Quinta-feira, 02 de Abril de 2020
ENTREVISTA

Papa está equivocado sobre a Amazônia, diz diretor da Associação PanAmazônia

Diretor da Associação PanAmazônia defende a exploração dos recursos minerais da região amazônica, inclusive em terras indígenas. Apoiador do presidente Bolsonaro, ele afirma que o Papa Francisco tem agenda de esquerda.



belisario_arce_A16CCBD4-67E9-4CC9-980A-CB4BEBB01C8B.jpg Belisário Arce: 'Todo desenvolvimento causa impacto. Não tem jeito. O que se tem que fazer é reduzir os impactos' Foto: Junio Mattos
02/03/2020 às 10:15

O diretor executivo da associação PanAmazônia, Belisário Arce, defende que a exploração das riquezas regionais, como o minério e a agroindústria, é o meio mais rápido para fomentar o desenvolvimento socioeconômico da Amazônia. De acordo com ele, a legislação ambiental brasileira “engessa” a economia regional. Por conta disso, afirma que apoia a agenda econômica liberal do governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

Durante entrevista na sede da PanAmazônia, no bairro Flores, Zona Centro-sul de Manaus, o diretor executivo falou sobre as perspectivas econômicas da região e se posicionou contrário aos pronunciamentos do Papa Francisco e da Igreja Católica sobre a Amazônia. Além disso, ressaltou que a renovação da classe política em 2018 foi positiva e que a criação do novo partido de Bolsonaro, Aliança Pelo Brasil, não tem utilidade na mudança do cenário político do País. Acompanhe a entrevista:



 

Com relação às leis ambientais, até que ponto elas contribuem ou atrapalham o desenvolvimento sócio econômico da região?

Hoje, as leis que regem as questões ambientais da Amazônia são as mesmas que regem as questões ambientais no sul do país, por exemplo. Não há distinção. E são os mesmos princípios que são aplicados nas legislações dos países industrializados. Isso já mostra como essas legislações estão equivocadas. Porque a lei deveria se adequar à realidade que se vive. Em torno de 95% da cobertura vegetal do Estado do Amazonas é original, não foi tocada. Então é um exagero exigir da sociedade amazônica que atinja um nível de desenvolvimento socioeconômico sem utilizar seus recursos. Então são esses exageros da lei que têm de ser avaliados. O “agrobusiness” tem uma frente muito forte no Congresso Nacional. Muitos parlamentares, tanto senadores quanto deputados federais, estão vinculados ao “agrobusiness”, então sempre houve uma pressão muito grande no Congresso para tentar mudar a legislação, mas é difícil.

 

Como o senhor avalia o recente apoio do governo federal à exploração de minério em terras indígenas, tendo em vista os impactos ambientais apontados por pesquisadores?

Todo o desenvolvimento causa impacto. Não tem jeito. O que se tem que fazer é reduzir os impactos. O que acontece é que a Amazônia, com os seus mais de 7 milhões de quilômetros quadrados, não é o jardim da humanidade. O presidente da PanAmazônia, José Fernando Júnior, vive no Pará, porque também é presidente do Sindicato das Indústrias Minerais do Estado do Pará (Simineral). E no Estado do Pará, percebo que a mineração causa pouco dano. As áreas que são mineradas depois são reflorestadas. Imagina o Estado do Pará sem a mineração que responde a 80% da riqueza do Estado? Do que aquelas pessoas iriam viver se, com isso, já temos tanta miséria?

 

E o Amazonas?

No caso do Amazonas, nós temos um projeto de exploração de potássio, que fica em uma mina, na divisa dos municípios de Autazes e Nova Olinda do Norte. O investimento, que é de R$ 20 bilhões, iria gerar milhares de empregos. Mas não se explora por questões ambientais e de terra indígena. Os danos ambientais têm, por obrigação, de serem minimizados ao máximo. Inclusive, podem ser revertidos, no caso do reflorestamento. Obviamente que, talvez, a mineração afete alguns rios, mude o PH, mate alguns peixes. Mas dentro da dimensão da Amazônia, que é uma região continental, uma pequena área ser afetada por uma mina, gerando tanto benefício econômico para as populações, isso é que, nós como sociedade temos que equilibrar.

 

O surgimento de figuras mais ligadas à direita na política simboliza avanços na economia da Amazônia?

