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‘O Sete de setembro é do País e do brasileiro’, afirma Comandante do CMA em entrevista

Comandante Militar da Amazônia, Guilherme Theophilo, convida o amazonense para o desfile militar na Ponta Negra e fala dos desafios do Exército na região  05/09/2015 às 11:30
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Comandante Militar da Amazônia, Guilherme Theophilo
gerson severo dantas Manaus (AM)

O desfile militar de 7 de Setembro será realizado novamente no complexo Turístico da Ponta Negra repetindo o sucesso alcançado no ano passado, quando sob a coordenação do Comandante Militar da Amazônia, Guilherme Theophilo, o evento ganhou um ar mais informal e festivo sem perder a característica solene dos  militares. 

Desfile na Ponta Negra em 2014 (Foto: Arquivo AC)

De acordo com Theophilo, será uma festa cívico-militar com a cara do povo brasileiro, pra cima, e toda a sociedade está convidada a participar. “O sambódromo é um local mais para festa social, como o Carnaval ou o Boi Manaus, para essa solenidade militar a Ponta Negra, onde ocorreu o Fan Fest da Copa do Mundo com muito sucesso, é mais indicada”, avalia o general nesta entrevista. Confira os trechos.

Como será o desfile deste 7 de setembro?

Faremos de novo na Ponta Negra, de 8h às 10h, uma festa bonita e na medida certa para demonstrar o nosso patriotismo. Teremos lá os  paraquedistas  saltando com as bandeiras do Brasil e do Amazonas, nossa cantora indígena entoando  o Hino Nacional em nheengatu. Vamos homenagear os nossos atletas olímpicos e paraolímpicos que desfilarão com as tropas. De diferente só o desfile naval,  que acontecerá no desfile de sábado. Serão mobilizados cinco mil homens do CMA e mais as tropas da Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, dos Colégios Militares, os blindados da brigada de Boa Vista. Será uma solenidade bonita para comemorar o Dia da Pátria em grande estilo, uma festa   do País, que passa por este período de retração geral, mas o Exército vai cobrir os gastos para mostrar que  precisa de patriotismo, ética e moral neste momento. Por fim, vamos prestar uma homenagem a um grande amazônida falecido nesta semana, o general Jaborandy, que estava no comando da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah).

Como ficará o ir e vir dos moradores?

Falamos com a associação dos moradores, vamos ter o concurso de varandas enfeitadas com motivos nacionais, faixas verdes e amarelas e no trânsito será feito um esquema para eles usarem a rua da ponte nova, e eles vão  sair sem dificuldades. Não haverá ambulantes na área e a segurança será como no Fan Fest da Copa. Pretendemos acabar em duas horas e, logo na sequência, entra a equipe de limpeza para deixar o complexo do jeito que encontramos.

O senhor conhece essa experiência da Minustah? Está sendo útil para o Exército e quando vamos sair dela?

Sim. No início era mais complicado, o País estava muito dividido, mas avançamos muito. A expectativa é de que após a eleição presidencial, em outubro, possamos sair de lá em até um ano. E tem sido uma expência muito boa, estamos usando o que aprendemos no Haiti, por exemplo, em  missões  no Rio de Janeiro, como na Maré.

O Exército deve chamar para si essa missão de estabilizar áreas de conflitos em nossas cidades?

Não. Devem ser missões episódicas, pois a segurança é missão das polícias militares. Quando ela reconhece que não tem os meios, armamentos e homens, pode solicitar nossa ajuda. É bom que se diga também que as instituições precisam dar mais apoio quando somos chamados para operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), pois não se combate o crime com horário marcado, exigindo a certeza de que o tiro é no traficante certo. Essas exigências geram tensões, é uma missão que nos dá orgulho, mas é  complexa e, no caso da Maré, perdemos um homem.

Como o senhor vê a segurança nas fronteiras  onde as Forças Armadas, com outras instituições, realizam as operações Ágata?

Vamos agora para a 10ª edição da  Ágata, que será reduzida, mas  mantém o objetivo de combater os crimes interfronteiras. O problema é que ela é uma operação anunciada e durante 10 dias o bandido cessa as atividades dele. Precisamos ter um trabalho de inteligência antecipado para que na hora da operação possamos ter mais efetividade.

 A situação na fronteira então está piorando?

Sim. Eu digo que vivemos hoje no País duas guerras: uma urbana, com  a falta de segurança, e uma guerra na fronteira, por onde passam o tráfico de drogas e de armas que alimentam a guerra urbana. Precisamos, para vencê-las, mais efetividade na faixa de fronteira (150 quilômetros medidos a partir da fronteira pra dentro do território nacional). Sob o meu comando, de Roraima a Rondônia temos pouca presença do Estado. A Polícia Federal em Tabatinga, por exemplo, tem quatro agentes. Como fazer o controle da entrada de imigrantes? A fronteira é dificil de vigiar pelas próprias condições dela e aí precisamos, os órgãos todos, interagir mais.

Há esperanças?

Sim. Vamos instalar agora o Sistema de Monitoramento das Fronteiras (Sisfron). Será um sistema por satélites, com posições georreferenciadas, uso de drones, balões com câmeras, comunicações eficientes, tecnologia. Tudo isso relacionado ao nosso programa Amazônia Conectata.

Há dotação orçamentária para este programa. Em que fase ele está?

