Sexta-feira, 19 de Abril de 2019
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Peemedebismo é sintoma de grave anormalidade na política do Brasil, afirma estudioso

Para o professor Aloysio Nogueira, de Collor a Dilma, quem governa o Brasil é o PMDB de Renan Calheiros e Eduardo Cunha


02/04/2015 às 20:44

Há 30 anos, em 15 de novembro de 1985, o professor Aloysio Nogueira, disputava pelo Partido dos Trabalhadores (PT) a Prefeitura de Manaus, nas primeiras eleições municipais diretas nas capitais, pós-ditadura. Recebeu aproximadamente 20 mil votos. "Um feito", considera o educador ao citar que o número de eleitores era um pouco mais de cem mil. Manoel Ribeiro (PMDB), vice-governador de Gilberto Mestrinho, em 1982, foi quem  ganhou a disputa, tendo como vice, Aristide Queiroz.

Em todo o Brasil, 18 milhões de eleitores estavam habilitados a votar em candidatos a prefeitos de 201 municípios. O PMDB abocanhou 127 prefeituras das quais 19 eram de capitais. Hoje, o peemedebismo é visto pelo historiador Aloysio Nogueira, 72, como sintoma de uma grave anormalidade que persegue o Brasil.

"De Fernando Henrique Cardoso, passando por Lula e com Dilma, quem  governa o País é o PMDB", afirma o estudioso e professor da  Universidade Federal do Amazonas (Ufam) classificando o peemedebismo como predominância de uma ação política conservadora de um partido. Nogueira é o terceiro entrevistado da série Democracia e Amazônia.

Os presidentes do Senado, Renan Calheiros (AL), e da Câmara dos Deputado, Eduardo Cunha (RJ), são representações parciais dessa prática "porque está ali o Michel Temer e tantos outros". "Eles  encarnam a política do toma-lá-da-cá que se mantém muito forte. O partido não tem projeto para o Brasil, aliás nunca teve. Qual é o projeto do PMDB para o Brasil? Nenhum. Por exemplo, essa questão da redução da maioridade penal mostra como essa gente atua. Os argumentos que apresentaram (no Congresso Nacional) são os mais indecorosos".

"Agora, eles estão atentos a uma questão cara à sociedade, a da violência, e propõem uma medida que em nada vai resolver. Apenas se apropriam de uma drama da sociedade e deixam de discutir a questão central que é a violência. Eu sinto muito pelos jovens do Brasil, se essa medida passar porque a cadeia no Brasil  já é em si um caso de polícia. Precisamos discutir isso, discutir o militarismo presente na sociedade, e essas não são questões que o PMDB queira discutir".

Aloysio Nogueira cita a perda crescente de espaço de parlamentares que tinham uma postura democrata na relação com  a sociedade. No Senado, quando um Suplicy (Eduardo Suplicy, PT-SP, derrotado nas eleições do ano passado), não está mais presente é uma demonstração de que uma força política que antes tinha um papel importante perde espaço para o peemedebismo no sentido de manietar a sociedade a partir de seus valores inclusive os de ordem ética.

Saiba mais

A Amazônia está sendo destruída e essa destruição também elimina as vozes anteriores que gritavam por ela, adverte o historiador para quem as formas como o capital está tomando conta da região (por meio dos grandes projetos agropecuários, de exploração da madeira, dos minérios) é voraz. Se a sociedade civil não se der conta dessa destruição, a voz dessa sociedade não será ouvida, afirma.

"Me preocupa a grande exclusão que não é só econômica, mas política e é de educação na Amazônia", enfatiza o educador citando a condição do professor do ensino fundamental e médio no Amazonas que é na definição dele algo terrível.

Não desisto de lutar, diz professor

Sobrevivente de dois acidentes vascular cerebral (AVC), Aloysio Nogueira fará 73 anos dentro de dois meses. A voz firme que lá atrás comandou as caminhadas e os discursos de longo alcance tanto na Associação Profissional dos Professores de Manaus (APPM) quanto na versão estadual da organização (a APPAM ), permanece assim como a disposição de lutar pela democracia de fato nessa região.