Acredito que essa renovação política foi positiva. O regime militar deu muita atenção para a Amazônia, mas foi uma atenção que nem sempre foi correta. Hoje os militares são outros. Os militares daquela época tinham uma tendência mais autoritária. Então os projetos que foram implementados na Amazônia vieram de cima para baixo. Hoje a situação é diferente. Depois que retornou a democracia, presidentes como o Sarney (MDB) demonstraram simpatia pela região. O Fernando Henrique (PSDB) criou a secretaria da Amazônia e o Centro de Biotecnologia da Amazônia que se tornou esse “elefante branco”. O Lula (PT) vivia dizendo que era amigo da Amazônia, vivia de braços dados com os governadores da região. Tivemos um Ministro do Transporte, que é da Amazônia, Alfredo Nascimento (PL). Mas nada foi feito de concreto. No dia 14, o presidente Bolsonaro estava em Miritituba (PA), inaugurando o trecho asfaltado da BR-163. Acredito que o governo Bolsonaro não teve nada de concreto, com exceção da infraestrutura, mas pelo menos tem prometido que vai liberar a região desse engessamento produtivo.

 

O Conselho da Amazônia erra ou acerta ao excluir os governadores?

O presidente Bolsonaro afirmou que era prerrogativa do vice-presidente convidar a sociedade civil para participar do Conselho. Eu fico dividido. Pois eu acho que nós que vivemos na Amazônia é que temos que tomar as decisões. Eu acho muito ruim um gaúcho ou um cearense falar o que a gente tem que fazer na Amazônia, pois nós não fazemos isso (com eles). Aliás, nunca somos ouvidos e isso tem que mudar. Então eu não gosto dessa ideia de excluir os governadores da Amazônia no processo. Por outro lado, entendo que os governadores fazem muita politicagem e colocam os interesses partidários acima dos interesses da Amazônia. Não sei até que ponto os governadores iriam atrapalhar ou contribuir para o Conselho, pois há governadores que fazem oposição ao governo Bolsonaro. Mas o conselho deveria envolver pessoas da Amazônia.

 

A sua proximidade com o senador Jefferson Peres aconteceu em outro momento político. Como o senhor avalia o cenário atual?

No final da vida dele, o senador disse à imprensa que ia sair da política, e logo depois faleceu. Antes disso, perguntei para ele: “O senhor vai sair mesmo? Porque todo o político diz isso, senador, e acaba não saindo”. E Jefferson Peres me respondeu dizendo: “Eu vou sair porque não consigo mudar nada”. Então eu acho que ele se sentia realmente frustrado. E eu via que lá no Congresso ele era muito isolado, apesar de toda ética e da estatura intelectual. Às vezes eu andava com ele, da chapelaria ao gabinete dele, passavam os senadores e faziam de conta que não o viam, só para não cumprimentá-lo. Para haver mudança política é necessário haver um novo sistema político.

 

Há algum parlamentar que se enquadre nesse perfil de ética e honestidade no qual o senhor enquadra Peres?

Pode ter, mas não conheço. Embora haja os militares que estão entorno do governo. Mas não são políticos. São assessores.

 

Em relação ao Sínodo da Amazônia, qual o seu pensamento?

Participei da primeira reunião da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), em 2015. Foi da Repam que surgiu a ideia de criar o Sínodo da Amazônia. Nessa primeira reunião, conversei com o Cardeal Cláudio Humes e disse para ele os meus pontos de vista. Ele foi totalmente refratário. Não quis nem ouvir e disse: “Não! Vocês empresários querem destruir a Amazônia”. Então nós fizemos uma carta e mandamos para o Papa Francisco com os nossos pontos de vista. Mas teve uma repercussão muito negativa entre eles, que não aceitam uma opinião contrária e acham que sabem o que é bom para a Amazônia. Eles agem como os militares da década de 70. Acho que o Papa nunca nem pisou na Amazônia.

 

O senhor concorda com os posicionamentos do Papa Francisco sobre o mundo e a região?

Em abril deste ano eu estive em Madrid. Lá eu encontrei com o Antonio Ledezma, que era prefeito de Caracas e foi preso por Hugo Chávez. Ele conseguiu fugir da prisão, escapou para a Colômbia e da Colômbia foi para Madrid. Ele me disse que o grupo dele tentou inúmeras vezes uma audiência com o Papa e reiteradas vezes o Vaticano negou. Porque é um grupo de oposição ao Chávez. O Papa tem uma agenda política de esquerda. Infelizmente. No caso da Amazônia, eu acho que o Papa está equivocado. Sou católico, estudei em colégio de padres. Tinha uma relação muito boa com a igreja, mas vejo com tristeza o que está acontecendo com a igreja. Porque o Papa está usando as esquerdas, os divorciados e as pessoas com opções sexuais diferentes. O pessoal da área ambiental e aqueles que têm uma agenda de esquerda, estão usando o Papa e ele está usando esses movimentos. Não vai sair nada bom daí. A igreja sai enfraquecida e ele perde autoridade. Antes tínhamos veneração pelo Papa, hoje você abre as redes sociais e vê um monte de xingamentos contra o Papa.


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