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Paciente precisou recorrer ao judiciário para iniciar tratamento contra câncer, em Manaus

Uma decisão judicial, com previsão de multa diária de R$ 5 mil, garantiu a Edna Botolli o serviço. Ela ressalta: 'infelizmente essa não é a realidade de muitos pacientes que estão contando com a sorte para serem atendidos antes de morrer' 15/05/2015 às 21:28
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Fundação Cecon é o único centro gratuito para tratamento de câncer no Estado
Adália Marques Manaus (AM)

A autônoma Edna Botolli, 56, paciente de risco da Fundação Centro de Controle de Oncologia (FCecon) há 13 anos, precisou entrar com um pedido de liminar na Justiça para garantir o início do tratamento, atrasado desde o dia 7 de abril, colocando em risco a saúde dela. A garantia só veio dia 24 de abril, com decisão da juíza Rosália Sarmento, da Comarca de Manacapuru, determinando que o serviço fosse iniciado em até 7 dias, sob pena de multa diária de R$ 5 mil.

O atraso no tratamento, que segundo Edna só foi iniciado dia 14 deste mês, foi motivado pela falta de medicamentos fundamentais para os procedimentos, como o Oxaliplatina, que custa aproximadamente R$ 1,5 mil, contou a paciente. “Com a proteção judicial não fico sem o tratamento, mas infelizmente essa  não é a realidade de muitos pacientes que estão contando com a sorte para serem atendidos antes de morrer”, desabafou.

O aposentado José Airton de Souza Pontes, que foi submetido a uma cirurgia para retirada de um câncer no estômago, conta que passou pela mesma situação durante o tratamento da FCecon. De acordo com a esposa, dele, a também aposentada Maria do Rosário Rego, 57, a demora no início do tratamento foi agravada, na época pela falta de médicos. “Um médico estava de férias, outro de licença, outro havia pedido a conta e os profissionais que existiam não atendiam a demanda. Esse problema já foi resolvido, de acordo com ela, mas só depois de muita burocracia, 120 dias de espera para a marcação da cirurgia e um “jeitinho” que beira a corrupção.

“A gente mora em Silves e, para ‘apressar o processo’, pagamos uma pessoa de dentro da fundação para ajudar a conseguir começar o tratamento. Tive que dar uma ‘gorjetazinha’ (sic) para conseguir marcar, para dali a dois meses, a operação”, denunciou a aposentada.

Demanda

A falta de medicamentos não é o único problema relatado por pacientes que buscam tratamento na FCecon. Problemas estruturais e efetivo insuficiente também comprometem o atendimento, de acordo com relatos de pessoas como a aposentada Rosemeire Rebelo, 59.

Ela é acompanhante da sogra, Tereza Ferreira, 74, que foi diagnosticada com câncer de colo do útero, mas ainda não conseguiu dar início à quimioterapia por falta de vagas.

“A minha sogra está sangrando bastante e os médicos pediram esses exames de Endoscopia e Retossigmoidoscopia para poder começar o tratamento de quimioterapia. Sabe o que eles (funcionários da FCecon) me disseram? Que tem mais de 200 pessoas querendo também, e ela vai ter que ficar na fila de espera. Então a pessoa vai ficar sangrando até morrer  à espera de atendimento? Além de tudo, ela é uma idosa, onde fica a questão da prioridade?”.

A FCecon informou que os procedimentos de endoscopia e retossigmoidoscopia vêm sendo realizados sem interrupção, mas que o caso de Tereza será avaliado individualmente para garantir o início do tratamento.

Saiba mais: Esquema

Uma outra mulher, que não quis se identificar, revelou que alguns acompanhantes de pacientes a pagam para que ela agende consultas na FCecon. Ela explicou que, por trabalhar na unidade há três anos como cuidadora é conhecida dos funcionários, o que facilita o “serviço”. “É preciso chegar cedo para marcar a triagem e o tratamento antes da fila ficar grande”, revelou. A fundação informou nunca ter recebido denúncias sobre qualquer tipo de favorecimento ou irregularidade na marcação de consultas.

Unidade atende ao ‘prazo legal’

A FCecon informou que o início do tratamento de quimioterapia ocorre em 60 dias  ou menos, conforme determina a legislação vigente. Ainda segundo a fundação, a aquisição dos quimioterápicos tem sido feita de forma contínua, mas eventualmente há desabastecimento por problemas na produção das medicações, cuja maioria é importada.

Ainda segundo a FCecon, em 2013 a quimioterapia foi ampliada com a criação do terceiro turno, que estendeu o horário de funcionamento até as 21h.

Sobre a falta de médicos, a unidade informou que a contratação dos aprovados no último concurso deve dobrar a oferta de tratamento.

A respeito da paciente Edna Bortolli, a FCecon informou que ela passou por consulta e quimioterapia no dia 5 de maio e que não havia registro de falta de medicamentos. O mesmo aconteceu no dia 14 de abril, antes da liminar, quando, segundo a FCecon, a medicação Oxaliplatina não estava em falta. O remédio ainda está no estoque da unidade.

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