Passou seis anos lutando para sobreviver e retomou as atividades com brilho nos olhos. O mesmo brilho do passado, quando percorria as ruas da cidade e é possível ser visto ao afirmar: "eu não desisto da luta e da minha utopia. Não desisto porque não combato os problemas simplesmente porque ocorrem diariamente. Eu combato o sistema capitalista, eu combato a forma como esse sistema age nas mais diversas regiões, à maneira como ele coopta as mais diferentes pessoas. Eu vou continuar até que eu tenha que deixar o mundo".

Luta pela democracia

Para Aloysio Nogueira, tratar da democracia no Brasil e na Amazônia remete a uma questão conceitual: “Fala-se de redemocratização no País, particularmente no Amazonas ou na Amazônia. Digo que não se trata de uma redemocratização porque, a rigor, o Brasil nunca foi um País democrático na sua plenitude, até mesmo do ponto de vista liberal. Nesse sentido, o que temos é um processo que vem de longa data que tem como natureza a construção de uma sociedade mais justa que aqui e agora se dá o nome de redemocratização ou de luta pela democratização”, diz o professor.

A sociedade capitalista, acrescenta o professor, na forma que está organizada, jamais será democrática porque suas relações são estritamente de exploração. Portanto, ao se demolir essa exploração capitalista, a sociedade capitalista não existirá. “A luta ou o movimento ou os elementos para constituir uma sociedade mais justa passam por todo esse processo. Por isso, entendo que a chamada redemocratização - processo que ora completa três décadas - é mais uma ênfase em certos processos que não correspondem a uma sociedade efetivamente mais justa.”

A Amazônia, nesse contexto (da redemocratização ou da luta pela democracia) não pode ser desligada do processo que ocorre no Brasil. "Não podemos entender essa região sem o concurso dos elementos históricos desde o momento que espanhóis, franceses e tantos outros estiveram presentes nela e promoveram profundas alterações”.

Avanços e recolhimentos

Situando o processo de redemocratização na Amazônia e no Brasil, o historiador e militante aponta avanços importantes nas lutas da sociedade civil, e coloca a organização dela como um dos elementos fundamentais nessas conquistas. "Essas forças vivas da sociedade foram prejudicadas a partir dos anos 2000 porque elas ficaram no patamar de espera bem diferente do que ocorrera nos anos anteriores, sobretudo na luta contra a ditadura".


Aloysio Nogueira classifica a espera como equivocada e ela acontece  quando determinados setores da sociedade civil conseguiram o aparelho de estado que deveria estimular aquilo que essa sociedade propôs na década de 1980 e parte de 1990. Ao contrário, dificultou. "As organizações se recolheram e esperaram. Hoje, elas estão voltando às ruas. É claro que essa volta está permeada por uma série de outras visões que considero natural, porém implica numa postura vigilante da nossa parte, como é o caso daqueles que pedem a volta da ditadura."

Aloysio Nogueira afirma que nesse recolhimento/retorno das organizações sociais alguns sujeitos dessa história terão que se explicar e cita nesse roll o Partido dos Trabalhadores e parcela significativa de suas elites. Fundador do PT nacional e estadual, o professor está filiado ao Psol e diz que tem uma leitura e críticas sobre as organizações de esquerda no Brasil.

"Aliás, esse é um tema  que temos que ter a coragem de voltar a debater. Tenho propostas nesse sentido, mas há dificuldades para colocá-las inclusive em função de uma determinada visão do marxismo equivocada. Quando grandes intelectuais denunciaram isso, como fez Leandro Konder, na década de 198, ao elaborar um trabalho - "A derrota da dialética" - me tocou profundamente ele identificar que o marxismo não era o marxismo das entranhas de Marx e Engels e sim de deturpações que ocorreram em quase todo o mundo. Precisamos examinar a teoria e a metodologia para essa nova empreitada de combater sobretudo o avanço do capital na Amazônia”, diz o historiador.

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