da Igreja diante dessa realidade?
A corrupção, o desvio de verbas, a má administração, infelizmente, são uma realidade vivida e sentida nos nossos municípios. O povo vê, sabe e, sobretudo, sofre esta situação. Protestos sempre acontecem e, a cada eleição, se tenta mudar a situação, mas as decepções são grandes e se sucedem. Parece que, agora, estamos vivendo um momento novo. É necessário que fique claro que corrupção é crime e dá cadeia. Enquanto o roubo compensar e até for visto como esperteza e direito de quem venceu as eleições, continuará o assalto a coisa pública. Chega-se ao absurdo de atribuir a benção de Deus o enriquecimento ilícito.

Estamos vivendo uma crise econômica grave. Como o senhor acha que os cristãos podem fazer a diferença? Como a Igreja ajuda/orienta as pessoas nesses tempos de dificuldades?
Tempo de crise é também ocasião de solidariedade e de partilha. Somos desafiados a voltar às coisas essenciais e aos valores fundamentais, consumindo menos e vivendo mais. Devemos ser criativos e generosos. A Igreja tem que abrir seus espaços para atividades econômicas alternativas, cursos profissionalizantes, atendimento aos carentes, organizando a caridade. 

Na opinião do senhor, o que é preciso ser feito em 2016 para mudar o clima de pessimismo que tomou conta dos brasileiros?
O País precisa voltar a confiar naqueles que ocupam funções públicas e os que as ocupam devem ter consciência da responsabilidade que têm. Quando alguém é eleito ou passa em um concurso deve saber que vai se tornar responsável pela coisa pública. Creio também que deveríamos voltar a uma vida mais simples, não vendo no consumo desenfreado um ideal de vida. Sonho com um Brasil com mais praças, mais campos esportivos, mais teatros e menos shoppings center, mais bicicletas e menos carros.

O ateísmo está crescendo entre os jovens no mundo todo. Como ou senhor (ou a Igreja) vê esse aumento? Há estratégias para atraí-los ao Cristianismo?
A minha experiência com a juventude vai um pouco ao sentido contrário. Vejo uma grande participação de jovens nas nossas comunidades. Preocupa-me aqueles que estão excluídos, as vítimas das drogas, os jovens da rua. Quando o jovem entra em contato com o Evangelho vivido e testemunhado com autenticidade e verdade, ele se empolga. A hipocrisia e a falsidade são facilmente detectadas pela juventude. Os próprios jovens sabem os caminhos de evangelização. A gente se surpreende quando confia neles.

Em novembro, o senhor participou de um jantar com líderes de outras religiões (islâmica, judaica, drusa e evangélica). Qual é a importância dessa aproximação?
Foi uma honra e um privilégio encontrar-me com a comunidade judaica de Manaus que proporcionou o encontro com lideranças de outras comunidades religiosas. O diálogo inter-religioso é fundamental, porque reconhece a verdade do outro, do que pensa e crê diferente. Somos todos humanos e o que nos une é muito maior do que o que nos separa. Em um mundo marcado pelo terror, pelo fundamentalismo e pela radicalização é preciso mostrar que nem todos agem assim e que a grande maioria quer viver e conviver em paz. O bonito foi que um druso juntou cristãos, judeus e muçulmanos ao redor de uma mesa farta preparada com generosidade e tradição.

O senhor poderia deixar uma mensagem de fé neste fim de ano?
O Natal faz a memória da misericórdia de Deus que vem partilhar a história humana. A certeza da presença de Deus na nossa vida nos anima a sermos também misericordiosos. Não permitamos que nos roubem o coração. Vivamos mais em família, gastemos tempo com os amigos, participemos da comunidade. O Brasil é maior que a crise. Sairemos dela mais solidários, mais livres, mais justos.


Perfil: Dom Sérgio Castriani
idade: 61 anos
nome: Dom Sérgio Eduardo Castriani
estudos: Formado em Teologia pelo Instituto Teológico Pio XI e em Filosofia pela Faculdade Nossa Senhora Medianeira, ambos em São Paulo-SP.
experiência:  Profissão Religiosa: 2/1/1975; Ordenação Episcopal: 9/8/1998 (Tefé-AM)
lema: “Habitou entre nós”.




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