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Para o New York Times, tráfico de cocaína e facções como a FDN estão destruindo Manaus

Matéria publicada por um dos mais respeitados veículos do planeta mostra como Manaus serve como a principal rota do narcotráfico na região amazônica, numa rede que chega até a Europa. Dados e depoimentos reforçam o texto, como o do badalado escritor amazonense Milton Hatoum: "Manaus foi substituída por uma cidade com favelas tão mortais que tenho medo de sequer colocar meus pés lá" 11/12/2014 às 19:46
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Matéria foi publicada pelo chefe da sucursal no Brasil, nas versões impressa e digital do jornal diário
Victor Affonso Manaus (AM)

Um dos mais prestigiados jornais do mundo, o norte-americano New York Times voltou a falar de Manaus nesta quinta-feira (11), tanto em sua versão impressa quanto online, mas desta vez sobre como o narcotráfico está transformando a maior cidade da Amazônia. Em foco, estão as ações da facção criminosa Família do Norte (FDN) e como drogas como cocaína e oxi, principalmente, estão devastando Manaus e inflamando a violência na região.

Com o título "Tráfico de drogas transforma uma cidade na Amazônia" (em tradução livre), o jornalista Simon Romero, que desde 2011 chefia a sucursal do jornal diário no Brasil, com base em São Paulo, dá início à reportagem lembrando de quando três integrantes da FDN foram presos transportando dois corpos num veículo em  Manaus, no último dia 9 de novembro. Na ocasião, uma das vítimas tinha a sigla "FDN" riscada à faca nas costas, o que traduz a audácia e violência do grupo.

Com base em matérias produzidas por veículos regionais - o Portal A Crítica foi o mais linkado dentro do texto em inglês, inclusive - e entrevistas locais, Romero explica como a capital amazonense serve como rota para o tráfico de drogas internacional, passando desde cidades fronteiriças como Tabatinga, no extremo Oeste do Estado, até o Atlântico, seguindo de lá para a Europa. Entrevistas com delegados, investigadores, ex-viciado e até mesmo um dos maiores nomes da literatura amazonense dão o tom dramático ao texto.

Milton Hatoum sente vergonha

O manauara Milton Hatoum, de 62 anos, que já ganhou dois Prêmios Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, com romances ambientados no Amazonas, disse ao jornalista americano que fica chocado quase toda vez que volta a Manaus. "Aquela Manaus (onde cresci) foi sistematicamente destruída, substituída por uma cidade com favelas tão mortais que tenho medo de sequer colocar meus pés lá", admitiu, conforme consta na reportagem.

Para o titular da Delegacia Especializada em Proteção e Repressão a Entorpecentes (Depre), delegado George Gomes, "algumas partes de Manaus agora lembram uma zona de conflito". "Para cada traficante que capturamos, outro toma o seu lugar. Nossos adversários têm mostrado uma capacidade impressionante de evoluir e prosperar", revela ao New York Times.

Enquanto Débora Mafra, uma investigadora da Polícia Civil, afirma no texto que a maioria dos homicídios em Manaus estão ligados ao narcotráfico, o taxista Francisco Edinaldo da Silva Pereira, ex-viciado em drogas, conta que é fácil encontrar substâncias ilegais pela cidade. "Hoje em dia você entra num bar, começa a beber e quando menos espera você encontra alguém no bar que vende. É assim em todos os bairros", acrescenta Francisco. 

Rota amazônica

Simon Romero remonta, na sua matéria, todo o contexto do narcotráfico no País: o Brasil, segundo maior consumidor de cocaína no mundo (atrás apenas dos Estados Unidos), ganha, com a região amazônica, uma boa rota para contrabandear os produtos ilegais do Peru, Colômbia e Bolívia. As "cidades da floresta", que contam com 25 milhões de habitantes na Amazônia brasileira, são responsáveis por abastecer o mercado nacional, e Manaus, polo de transporte da região, tenta se recuperar dos longos embates entre gangues, o que gera assassinatos de policiais e execuções macabras, que incluem até decapitações.

A relação de criminosos presos com as facções vigentes nas ruas também é revelada pelo jornalista. Ele deixa claro que muitas vezes o comando do tráfico de cocaína acontece de dentro de presídios, replicando estruturas sofisticadas do crime com raízes em cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro. "Em Manaus, Família do Norte tem grande influência sobre as favelas da cidade, mesmo com os principais líderes da facção atrás das grades". Culpa disso, segundo a reportagem, é das "supervisões frouxas" que acontecem nos locais.

Disputa entre FDN e PCC destrinchada

"Abrindo um sangrente novo capítulo no comércio de cocaína na Amazônia", a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Manaus também é preocupante, continua a matéria. Romero escreve que a facção, que em 2006 criou um caos na capital paulista, resultando em 200 mortos, agora batalha com a FDN em várias partes da cidade  pelo controle do tráfico, o que contribui para a estatística que mostra que em 2012 foram cometidos pouco mais de 50 assassinatos para cada 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional.

"A segurança desgastante contribui para uma sensação distópica em algumas áreas, com luxuosas novas torres residenciais e um estádio de futebol futurista da Copa do Mundo perto de canais (igarapés) fedendo a esgoto e assentamentos precários, depenado de árvores", escreve o jornalista, que acredita que esta cena reflete as precárias condições de moradia na maior parte da cidade. Para provar, ele apresenta dados: Manaus é a última colocada no ranking das 16 maiores cidades brasileiras no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas.

Romero escreve que pedras de crack e oxi podem ser encontradas por meros US$ 2 em esquinas de Manaus e são geralmente usadas abertamente pelas ruas, "em plena luz do dia". "Se pertencem à facções ou operam por conta própria, traficantes precisam aumentar a quantidade de seus produtos para atender a demanda", diz o texto. 

Com 19 novos postos nas fronteiras instalados pela Polícia Federal recentemente, o tráfico continua dominando Manaus e outras cidades brasileiras. Romero acredita que uma das razões para isso é a corrupção que aflora constantemente em instituições. A prisão de um policial civil com mais de 300 quilos de drogas na capital amazonense, em abril deste ano, exemplifica a suposição.

Uma viderreportagem de quase 5 minutos e meio acompanha o texto na página digital, mostrando uma ação do Grupo Força Especial de Resgate e Assalto (FERA) na periferia manauara e é o foco final da reportagem: "Em meio à miséria de uma casa fedendo a fezes, policiais questionaram moradores sobre o paradeiro de um homem suspeito de ser traficante. Ele tinha ido embora, e os oficiais quietamente saíram da favela. 'Isso não nos surpreende, já que traficantes tem informantes em todos os lugares', diz um policial. 'Olhe para este lugar. Não é o nosso território, é o deles'".

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