Terça-feira, 31 de Março de 2020
SÍNODO

‘O Sínodo tem um compromisso ético’, afirma padre Justino Sarmento

Um dos poucos padres indígenas do Brasil, religioso oriundo de São Gabriel da Cachoeira participa hoje, no Vaticano, do Sínodo da Amazônia, assembleia de bispos que vai discutir questões ambientais, sociais e culturais dos povos da região



PADRE_C13D126D-026A-43D6-B9D2-8C1C2BF860C4.jpg Justino Sarmento, padre indígena que vai participar do Sínodo
06/10/2019 às 15:22

Um dos poucos padres indígenas no Brasil, Justino Sarmento foi um dos escolhidos para atuar no Sínodo da Amazônia, que começa hoje, no Vaticano, e vai discutir questões ambientais, sociais e culturais dos povos da Amazônia, com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”.

Em uma conversa durante a preparação para a viagem à Itália, o padre da etnia Tuyuka, nascido em Iauaretê, na Região do Alto Rio Negro, falou sobre o trabalho cristão, as diretrizes propostas pelo Papa Francisco para uma igreja mais acolhedora e as dificuldades que ainda são encontradas atualmente.



O que o levou a tornar-se padre?

Primeiro foi o trabalho dos missionários em Pari Cachoeira. Em 1970, mais ou menos, o bispo de São Gabriel da Cachoeira disse que ia começar um seminário para os jovens que quisessem ser padres, aí foi o meu grupinho queria saber como era, mas o salesiano da época não deu muita atenção para nós por que diziam que ser padre não era algo para os indígenas. Acho que ele estava certo na época. Em 1978 mais ou menos outro padre se interessou e explicou o que era ser padre e eu vim para Manaus fazer o Ensino Médio e o meu aspirantado.

A história do catolicismo com os indígenas começa por meio da opressão. O senhor enfrentou algum dilema por conta das duas crenças?

A imposição era normal naquela época, ninguém tinha essa visão crítica. Dilema sempre tem porque a partir do momento que eu sinto que sou indígena, que meus avós e antepassados têm valores importantes e que isso tem que fazer parte da vida cristã começa a existir esse conflito. Mas, por outro lado, eu penso que se eu não fizer um diálogo com a cultura cristã, de matrizes européias, vai continuar assim. Alguém tem que fazer essas pontes, mas para fazer essa ponte precisa entender muito bem a sua cultura e a do outro, senão não vai ter pontes. Por isso se torna um desafio. Diante de um conflito você pode fugir e aí a situação vai continuar do mesmo jeito, ou você tem paciência até amadurecer para seguir e viver de forma equilibrada. Meu ser indígena não pode morrer quando vou ser padre, senão seria de novo anular minha identidade. Não posso europeizar.

O que significa a evangelização inculturada?

Em 1992, Santo Domingo expressou de forma mais explícita sobre a evangelização incultural. A igreja fez uma grande reviravolta no seu jeito de evangelizar e veio para dizer que a evangelização não deveria ser uma imposição, para dizer que aqui em meio aos povos indígenas, aos povos amazônicos, já existia a semente do verbo de Deus, que ele colocou muita coisa boa em todas as culturas, elas não vêm com os missionários, mas de Deus. Por que o pensamento anterior desqualificava os povos indígenas, o modo de viver, a crença, tudo era desvalorizado. Mas ainda hoje é difícil. Eu sou padre há 25 anos e ainda vejo que os padres não indígenas têm muita dificuldade de entender.

Como funciona o seu cargo no Sínodo? Quais serão suas atribuições?

Fui escolhido em fevereiro de 2018 como um dos especialistas para escrever o documento preparatório. Esse convite para perito é justamente para ajudar o secretariado nos trabalhos durante o Sínodo, ajudar a entender, anotar o que está saindo de novo. São mais de 40 peritos da região Panamazônica e cada perito vai ficar atento às discussões dos bispos para detectar a novidade que está saindo das discussões e repassar para as secretarias.

O senhor acha que a Amazônia estaria sendo discutida se fosse outro Papa?

A Amazônia tem sido discutida pelos bispos da região desde 1952. Tem discussões sobre a evangelização, as questões sociais. O Papa Francisco participou antes como arcebispo da Argentina e ouviu várias vezes essa discussão. Em 2013, na Jornada Mundial dos Jovens, ele disse que a Amazônia tinha que ser um tema importante e a partir disso consultou os bispos para ver o que podia ser feito e pensou em como dar uma atenção maior, a partir disso começou um trabalho mais direcionado. O Papa Francisco foi um grande incentivador. Quando ele esteve em Puerto Maldonado, no Peru, e ouviu os povos indígenas, amazônicos, e deixou que os povos falassem. Aí ele nos mostra que a metodologia utilizada é ouvir os povos. Por isso, talvez, que muitos cardeais e intelectuais ficam chateados por não terem sido consultados, mas sim os povos da Amazônia.