Vamos lançar 7,8 mil quilômetros de cabos de fibras ópticas unindo 52 dos 62 municípios do Amazonas até 2018. A primeira fase, até o Município de Tefé, tem R$ 15 milhões disponíveis e empenhados e minha expectativa é entregar no começo do próximo ano. 

O atual Comandante do Exécito, Eduardo Villas-Boas, quando no CMA, disse  que “havia um déficit de soberania” na Amazônia. Como o senhor avalia essa posição? Ele no comando melhora essa situação?

Sim. Hoje a Amazônia é uma prioridade do Exército. O general Villas-Boas falou isso  na Comissão de Relações Exteriores do Senado e eu vou na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara Federal repetir o que ele falou e mostrar detalhes deste problema.

Que detalhes são esses?

O contrabando de riquezas minerais, como o nióbio que sai pela região da Cabeça do Cachorro, em São Gabriel da Cachoeira; o garimpo em terras indígenas, o contrabando de peixes ornamentais, o cultivo de drogas em nosso território, o problema dos Tenharins em Humaitá, um verdadeiro barril de pólvora porque a fronteira agrícola está em expansão. Outro dia, em parceria com a Polícia Civil, pegamos uma tonelada de nióbio escondida em lotes de piaçava. Pegamos manganês saindo das terras dos índios Cinta-Larga em Rondônia. Tudo isso será mostrado aos parlamentares para eles verem onde está o defícit de soberania.

Como está o programa Pro-Amazônia e a recepção na comunidade científica?

É um trabalho que será desenvolvido na faixa de fronteira, com o Exército dando toda a estrutura para os pesquisadores. O programa está organizado em quatro hélices: governo, o meio acadêmico, a iniciativa privada e a sociedade civil organizada - em ongs ou oscips.  Nosso trabalho é organizar essas hélices e fazer os cientistas conversarem. Dou um exemplo: hoje temos cientistas pesquisando malária na Fiocruz, na Ufam, no Inpa, na USP em um monte de lugares, mas a maioria não conversa entre si. Nosso objetivo é facilitar essa interlocução e se um cientista da USP quiser vir para cá pesquisar malária, nós o receberemos, daremos estruturas para ele, com alojamento, alimentação, médico, os nossos soldados que são índios e sabem qual horário ele pode sair sem correr o risco de ser picado pelo mosquito, que locais frequentar sem encarar uma cobra. O fruto dessa pesquisa pode virar na mão da iniciativa privada um produto industrial e, patenteado, pode gerar royalties para ser reinvestido no programa.

Era aí que o Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA) entraria, mas viveu estes anos todos num impasse jurídico...

Visitei o CBA e vi  pesquisas sensacionais, pesquisas que envolvem a segurança nacional. Tem um trabalho que busca tirar o fósforo da molécula de água do rio Negro. Veja,  temos o potássio de Autazes, cuja exploração acabou de ser licenciada pelo Governo do Estado; o gás de Silves é rico em hidrogênio. Com estes três temoso famoso NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) tão necessário para o agronegócio brasileiro, o segmento que está salvando nossa economia. Hoje tem muita burocracia e o Pro-Amazônia que reduzir isso em favor da ciência.

Como é possível essa redução?

O programa inspira-se no que a Marinha faz no ProAntar (Programa Antarctica), que leva cientistas para pesquisar no continente gelado. Hoje, um pesquisador que quiser trabalhar na zona de fronteira pode enfrentar a Funai, o ICMBio, o Ibama, órgãos estaduais e municipais, enfim, um tempo grande. No Pro-Amazônia a autorização para uma pesquisa na Zona de Fronteira - somente nela, no resto do País permanece igual - é feita pelo Exército.

Perfil Guilherme Theophilo
Idade: 59
Nome: Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira
Estudos: Militar formado na Academia das Agulhas Negras (artilharia)
Experiência: Como oficial general trabalhou no Departamento de Educação e Tecnologia do Exército, foi comandante da 12ª Região Militar do CMA. É o atual Comandante Militar da Amazônia.

Militares autorizados a usar barba

O General de Exército Guilherme Cals Theophilo é carioca, mas pertence a uma tradicional família de militares e políticos cearenses. Na ala política, destacou-se o ex-ministro das Minas e Energia do governo João Figueiredo (1979-1985) César Cals.

Mas é o ramo militar da família Theophilo que tem um traço único no Exército brasileiro, pois são os únicos autorizados a usar barba.

O general conta que essa autorização remonta ao período do Império, quando seus ancestrais militares lutaram na Guerra do Paraguai. Essa autorização caiu com a instalação da República e só foi recuperada na época da Segunda Guerra, quando o avó dele, Manoel Theophilo, um médico, foi lutar na Força Expedicionária Brasileira (FEB) e condicionou ao retorno da autorização para a família usar barba. “Essa autorização foi retomada, mas restringiu-se aos descendentes diretos dele que se chamassem Manoel, como me chamo Guilherme não posso usar a barba”, diverte-se com o fato curioso, que beneficiou o pai dele e um irmão. “Somos seis irmãos militares, três coronéis e três generais, e aí tem outro fato curioso porque eu e dois irmãos comandamos na sequência o 10º Grupamento de Artilharia, que era sediado em Fortaleza (CE) e agora foi trazido para Boa Vista na minha jurisdição de comando”, conta o comandante.

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