Domingo, 22 de Setembro de 2019
Notícias

Palavrão na sala de aula: literatura ‘realista’ incomoda

Mãe protesta contra trabalho de literatura que tinha por base um texto de autor amazônico no qual havia um palavrão



1.jpg Texto do livro Coletânea de Contos Amazônicos gerou um caso de intolerância religiosa em escola, conta Edson Melo
03/03/2013 às 15:15

A reclamação de uma mãe contra o uso de um texto da literatura amazonense por conter um palavrão, na aula da Escola Estadual Ondina de Paula, no bairro do Japiim, Zona Centro-Sul, é um sinalizador para se debater o preconceito. A afirmativa é do gerente do Ensino Médio da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), professor Edson Melo, ao explicar não ser possível apagar textos da literatura por conta de dogmas. “Os professores incentivam os alunos a lerem livros que retratem a realidade”, justificou.

Mesmo sem ter recebido qualquer queixa a respeito do assunto, que acabou comentado apenas entre os estudantes, o gerente assegurou ser necessário falar para não deixar que situações como essas virem rotina. Edson disse ter analisado o texto usado pelo professor e nele não viu nada de inconveniente para ser trabalhado em sala de aula. Segundo ele, o texto conta a história de uma pessoa que veio procurar emprego na Zona Franca de Manaus e, por não ter estudos, não conseguiu e sofreu as mazelas da vida. O uso de palavrões estava contextualizado e isso é comum na literatura brasileira, onde se encontra várias situações nas quais que se usa termos da classe, disse o gerente da Seduc.

O texto faz comparativos não só da literatura amazonense, mas da brasileira, dos problemas enfrentados pelas pessoas sem educação e conhecimentos técnicos que vão procurar emprego nos grandes centros, afirmou Edson, ao elogiar a iniciativa do professor em usar um texto literário retratando uma situação real da cidade, mostrando que sem estudos meninos acabam indo para a marginalidade e as meninas para a prostituição.

Ao destacar que o texto não fez apologia ao palavrão, Edson Melo disse ter se incomodado com a questão de preconceito e da falta de conhecimento de causa de quem reclamou. “Essa mãe deveria ter ido à escola dialogar”, orienta ele, afirmando que críticas sem fundamentos como essa podem prejudicar o trabalho dos professores e é um comportamento que não pode virar rotina.

Na Escola João Bosco, o debate sobre o preconceito manifestado pelos alunos evangélicos ficou esvaziado com o final do ano letivo, mas esse tipo de ocorrência não pode desestimular os professores a usarem textos mais ricos e polêmicos até para enriquecer as aulas. “Queremos conversar com os pais para evitar estimular o preconceito à literatura amazonense”, disse Edson, ao finalizar lembrando que, como para quem não tem caminho qualquer caminho serve, o da educação amazonense é de estimular o conhecimento com o estímulo à leitura, especialmente aquela que retrata a vida cotidiana.

Muito barulho..., diz Tenório
“Se formos levar em consideração esses comportamentos intolerantes e preconceituosos, um dos livros que precisam ser retirados das escolas é a Bíblia sagrada, porque em vários textos do Antigo Testamento, são relatadas cenas de violência, guerras, estupros e traições”, afirmou o escritor Tenório Telles, que entende esse problema como fruto da ignorância com desdobramento para a intolerância e o preconceito.

“Isso acontece pelo fato das pessoas não entenderem que literatura é uma arte que expressa a vida, em toda sua dureza e complexidade”, disse ele, afirmando que por isso é natural um escritor que está retratando uma cena de personagem que lidam com situações extremas da vida, buscando retratar o modo de ser de pensar e falar, use o palavrão. O escritor, segundo Tenório, busca ser o mais verossímil possível na sua arte, sem intenção de ofender nem de agredir seus leitores e que de modo algum justifica essas atitudes fundamentalistas.

Contradições
Ao lembrar que os jovens estudantes têm de ser preparados para lidar com as contradições e desafios da vida e que o Estado brasileiro é laico, assegurando a todos o direito inalienável da liberdade de expressão, o escritor aponta que a escola e os professores têm um papel fundamental nesse aspecto. “Tanto os professores quanto os pedagogos devem fazer um trabalho de conscientização dos pais, dos alunos, da sociedade civil para se esclarecer esses equívocos”, afirma, assegurando que a escola não deve ceder diante desses ataques obscurantistas pelo compromisso com a formação de um cidadão livre e consciente de seus direitos e deveres. Esses jovens têm que ser capazes de conviver com a complexidade do nosso mundo, afirma ele, lembrando que os chamados ‘palavrões’ na verdade são vocábulos que fazem parte da nossa língua e que as pessoas de modo geral fazem uso deles no seu cotidiano.

Tanto isso é verdade, segundo Tenório, que recentemente o pastor Silas Malafaia, ao rebater a informação da revista Forbes de que seria um dos homens mais ricos do Brasil, reagiu de maneira pouco convencional dizendo: “eles vão se ferrar” (com o sentido claro de que eles vão se f....). Para finalizar, o escritor cita a frase do célebre dramaturgo inglês William Shakespeare, quando disse “é muito barulho por nada”.

Os grandes seriam “reprovados”
Carlos Drumond de Andrade, considerado por muitos o maior poeta da lingua portuguesa tinha obras eróticas. Em 1992, por exemplo, veio à luz o livro “Amor Natural” com poesias eróticas/pornográficas do grande autor mineiro. Jorge Amado, outro dos grandes autores brasileiros, ao “cantar” a Bahia não deixa de usar a linguagem chula e de baixo calão dos personagens retratados.

 


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.