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Padre e freiras afirmam que jovens do alto rio Negro estão vulneráveis ao tráfico humano

Religiosos que atuam nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, no interior do Amazonas, fazem denúncia de alerta a favor dos jovens abordados por aliciadores  22/09/2014 às 10:26
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Bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Damian, denuncia que os aliciadores se prevalecem da vulnerabilidade dos jovens e crianças
Acyane do Valle ---

Os jovens da região do Alto Rio Negro estão vulneráveis ao tráfico humano e sendo abordados por aliciadores, segundo denúncias obtidas por padres e freiras que atuam nos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, no interior do Amazonas.

Não existem estatísticas oficiais sobre esse tipo de crime naquela região, somente os relatos feitos por pessoas amedrontadas e pelas próprias crianças e adolescentes que, sem ter conhecimento, não têm ideia de que foram abordadas por aliciadores. Também por conta da imposição do silêncio entre as vítimas, o que chega até a igreja é apenas “a ponta do iceberg” de algo muito maior que se imagina, segundo o bispo da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, Dom Edson Damian.

O município, a 851 quilômetros de Manaus, está localizado na divisa com a Colômbia e Venezuela, na região conhecida como “Cabeça do Cachorro”, e 90% da população são indígenas (23 etnias diferentes). No último dia 11, a Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos (Sejus) e a Prefeitura do Município inauguraram o Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante, que tem o objetivo principal de enfrentar o tráfico humano. “É uma tarefa difícil porque esse tráfico é silencioso e invisível, mas a vulnerabilidade dos jovens e crianças daquela região é imensa”, disse o bispo.

Um dos maiores problemas na região é que, apesar deles conseguirem concluir os estudos, não há oportunidade de emprego. “E se tornam presas fáceis de pessoas que vão lá, oferecendo trabalho, bons salários, e no final, desaparecem”, contou Dom Edson, que responde por uma Diocese com 293 mil quilômetros quadrados, compreendendo três municípios – Barcelos, Santa Isabel do Rio Negro e São Gabriel da Cachoeira. “Visitamos as aldeias, percorremos a bacia do rio Negro e temos tido esses relatos”, acrescentou.

Segundo o religioso, muitos adolescentes indígenas saem das aldeias e seguem para as cidades, ficando em casa de parentes ou repúblicas. Com o passar do tempo, acabam perdendo os vínculos familiares e também são vítimas fáceis dos aliciadores. Estes, de acordo com Dom Edson, produzem medo e impõem o silêncio entre suas vítimas para que elas não prestem informações. “É uma coisa tão bem tramada que o que chega até a igreja é apenas a ponta do iceberg de algo muito maior que se imagina. E muitas vezes, quando o aliciado consegue sair, fica tão envergonhado e deprimido que não tem coragem de contar para os outros, além de receber tantas ameaças que fica calado”, explicou. A maioria dos aliciadores seria brasileiro.

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