Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
SAÚDE PÚBLICA

Conselho Regional de Medicina divulga ranking das doenças mais comuns no AM

A Crítica apresenta a lista das enfermidades de maior frequência no Estado, elaborada do Cremam, e traça um panorama sobre elas, ouvindo especialistas sobre os motivos dos altos índices e os desafios para controlá-las



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No ano passado, 3.163 casos de tuberculose foram registrados no Amazonas. Foto: Arquivo/AC
20/04/2019 às 06:00

Hanseníase, HIV, câncer do colo de útero e tuberculose são as doenças mais frequentes no Amazonas. Dada as devidas particularidades de cada uma das quatro doenças, a maioria dos diagnósticos e as prevenções são até simples, contudo, os obstáculos para erradicação ou pelo menos controle delas praticamente são os mesmos. Dentre eles a extensão continental do Amazonas, que dificulta a locomoção de remédios e vacinas a lugares distantes da capital, a falta de recursos humanos e a desinformação.

O levantamento e as conclusões são do Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Cremam), que debate o tema no próximo dia 27, na primeira edição do “Fórum de Doenças de Maior Frequência no Amazonas”. Entre os assuntos que serão discutidos por especialistas renomados estão as perspectivas, a epidemiologia e a contribuição da medicina no combate a essas doenças.

A Crítica ouviu especialistas sobre essas doenças mais recorrentes  e traça a seguir um panorama sobre elas no Estado. Entre os especialistas entrevistados, duas palestrantes confirmadas no fórum do Cremam: a médica ginecologista Adele Schwartz, da Coordenação Estadual de IST/AIDS e Hepatites Virais, da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), e a médica ginecologista Mônica Bandeira, da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon).

Tuberculose

E lidera o topo das enfermidades mais registradas no Amazonas, a tuberculose. A falta de saneamento básico e demora no diagnóstico são algumas das causas para a alta incidência de casos  da doença no Amazonas, já que os sintomas são confundidos, muitas vezes, com casos de gripe ou pneumonia.

Segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), em 2018, foram 3.163 casos registrados no Amazonas. Em 2019, nos primeiros meses, foram 563 casos novos.

A tuberculose é uma doença infecciosa e contagiosa que ataca, principalmente, os pulmões, mas que pode afetar também os rins e o cérebro. O contágio acontece pelo contato com secreções respiratórias, por meio de tosse, espirro e da fala. Os principais sintomas são tosse persistente por mais de duas semanas, febre baixa, perda de peso e sensação de cansaço.

A médica pneumologista Socorro Cardoso destaca que a doença tem cura se o paciente seguir o tratamento com disciplina. “Pacientes renais crônicos, diabéticos ou portadores do vírus HIV são mais vulneráveis à tuberculose”, disse.

HIV

O HIV, como se sabe, não é uma infecção de sintomas imediatos. Por isso são tão importantes os testes rápidos, que podem ser feitos em qualquer unidade básica de saúde com resultado em até 15 minutos. Porém, como reforça a médica ginecologista Adele Schwartz, quanto mais cedo for descoberto, mais eficaz será o tratamento.

“Uma pessoa que começa o tratamento rapidamente nunca sentirá nada. Hoje já é possível ver pessoas, mesmo com o HIV, envelhecendo bem. A medicação é tão eficaz que torna a infecção indetectável no sangue, ou seja, a pessoa não pode transmitir a outros”, explana.

No fim do ano passado, segundo dados da FMT-HVD, o Amazonas registrou uma redução de 34,86% no número de novos casos de HIV/Aids. De janeiro a novembro de 2018 foram diagnosticados 1.545 novos pacientes. No mesmo período em 2017 foram 2.372 casos.

Também os números de testes rápidos realizados pela FMT-HVD ano passado foram superiores aos do ano anterior. De janeiro a novembro, a unidade realizou 14.280 mil testes rápidos, 17% a mais que em 2017, quando foram feitos 12.207.

No entanto, os dados otimistas param por aí. Segundo levantamento do Ministério da Saúde, entre 2007 e 2017, a notificação de casos de HIV entre pessoas com 15 a 24 anos no Brasil aumentou aproximadamente 700%. Para Schwartz, contribuem para esse índice alarmente a desinformação, a baixa escolaridade e contextos de vulnerabilidades como prostituição, uso e abuso de álcool e drogas, entre outras particularidades.

“Os jovens de hoje não testemunharam a epidemia da Aids na década de 1980. O fator adicional é porque pessoas dessa faixa etária sempre se colocam como invencíveis. Por isso, mesmo sabendo que tem tratamento preventivo disponível acabam, mesmo assim, se expondo mais ao vírus fazendo sexo desprotegido (principalmente adolescentes do sexo masculino). Para piorar, jovens são mais resistentes a aceitar que estão infectados e a aderirem ao tratamento. Dessa forma ele fica com o vírus circulando e acaba transmitindo a outros”, explicou.

