Domingo, 17 de Novembro de 2019
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Para o New York Times, tráfico de cocaína e facções como a FDN estão destruindo Manaus

Matéria publicada por um dos mais respeitados veículos do planeta mostra como Manaus serve como a principal rota do narcotráfico na região amazônica, numa rede que chega até a Europa. Dados e depoimentos reforçam o texto, como o do badalado escritor amazonense Milton Hatoum: "Manaus foi substituída por uma cidade com favelas tão mortais que tenho medo de sequer colocar meus pés lá"



1.jpg Matéria foi publicada pelo chefe da sucursal no Brasil, nas versões impressa e digital do jornal diário
11/12/2014 às 19:46

Um dos mais prestigiados jornais do mundo, o norte-americano New York Times voltou a falar de Manaus nesta quinta-feira (11), tanto em sua versão impressa quanto online, mas desta vez sobre como o narcotráfico está transformando a maior cidade da Amazônia. Em foco, estão as ações da facção criminosa Família do Norte (FDN) e como drogas como cocaína e oxi, principalmente, estão devastando Manaus e inflamando a violência na região.

Com o título "Tráfico de drogas transforma uma cidade na Amazônia" (em tradução livre), o jornalista Simon Romero, que desde 2011 chefia a sucursal do jornal diário no Brasil, com base em São Paulo, dá início à reportagem lembrando de quando três integrantes da FDN foram presos transportando dois corpos num veículo em  Manaus, no último dia 9 de novembro. Na ocasião, uma das vítimas tinha a sigla "FDN" riscada à faca nas costas, o que traduz a audácia e violência do grupo.



Com base em matérias produzidas por veículos regionais - o Portal A Crítica foi o mais linkado dentro do texto em inglês, inclusive - e entrevistas locais, Romero explica como a capital amazonense serve como rota para o tráfico de drogas internacional, passando desde cidades fronteiriças como Tabatinga, no extremo Oeste do Estado, até o Atlântico, seguindo de lá para a Europa. Entrevistas com delegados, investigadores, ex-viciado e até mesmo um dos maiores nomes da literatura amazonense dão o tom dramático ao texto.

Milton Hatoum sente vergonha

O manauara Milton Hatoum, de 62 anos, que já ganhou dois Prêmios Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, com romances ambientados no Amazonas, disse ao jornalista americano que fica chocado quase toda vez que volta a Manaus. "Aquela Manaus (onde cresci) foi sistematicamente destruída, substituída por uma cidade com favelas tão mortais que tenho medo de sequer colocar meus pés lá", admitiu, conforme consta na reportagem.

Para o titular da Delegacia Especializada em Proteção e Repressão a Entorpecentes (Depre), delegado George Gomes, "algumas partes de Manaus agora lembram uma zona de conflito". "Para cada traficante que capturamos, outro toma o seu lugar. Nossos adversários têm mostrado uma capacidade impressionante de evoluir e prosperar", revela ao New York Times.

Enquanto Débora Mafra, uma investigadora da Polícia Civil, afirma no texto que a maioria dos homicídios em Manaus estão ligados ao narcotráfico, o taxista Francisco Edinaldo da Silva Pereira, ex-viciado em drogas, conta que é fácil encontrar substâncias ilegais pela cidade. "Hoje em dia você entra num bar, começa a beber e quando menos espera você encontra alguém no bar que vende. É assim em todos os bairros", acrescenta Francisco. 

Rota amazônica

Simon Romero remonta, na sua matéria, todo o contexto do narcotráfico no País: o Brasil, segundo maior consumidor de cocaína no mundo (atrás apenas dos Estados Unidos), ganha, com a região amazônica, uma boa rota para contrabandear os produtos ilegais do Peru, Colômbia e Bolívia. As "cidades da floresta", que contam com 25 milhões de habitantes na Amazônia brasileira, são responsáveis por abastecer o mercado nacional, e Manaus, polo de transporte da região, tenta se recuperar dos longos embates entre gangues, o que gera assassinatos de policiais e execuções macabras, que incluem até decapitações.

A relação de criminosos presos com as facções vigentes nas ruas também é revelada pelo jornalista. Ele deixa claro que muitas vezes o comando do tráfico de cocaína acontece de dentro de presídios, replicando estruturas sofisticadas do crime com raízes em cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro. "Em Manaus, Família do Norte tem grande influência sobre as favelas da cidade, mesmo com os principais líderes da facção atrás das grades". Culpa disso, segundo a reportagem, é das "supervisões frouxas" que acontecem nos locais.

Disputa entre FDN e PCC destrinchada

"Abrindo um sangrente novo capítulo no comércio de cocaína na Amazônia", a presença do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Manaus também é preocupante, continua a matéria. Romero escreve que a facção, que em 2006 criou um caos na capital paulista, resultando em 200 mortos, agora batalha com a FDN em várias partes da cidade  pelo controle do tráfico, o que contribui para a estatística que mostra que em 2012 foram cometidos pouco mais de 50 assassinatos para cada 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional.

"A segurança desgastante contribui para uma sensação distópica em algumas áreas, com luxuosas novas torres residenciais e um estádio de futebol futurista da Copa do Mundo perto de canais (igarapés) fedendo a esgoto e assentamentos precários, depenado de árvores", escreve o jornalista, que acredita que esta cena reflete as precárias condições de moradia na maior parte da cidade. Para provar, ele apresenta dados: Manaus é a última colocada no ranking das 16 maiores cidades brasileiras no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas.

Romero escreve que pedras de crack e oxi podem ser encontradas por meros US$ 2 em esquinas de Manaus e são geralmente usadas abertamente pelas ruas, "em plena luz do dia". "Se pertencem à facções ou operam por conta própria, traficantes precisam aumentar a quantidade de seus produtos para atender a demanda", diz o texto. 

Com 19 novos postos nas fronteiras instalados pela Polícia Federal recentemente, o tráfico continua dominando Manaus e outras cidades brasileiras. Romero acredita que uma das razões para isso é a corrupção que aflora constantemente em instituições. A prisão de um policial civil com mais de 300 quilos de drogas na capital amazonense, em abril deste ano, exemplifica a suposição.

Uma viderreportagem de quase 5 minutos e meio acompanha o texto na página digital, mostrando uma ação do Grupo Força Especial de Resgate e Assalto (FERA) na periferia manauara e é o foco final da reportagem: "Em meio à miséria de uma casa fedendo a fezes, policiais questionaram moradores sobre o paradeiro de um homem suspeito de ser traficante. Ele tinha ido embora, e os oficiais quietamente saíram da favela. 'Isso não nos surpreende, já que traficantes tem informantes em todos os lugares', diz um policial. 'Olhe para este lugar. Não é o nosso território, é o deles'".


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