Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
Comportamento

Orgulho no altar: casamentos homoafetivos ganham mais espaço e aceitação

Seis anos após reconhecimento da união estável de gays e lésbicas no STF, casais de Manaus e do resto do País cada vez mais optam por oficializar a união em cerimônia ao lado de pais, amigos e familiares



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Murilo Faleiros (à esq.) e André Porto resolveram oficializar união em cerimônia de casamento e festa para 200 convidados, entre familiares e amigos, na última sexta-feira (Foto: Acervo pessoal/André Porto)
29/01/2017 às 16:42

Foi um casamento como outro qualquer, com direito a rito, troca de alianças, declaração de votos, padrinhos, convidados, bolo e até buquê jogado no ar. A diferença, para quem vê assim, foi o fato de os noivos serem dois homens: os empresários André Porto e Murilo Faleiros, que após seis anos de namoro e um de noivado, resolveram oficializar a união numa cerimônia na noite da última sexta-feira (27), para 200 familiares e amigos do casal, no Tarumã.

“Nunca vimos diferença entre nós e outros casais, e por isso queríamos as coisas que duas pessoas que se amam querem para celebrar esse momento: fazer uma festa reunindo todo mundo de que a gente gosta”, declara André, hoje casado e feliz.

Embora menos comuns que aquelas de casais ditos tradicionais, celebrações de uniões homoafetivas como a de André e Murilo já não são coisa de outro mundo. Com maior respaldo graças ao reconhecimento por entidades jurídicas em anos recentes, casais gays e lésbicos de Manaus e do resto do País vêm oficializando seus compromissos não só frente à lei, como também aos amigos e familiares.

Maior aceitação
Responsável pela coordenação geral do casamento de Porto e Faleiros, Lena Souza Lima atesta que há um interesse maior de casais gays e lésbicas que querem marcar a união com cerimônias e festas. “É algo que vem crescendo, até pela tendência das pessoas se assumirem frente à sociedade”, assinala a assessora de eventos, que já tem outra cerimônia do gênero agendada para outubro, em Manaus.

Danielle Sena, que há pouco tempo esteve à frente de um casamento gay em Manaus, corrobora a tendência. “Desde que o Judiciário reconheceu o casamento homoafetivo, as pessoas se aceitaram e resolveram se expor mais”, comenta ela, também da área de assessoria de eventos e cerimonial.

Tradição mantida
Exceto por haver dois noivos ou duas noivas em vez de um noivo e uma noiva, os casamentos homoafetivos seguem praticamente os mesmos formatos e tradições de qualquer casamento.

“Tudo que se tem nos casamentos mais tradicionais, como o cortejo dos noivos e ou a entrada com pais e padrinhos, pode ter também num casamento entre dois homens ou mulheres. Nesse que fiz o casal optou por não ter o cortejo, mas já tive um casal hetero que também optou por não fazer”, conta.

Para o casamento de Porto e Faleiros, por sua vez, Lena organizou uma cerimônia tradicional. “Eles quiseram tudo igual ao que há em qualquer casamento: entrada com os pais, corte do bolo, brinde, tudo que há numa cerimônia comum”, comenta a assessora. “Quem faz opção por casar é tradicional, não importa se é um casal do mesmo sexo ou não”, sentencia.

Porto, que também tem uma empresa de eventos e ajudou na organização de seu casamento, aponta que a única diferença do evento foi não ter havido celebração religiosa.

“Mas teve entradas, padrinhos, madrinhas, alianças, pais, convidados. Teve bolo, docinho, primeira dança. E os dois jogamos buquês. Talvez tenha sido apenas uma produção mais despojada, em estilo lounge, com bufê mais finger food”, declara.

‘O amor vence’
Esse casamento, todavia, poderia ter ficado só no sonho se Porto e Faleiros tivessem seguido a ideia inicial de fazer apenas uma cerimônia íntima. “Mas depois pensamos que não temos por que nos esconder, não estamos fazendo nada errado”, lembra Porto.

A proposta da celebração maior, segundo ele, ganhou força com o apoio dos pais do casal, que abençoaram a união e entraram com seus filhos no cortejo. “Somos privilegiados por ter nossos pais com a gente do lado. E mostramos que somos duas famílias nos unindo”, declara ele, hoje satisfeito com a decisão de ter um casamento.

“Ao longo desse ano só tivemos coisas boas, com nossos pais, primos, irmãos, amigos e até desconhecidos nos parabenizando por mostrar que é normal e por quebrar barreiras”, afirma. “Não abrimos mão de fazer o casamento, para mostrar que o amor vence. Não importa de onde venha ou como seja, é amor”.


GARANTIA DE DIREITOS
O casamento entre pessoas do mesmo sexo se tornou realidade no Brasil após o reconhecimento da união estável pelo Supremo Tribunal Federal, em 2011, e a aprovação da habilitação de casamento em cartórios civis sem necessidade de autorização judicial, dada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2013.

Desde então, os casais homoafetivos seguem o mesmo processo dos demais para oficializar a união, bastando ir a um cartório com documentos pessoais e testemunhas. “O tratamento dado aos casais gays no cartório é exatamente igual àquele dado aos heteros. Não há qualquer distinção”, assinala Juliana Follmer, oficiala do 8º Registro Civil de Manaus.

Segundo Juliana, a maior demanda pela habilitação no 8º Registro Civil foi nos anos de 2013, após a decisão do CNJ, e 2014. Em 2015 e 2016, o cartório registrou sete e seis pedidos, respectivamente. “Acredito que havia uma demanda reprimida, levando a uma procura maior no início, e que depois se estabilizou”, avalia.

Também vice-presidente da Associação dos Registradores Civis das Pessoas Naturais (Arpen-AM), Juliana aponta que a mudança vem sendo encarada de forma tranquila nos cartórios de Manaus, e destaca a nova realidade como “um avanço”.

“No trecho de Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição Federal, fala-se da não distinção das pessoas por sexo, cor ou raça. Garantir o direito ao casamento é garantir o respeito à Constituição”.


BUSCA RÁPIDA
Casamentos iguais

Casais gays, lésbicos ou heterossexuais que desejem oficializar a união podem procurar qualquer cartório para requerer a habilitação, levando RG, CPF, comprovante de residência, certidão de nascimento e, no caso de víuvos ou divorciados, documentos que atestem o fim da união anterior. É preciso ter ainda duas testemunhas, munidas de RG, CPF e comprovante de residência.

Para dúvidas ou informações, basta entrar em contato com a Aspen-AM pelo telefone (92) 3307-0359.


SAIBA MAIS
Holofotes na cerimônia

Um dos primeiros casamentos homoafetivos a chamar a atenção foi o do estilista Carlos Tufvesson e do arquiteto André Piva. Eles se casaram em 2011, após 11 anos juntos, mas ainda chegaram a ter problemas para oficializar a união no cartório. Esse obstáculo depois seria superado com a decisão do CNJ de 2013.

Outro casamento que virou notícia no Brasil foi o do jornalista Bruno Astuto com o estilista Sandro Barros (foto abaixo). A união do casal reuniu um vasto rol de famosos em São Paulo, no final de 2014.


Casamento de Sandro Barros (à esq.) e Bruno Astuto ganhou holofotes ao reunir diversas celebridades em São Paulo, no final de 2014 (Foto: Reprodução)


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