Desde março do ano passado, a FMT dispõe gratuitamente da Profilaxia Pré Exposição (PrEP), um comprimido - combinação de dois medicamentos (tenofovir e entricitabina) - que impede que o HIV infecte o organismo antes mesmo de a pessoa ter contato com ele. O tratamento tem sido um poderoso aliado na redução da epidemia do vírus no mundo. “A PrEP não tem nenhum defeito colateral. O que há são efeitos gastrointestinais [leves enjoos no início da adesão ao programa], mas são leves”, esclarece Schwartz.

Câncer do colo de útero

Nos últimos 30 anos não houve diminuição dos casos de câncer de colo de útero no Amazonas, segundo a médica ginecologista Mônica Bandeira, da FCecon. A taxa bruta de casos novos no Amazonas, pela projeção do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para 2019, gira em torno de 40,93 a cada 100 mil mulheres. Só em Manaus é de 58,37 para o mesmo grupo populacional.

“Isso é um escândalo. É uma taxa de país subdesenvolvido. Esse tipo de câncer não era mais pra existir. No ano passado 289 mulheres morreram no Amazonas por conta dele, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). Uma média de 23 mulheres morrendo por mês. A maioria veio a óbito sem diagnóstico, sem ter feito nenhum preventivo na vida. O Estado tem uma dívida histórica com as mulheres. Está na hora dos nossos gestores enfrentarem esse problema, no mínimo, a médio prazo”, destacou.

Vários são os fatores de risco, entre eles hábitos de vida, tais como atividade sexual antes dos 18 anos de idade, pluralidade de parceiros sexuais, tabagismo, hábitos de higiene precários e o uso prolongado de contraceptivos orais.

Segundo Bandeira, é possível prevenir vacinando meninos (de 11 a 14 anos de idade) e meninas (de nove a 11 anos) contra o papilomavírus humano (HPV), principal causador do câncer uterino. “Essa vacina é segura, eficaz e gratuita. Por isso é importante uma adesão em massa. E mesmo que já tenho tido experiências sexuais a eficácia da vacina continua para pessoas de qualquer faixa etária”, explica.

O exame preventivo é conhecido popularmente como “exame de papanicolaou”. “É indolor, barato e eficaz. Toda a mulher que têm ou já teve atividade sexual deve se submeter a esse exame periódico pelo menos uma vez ao ano, especialmente dos 25 aos 59 anos de idade”, orienta Bandeira, destacando que o câncer de colo uterino leva de 10 a 15 anos para se instalar numa mulher. “É muito tempo para alguém de prevenir”.

Hanseníase

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de casos de hanseníase, ficando atrás apenas da Índia. No Amazonas, os índices de detecção da doença tiveram uma queda acentuada nos últimos 18 anos.

De acordo com levantamento da Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta (Fuam), em 2000, a taxa de detecção era de 44,3 casos para cada grupo de 100 mil habitantes no Estado. Em 2018 esse índice caiu para 5,35 - uma queda de 77,1%. Mesmo assim já foram registrados 49 casos nos primeiros dois meses de 2019.

Segundo o diretor-presidente da Fuam, Ronaldo Derzy, apesar da queda acentuada na última década, ainda vivemos uma realidade distante da eliminação total da enfermidade no Estado.

“Hoje há menos de 10 pacientes para cada 100 mil habitantes e temos reduzido esse índice gradativamente, contudo, a OMS recomenda menos de um. A eliminação total da hanseníase no Amazonas ainda está distante, mas o tratamento continua eficaz, pois novas drogas estão sendo inseridas, possibilitando que a cura do paciente seja mais rápida”, disse.

Derzy destaca que o preconceito com os pacientes reduziu bastante, em parte pela diminuição de pessoas com as sequelas da doença. “Claro, o preconceito com os pacientes ainda existe e continua sendo ruim do ponto de vista social”, frisou.

As características da hanseníase são bem conhecidas: manchas vermelhas, rosas ou brancas e alteração na sensibilidade da pele. Estima-se que 95% das pessoas que são expostas à bactéria causadora da hanseníase sejam resistentes. No caso dos outros 5% que ainda podem ser atingidos pela doença, o Ministério da Saúde explica que há uma série de fatores que podem influenciar: sexo, idade, genes específicos e condições socioeconômicas e geográficas.

O tratamento contra a hanseníase está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) em todos os estados do Brasil. No Amazonas pode ser realizado tanto nas unidades básicas de saúde (UBS) quanto nas unidades de referência, como a Fuam e a Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD). Todos os municípios do interior possuem programa de atendimento aos pacientes nas UBS, sob a responsabilidade das prefeituras.

Em caso de detecção da doença, o paciente deverá ser acompanhado durante cerca de um ano, dependendo da gravidade. Porém, vele ressaltar que a hanseníase tem cura caso a pessoa siga o tratamento adequado.

Conselho discute o tema em fórum

O Fórum de Doenças de Maior Frequência no Amazonas será realizado no dia 27 de abril, de 9h às 12h, no auditório do Cremam, localizada na avenida Senador Raimundo Parente, Alvorada, Zona Centro-Oeste de Manaus.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas através do site www.cremam.org.br. Serão emitidos certificados de participação. Para mais  informações sobre o evento,   o Cremam disponibilizou o telefone (92) 99142-7884 e o e-mail secretariageral.cremam@portalmedico.org.br.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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