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‘Os haitianos são lutadores e querem viver com dignidade’, diz missionária Santina Perin

Ativista contra o tráfico internacional de pessoas, a história de vida da missionária é um testemunho, nas últimas duas décadas, dos desafios enfrentados pelos haitianos em seu país natal e no processo de migração deles para o Brasil 19/10/2014 às 14:26
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Santina Perin é ativista contra o tráfico internacional de pessoas
Ivânia Vieira ---

Há quatro anos Santina Perin mora em Manaus. Tornou-se presença marcante nos encontros onde migração e tráfico de pessoas são temas centrais. É literalmente uma missionária nesse campo percorrendo o mundo e os lugares de poder para denunciar os maus-tratos e reivindicar tomada de decisão por parte dos governos e das instituições à garantia da dignidade da vida.

Aos 74 anos dos quais 46 dedicados à vida religiosa, Santina acompanha há mais de duas décadas a história dos haitianos no Haiti e no Brasil. Gaúcha de Marau, cidade próxima a Porto Alegre (RS), a freira de 1m55 de altura, 55k de peso, uma placa de platina no fêmur, se agiganta na fala firme e nos gestos vivos na defesa dos imigrantes e de forma mais específica, nos últimos 22 anos, dos haitianos.

Aprendeu o creole em “cenas mudas” quando em 1987 chegou ao Haiti atendendo apelo dos bispos para que religiosas fossem àquele país ajudar os mais fragilizados. A recomendação feita pelos bispos era que as interessadas entendessem as línguas francesa e creole (que tem no Haiti o maior número de falantes). Santina não sabia e, na Diocese de Jérémie, comunidade que integra o Distrito de Grand’Anse, construiu um método próprio para aprender a se comunicar: desenhava em uma folha de papel nariz, olhos, boca, mãos... e procurava saber nas feiras livres e nas vendas como se falava em creole; ouvia e ia para casa “estudar”. Aprendeu e é hoje uma das poucas pessoas nesta região a falar e escrever nessa língua o que a fez ainda mais próxima aos haitianos.

Membro da congregação “Irmãs do Imaculado Coração de Maria”, cuja sede está instalada em Porto Alegre, a missionária experimentou, na primeira passagem pelo Haiti ameaças diversas quando militares se revezavam no poder após destituírem o presidente Jean Claude Duvalier, “Baby Doc”, sucessor, aos 19 anos, do pai, o médico sanitarista François Duvalier, “Papa Doc”, responsável por uma das longas e cruéis ditaduras no país. Com a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, um padre salesiano que recebeu 67% dos votos nas eleições livres de 1990 e foi deposto por novo golpe militar sete meses depois de tomar posse, a perseguição a todos que eram ligados ao presidente deposto virou marca desse período.

Irmã Santina e dois padres deixaram o Haiti em um barco com capacidade para 35 pessoas. Levaram 69. Foram pegos pela guarda costeira dos Estados Unidos e levados à base de Guantánamo, onde encontraram 17 mil haitianos presos. A partir daí a missionária e os sacerdotes viajam pelo mundo para denunciar a repressão dos militares haitianos e pedir ajuda à população do país mais pobre da América Latina, um dia chamado de “a pérola do Caribe”.

Em Manaus, desde 2011, Santina é o olho cuidadoso e solidário dos milhares de haitianos que desembarcaram na cidade a partir de 2010; trabalha para criar as bases nesta região da congregação; e é uma ativista de toda hora contra o tráfico internacional de pessoas. A seguir trechos da entrevista concedida a A CRÍTICA por Santina Perin:

O que levou a senhora ao Haiti?

Sou religiosa há 46 anos e sempre trabalhei com o povo, com os pobres, com gente que luta. O Haiti apareceu na minha vida como um convite quando em junho de 1987 minha congregação refletindo sobre a necessidade de atender a um pedido do bispo da Diocese de Jérémie, e de vários bispos para que freiras fossem para trabalhar por lá. Me candidatei e fui aceita. Escolhi o Haiti por ser um país negro e para ajudar a descontar um pouco do que nós, brasileiros, devemos aos povos negros pelo tempo em que foram escravizados no Brasil. Entendo ser um gesto concreto de solidariedade para com os filhos dos que foram escravizados em território brasileiro.

Quais eram as suas atividades no Haiti?

Trabalhávamos com os camponeses. Acompanhamos a primeira eleição democrática livre do Haiti após mais de 200 anos de golpes de Estado, de muita briga e de muita luta (primeiro na colonização espanhola, veio a francesa, depois uma parte dos americanos... e, mais tarde, entre os chefes haitianos mesmo). A primeira eleição livre foi em 1990 quando colocaram o Pe. Aristide (Jean-Bertrand Aristide) que só conseguiu permanecer no cargo por sete meses. Um golpe militar o retirou do governo, o povo sofreu muito com perseguições por parte dos militares que assumiram o comando do país. Eu trabalhava pela Cáritas em Jérémie e fomos muito ameaçados, não perseguidos com armas, mas durante o período de setembro de 1991 até 1994 todas as nossas atividades eram supervisionadas. Em junho de 1994, eu e mais dois padres, um canadense e o outro da Guatemala, fizemos um gesto concreto em favor desse povo denunciando as ameaças e as atrocidades contra os haitianos pelo governo militar. Saímos em um barco, chamado “Jonas”, que cabia no máximo 35 pessoas mas levava 69 e por pouco nosso barquinho não afundou. Deus fez com que a gente conseguisse sair. Viajamos 16 horas nesse barco e fomos pegos pela guarda costeira americana.

Capturados, foram levados para onde?

