Quarta-feira, 24 de Julho de 2019
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Ocupantes ampliam área de invasão na AM-070

Ocupação após a ponte Rio Negro avança mais dois quilômetros



1.jpg Além de táxis que fazem lotação para a comunidade, muitos carros param pedindo informações sobre como conseguir um terreno no local, na altura do km 4
23/08/2013 às 07:51

Em menos de um mês de ocupação de um terreno de 50 mil metros quadrados entre os quilômetros 4 e 6 da estrada Manoel Urbano (AM-070), os invasores que se auto-denominam “Comunidade Deus é por nós” ampliam os domínios para o km 8, onde estão sendo assentadas as pessoas que todos os dias chegam ao local. Da estrada, não é possivel ver a ampliação. “Eles estão indo por dentro. Se você for ‘parente’, fica logo aqui pelo início (no km 4), mas se for ‘branco’ já vai ser colocado lá pra trás, porque não tem mais vaga”, relatou uma das ocupantes, cujo nome foi preservado.

Ela conseguiu um terreno na última quarta-feira, após passar 15 dias dormindo embaixo de uma mangueira. “Eles não estão cobrando nada, mas só dão para quem eles veem que precisa”, disse a dona de casa. A ampliação não pode ser vista da rodovia. No entanto, na entrada localizada no km 6, após a primeira “quadra” de lotes, é possível ver a trincheira aberta na mata avançando para além das barracas já estabelecidas.

No início, a estimativa da Prefeitura de Iranduba era de que existiam 1,2 mil barracos. No entanto, segundo informações de ocupantes do local, no último domingo foram assentadas 500 pessoas. A informação foi repassada durante uma reunião da liderança com os invasores.

A CRÍTICA acompanhou a movimentação que acontece à noite no local e flagrou vários carros de luxo entrando e saindo da invasão, entre eles caminhonetes modelos L 200, Hilux e Ford Ranger. O pico de fluxo acontece entre 18h e 19h. Nesse período, kombis, vans. ônibus, táxis (de Manaus e Iranduba) e muitos carros particulares chegam e saem com lotação completa. O valor cobrado por cabeça é fixado em R$ 5, apenas para atravessar a ponte, um trajeto de aproximadamente cinco minutos. Até mesmo carros particulares que vão deixar ou buscar parentes na troca de turno, oferecem o serviço, que é ilegal.

Segundo informações de ocupantes, após ganhar o terreno é preciso limpar a área e se fixar no local. “Se virem que tem apenas uma rede, sem ninguém, eles passam para outro”, disse uma dona de casa que conseguiu o terreno.

Segundo um morador próximo ao terreno, não há documentação regular. Ele mora e trabalha na terra há oito anos, mas não tem qualquer título. A plantação de laranja e limão dele foi destruída pelos indígenas ainda na chegada, no dia 25 de julho. “Eles são de toda a parte: do Tarumã, Coari, Tefé... Sei porque negociei com eles a minha área, para não ser invadida”, disse.

Das etnias que inicialmente compunham o corpo da invasão, identificadas pela prefeitura, apenas a Apurinã não está mais no local. Ela foi expulsa pela liderança, segundo informações colhidas no local. Indígenas Sateré-Mauwé, Mundurucu, Mura e Miranha continuam alojados na área em expansão.

Policiais do 27º DIP são ameaçados
O clima em Iranduba é de tensão por conta da presença de indígenas oriundos da invasão. Na última quarta-feira, a irmã do cacique Sabá, identificado por membros da invasão como o líder, ameaçou invadir o 27º Distrito Integrado de Polícia (DIP).

Segundo o investigador Samuel Maduro, ela foi ao local com outro indígena, que estava sem camisa. Ao pedir que ele se vestisse, ela alterou o comportamento e reagiu dizendo que todos eles, se quisessem, poderiam “andar nus”. O policial solicitou a identificação emitida pela Fundação Nacional do Índio (Funai), mas nenhum deles tinha o documento.

Minutos depois, uma caminhonete e um Fiat Doblô apareceram cheio de homens armados com arco, flecha e lanças. “Tivemos sangue frio para negociar. Eles estavam ameaçando entrar pela parte de trás da delegacia”. Segundo testemunhas, alguns policiais chegaram a empunhar armas.

Os indígenas estavam acompanhados de uma mulher não identificada e usaram termos técnicos para registrar a ocorrência, que era contra um comerciante que os ofendeu.

Discrição é ‘palavra de ordem’
Isopores, restos de madeira, caixas, sacolas, mantimentos, chegam a todo momento na comunidade “Deus é por nós”. A estimativa de moradores próximos é de que haja pelo menos 20 mil pessoas no local.

Os terrenos doados, segundo ocupantes, medem 10x20 e valem R$ 150 mil. “Foi o que nos falaram na reunião e que era proibido vender porque ali só estava quem precisava”, disse uma senhora que pediu para não ter o nome revelado. As reuniões são geralmente feitas pelo indígena Artêmio, irmão do cacique Sabá, e responsável pela distribuição dos lotes.

Outra orientação dada pelas lideranças é para que todos evitassem tragefar de carro no local, inclusive os indígenas que têm vários carros de apoio, segundo moradores próximos ao local. A movimentação dos veículos, segundo ocupantes, tira a credibilidade do movimento.

Mesmo “os que precisam”, que relatam histórias de sacrifício, reconhecem que no local há “muita gente rica”. Eles afirmam que a maioria são grandes comerciantes da avenida Brasil, no bairro Compensa, pois conhecem os mesmos. “Aí dentro tem comércio, comida, barraquinha de churrasco, tudo”, relatou uma das ocupantes.

A preocupação dos indígenas com o sigilo é tamanha que todos os carros são revistados ao tentar entrar no local. Além disso, uma mulher que parou o carro em frente à invasão, na última segunda-feira, e tentou filmar com o celular, teve o aparelho quebrado, segundo moradores próximos ao local. “Os indígenas comentam que estão fazendo isso por quem precisa e que por isso, o máximo de proteção ao local é necessário, até que a Justiça resolva tudo”.

A equipe de A CRÍTICA tentou entrar no local, na altura do quilômetro 6, e foi orientada a procurar o cacique Sabá. Depois de andar por aproximadamente 200 metros, um indígena visivelmente alcoolizado barrou a equipe e quis negociar o valor da entrevista. Ele identificou-se apenas como “irmão do Sabá”. A reportagem foi expulsa do local sob murros e tapas no veículo.

O processo judicial de reintegração de posse referente à ocupação passou a tramitar na Justiça Federal, após pedido do Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM). A juíza Luciana da Eira Nasser, da 2ª Vara Cível da Comarca de Iranduba, havia concedido reintegração ao proprietário. O procurador da República Julio José Araujo Junior esteve no local no último dia 4 de agosto. A Justiça Federal ainda aguarda a remessa dos autos.

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