O senhor acredita que essa discussão vai trazer mais atenção dos políticos para a área?

Penso que a igreja chegou ao seu auge ao olhar para o lado mais pobre. Ela tem uma tendência ao retorno da vida mais tradicional. Muitos não querem saber dos indígenas, a maioria dos padres não pensa em trabalhar com os indígenas. O Sínodo tem um compromisso ético e político, ele não tem compromisso apenas com a igreja. O tema nos leva a pensar numa ecologia integral e pensar no lado social, cultural, ambiental e político, mas não é contrapondo a esse ou aquele governante.

Tem coisas que estão claras, evidentes, que não se pode negar. Temos uma Constituição que trata das questões indígenas como demarcação. Os pronunciamentos do governo federal não leva em conta o respeito à legislação brasileira, a Convenção 169 que trata da consulta prévia e informada. Como temos visto nos pronunciamentos parece muito improvável que ele dialogue com os povos, por isso essa relação desigual. Ao mesmo tempo que despreza os territórios indígenas, não admite atender às necessidades desse povo e isso incentiva quem é contra a invadir, a não ter respeito, porque o governo não tem respeito, é preconceituoso, e os discursos são assustadores.

Eu fico preocupado porque um governante deveria ter mais consideração com a diversidade culturais do território nacional. Eu, como padre e estudioso das culturas, queria ouvir palavras mais respeitosas que refletissem atitudes de um governante, mas do jeito que fala parece que está incentivando a invadir e a matar quem está resistindo.

O Papa Francisco tem natureza franciscana e está sempre ligado a questões humanas e sociais. O senhor percebe que houve proximidade da igreja nessas áreas depois que ele assumiu?

A igreja sempre tem feito estudos e se comprometido com questões sociais, então o Papa lançou em 2015 a encíclica Laudato Sí, que é uma encíclica social de compromisso de todos os povos terem cuidado com o mundo, que ele chama de casa comum. Muitos governantes assimilaram essa encíclica para implementar as suas políticas nacionais e internacionais, talvez por isso muitos países implementaram recursos para o Brasil, uma vez que a Amazônia era vista como o pulmão do mundo. O Papa Francisco tem sido corajoso em lançar essas questões.

Pelos caminhos que a igreja toma hoje, o senhor acredita que no futuro ela estará mais aberta para LGBT+ e mães solo, por exemplo?

Eu vejo que o Papa tem dado orientações para que a igreja seja mais acolhedora, samaritana, que é estar próxima do ferido, caído, excluído, menosprezado. Mas, essas questões também incomodam muitas pessoas, uma parte mais tradicionalista que quer conservar aquele estilo de vida “pura”, em defesa das tradições e entra em conflito direto com as orientações e com quem quer fazer essas aberturas, não com o Papa. Se não houver conversão ecológica, da comunidade, não vai acontecer nada, porque pode ter muitos documentos bons, mas se eu não quero mudar de atitude, não vai adiantar nada ter um ótimo Papa. O desafio maior é a conversão pessoal, tirar o preconceito contra o diferente, com o índio, o negro, casais separados, homossexuais e tantos outros. O mais estranho é cristão excluindo outro cristão.

O que o senhor pensa sobre o celibato?

É algo que vem da graça de Deus e do esforço humano pessoal. Quando se pensou na ausência de eucaristia em muitas comunidades da Amazônia se pensou que podia pensar em outro modelo de sacerdócio. Tem lugar que só tem padre a cada dois, três anos. Para esse contexto foi pensado em ordenar homens casados que tenham experiência sacerdotal, que sejam maduros para atender essas comunidades. É um tema de estudo, tem muitos bispos favoráveis, muitos que não, e isso também vai ser objeto de estudo no Sínodo. Eu penso que se não tem muitos padres nós devemos estar precisando de uma nova maneira de acompanhamento vocacional.

O A CRÍTICA apurou que existe a possibilidade de o senhor ser ordenado bispo. Como o senhor vê essa possibilidade?

Essa é uma realidade que ninguém sabe. No meu caso não tem nada, não, o pessoal que vive fantasiando. Para os indígenas seria uma novidade, porque em todo o Brasil não deve passar de 50 a quantidade de padres indígenas, e o índio é ser humano, capaz e quando não tivermos uma visão positiva do outro vai continuar desqualificando.

Perfil

Nome: Justino Sarmento Rezende

Idade: 58 anos

Estudos: Filósofo, Teólogo, Mestre em Educação, e Doutorando em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Experiência: É padre há 25 anos, já atuou como professor foi pároco na igreja São José Operário e faz missões pelo Amazonas. Vai atuar no Sínodo da Amazônia como perito.

Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.