À base de Guantánamo (ao sul de Cuba sob controle dos EUA) junto com os haitianos. Encontramos lá 17 mil haitianos distribuídos em sete campos que eram mais ou menos sete campos de concentração, uma situação horrível. Nos EUA disseram que não iam se envolver conosco, então um padre americano, capelão-chefe, da Ordem dos Franciscanos que era a mesma dos dois padres que estavam comigo, nos acolheu e pediu para ficarmos mais dias por lá para irmos aos campos onde estavam os prisioneiros, quando seriam celebradas missas e confissões. Ficamos e atuamos como intérpretes do inglês para a língua creole. No dia que retornaríamos ao Haiti, o Departamento de Estado dos EUA avisou que não deixassem a gente partir porque lá no Haiti estava sendo preparada uma ação contra nós. Os militares haitianos queriam nos enfiar na prisão, nos matar e disseram que lá, no Haiti, não teríamos nenhuma proteção. O fato é que alguns setores do governo militar ficaram contra nós depois desse gesto de ajudar haitianos a fugirem do país.

O que a senhora e seu grupo fizeram diante dessa situação?

Não pudemos retornar para o Haiti. O padre-capelão nos abrigou por mais alguns dias e depois nos mandou para a Flórida, onde em Miami tivemos uma acolhida muito grande de amigos de haitianos e de haitianos advogados, médicos. A partir dali pudemos falar da situação em que viviam os haitianos. Fomos para Boston, Nova York, Washington... onde chegávamos denunciávamos. Em setembro de 1994 voltei para o Brasil e a congregação me pediu para falar das condições lastimáveis de vida do povo haitiano no nosso país. Eu fui para as escolas, para os meios de comunicação, onde era possível mostrar essa realidade eu mostrava. No ano de 1995 eu voltei para o Haiti, não tive problema nenhum.

Como a senhora avalia a situação dos haitianos hoje?

É um povo que tem muita coragem, que tem consciência da sua humanidade e da sua dignidade. Sabe que merece respeito e luta por isso. Infelizmente, nesse período todo de turbulência, os cérebros haitianos foram exportados. O Canadá recebeu muito deles; Estados Unidos, França... Os preparados encontraram vistos e tiveram que sair porque no país não conseguiam fazer nada. Muitos queriam voltar para ajudar, mas não conseguiram base estrutural para fazer o que sabem fazer. Todas as instituições faliram. Um padre jesuíta muito preparado, Godofredo Midi, diz: ‘no dia que o Haiti tiver um presidente que ame o povo, em um ano o Haiti se levanta’. Quem assume o poder por lá não é por amor ao povo é por amor a interesses particulares.

Quanto aos haitianos que vieram para o Brasil, muitos deles estão em Manaus, como estão?

Eles vieram para o Brasil porque o nosso presidente Lula foi em visita até lá e disse que o Brasil os receberia de braços abertos. Na verdade, o Brasil foi o único país sensível ao drama daquele povo porque os outros não os acolherem, ao contrário, ignoraram. Então eles vieram a partir de 2010 e muitos em 2011, e continuam vindo, agora em número menor. Os rakitès (“coiotes”) aproveitaram a palavra do então presidente e passaram a agir vendo nessa vinda um negócio para ganhar dinheiro. Disseram algo como ‘vamos levar vocês para o Brasil onde vão encontrar trabalho, casa e salário mensal de US$ 1,4 mil (equivale a aproximadamente R$ 3.311). Tem gente que chega a gastar US$ 7 mil (equivale a R$ 16.555) para fazer essa travessia. Os pobres não conseguem sair, somente os que têm uma vaquinha, alguma terra, uma casa, e vendem tudo o que têm para vir (Irmã Santina chora ao relatar esse cenário de saída). São pais que vendem tudo apressadamente para mandar o filho para cá; o filho chega sem profissão, sem ter onde morar; o pai endividado; a família deixa os filhos menores nas mãos da avó. No Haiti tudo é pago; a escola pública é pouca (uma oferta de aproximadamente 7%) e é muito fraca. Uma ‘sala de aula’ que caberia 50 pessoas tem 150 alunos. Crianças penduradas pela janela para estudar. Alguns pais compram o banquinho para a criança ter onde sentar na escola. Isso eu vi em 2009. O que me dizem é que essa realidade não mudou; o que tem agora são algumas escolas orientadas por religiosos da Europa (que enviaram recursos para ajudar).

Por que os haitianos vêm para o Brasil e, particularmente, para Manaus?

Porque eles são lutadores e querem viver com dignidade. Estão em busca do direito de viver de forma digna. A instabilidade política continua. É característica dos haitianos a mobilização rápida. Aliás, é algo impressionante. Lembro que quando cheguei lá uma única rápido conseguiu derrubar o “Baby Doc” (Jean Claude Duvalier que aos 19 anos assumiu o comando do país em substituição ao pai, François Duvalier, o “Papa Doc” que governou o país de 1957 a 1971). Eles se mobilizam no “um diz para o outro” e logo tem uma multidão nas ruas. Penso que se as coisas tivessem melhorado os haitianos não estariam saindo do jeito que saem em grande sofrimento.

Sim, em Manaus, como eles estão?

Na verdade, o começo foi muito difícil porque eles chegaram em grande quantidade e o povo local não estava preparado. Teve muita discriminação. A gente escutava ‘o que é que esses negros vieram fazer aqui?’ ‘Tirar o espaço, o trabalho dos outros?’ ‘Vamos ter problemas sociais, vamos ter mais crime ...’ Foi muito triste. Graças a Deus tivemos a solidariedade de uma boa parte dos manauaras e isso foi fundamental, pois se ela não tivesse ocorrido hoje, sim, teríamos haitianos pedindo esmola nas ruas, fazendo crimes ou na cadeia. Não temos isso. Eles sabem que são estrangeiros e têm se esforçado muito para fazer a vida.

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