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Cotidiano
RDS Piagaçu-Purus

Pescadores enfrentam desafios para vender pirarucu e barrar invasores em RDS

O manejo do pescado na reserva de Piagaçu-Purus melhorou a qualidade de vida dos moradores e preservou a floresta, mas novos problemas surgiram 20/11/2016 às 05:00 - Atualizado em 21/11/2016 às 10:00
Luana Carvalho Manaus (AM)

Existem os mergulhadores, largadores de rede, proeiros, arpoadores, negociadores, vigilantes e até os responsáveis pela contagem dos peixes. Cada um tem sua função nos grupos de trabalho do manejo do pirarucu, que na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus é realizado há quase dez anos em três dos sete setores existentes.

Porém, toda organização e trabalho de preservação não dependem só dos esforços dos ribeirinhos. Além das invasões de pescadores clandestinos e falta da presença do Estado para a fiscalização, a dificuldade de negociação para a venda do pescado tem sido uma ameaça ao trabalho desenvolvido.

Há 10 anos o pescador Irailto Basto da Silva, 47, conhecido como Padre, trabalhava desordenadamente. Sem manejo, milhares de peixes morriam nas suas redes de pescas. “Não tinha mais peixe nesses lagos nem para comer”, relembra. Padre foi um dos pioneiros no trabalho consciente, espelhando-se na atividade que acontece na RDS Mamirauá desde 1999.

A reserva de um milhão e oito mil hectares foi criada em 2003 e, como toda e qualquer novidade, gerou resistência por grande parte dos moradores das 57 comunidades que existem na região. Ela é uma das 16 de uso sustentável, de um total de 42 Unidades de Conservação (UC) do Amazonas.

“O trabalho de manejo começou neste setor em 2006 e tivemos que esperar três anos para a primeira despesca. O mais difícil, com certeza, foi sensibilizar os moradores. Ainda temos dificuldades até hoje, tanto que apenas três setores fazem esse trabalho”. Segundo Padre, ainda falta um trabalho contínuo junto às comunidades. “Nós que somos lideranças infelizmente não temos pernas para tudo isso”, frisa.

Padre é um dos líderes da RDS (Foto: Clóvis Miranda)

‘A escassez teve um fim’

Depois do início do trabalho de manejo, houve aumento no estoque natural de peixes na reserva, tanto dos “feras” - peixes de couro como piraíba, surubim, pirarara, caparari -  quanto os de escama, como pirarucu, tambaqui, jaraqui, pirapitinga. A criação da reserva também impulsionou a reprodução de peixes-bois, tartarugas, jabutis,  botos tucuxi e cor-de-rosa, vistos a cada minuto ao longo do rio Purus e seus braços.

“Realmente não é um trabalho fácil. É um esforço do ano inteiro, de vigilância constante, mas tenho orgulho de ser um manejador junto desses outros 72 pais de família do setor Itapuru. Isso representa a economia, o sorriso no rosto de cada um”, comenta Padre.

Preservar compensa

Para os pescadores que começaram a pescar desde crianças, sem a consciência de que, um dia, a fartura poderia acabar, a mudança de pensamento não foi uma tarefa fácil, mas hoje é uma atividade compensadora. 

Exemplo disto é que em 2010 o setor realizou a primeira despesca, com 150 pirarucus. Neste ano, a contagem bateu quase 15 mil pirarucus adultos nos mais de 200 lagos. Sendo que um peixe pode chegar a medir até 2 metros e meio e a pesar mais de 100 quilos.

Para 2016, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou a retirada de 800 animais. Mas, como bons preservadores, a pesca será de apenas 300. “Como a despesca do tambaqui foi boa, resolvemos este ano reduzir o número de pirarucus, pensando no futuro. Mesmo manejando, é importante tirarmos apenas o necessário para a nossa sobrevivência. Não queremos voltar a viver como antes”, finaliza o pescador. 

De ‘vilão’ a guardião da floresta

Morador da comunidade Nossa Senhora do Livramento e comandante do manejo do setor Ayapuá, Rui da Silva Barbosa, 43, se emociona com a diversidade de fauna e flora do rio Purus. Agora a floresta representa muito mais que um meio de ganhar dinheiro a e a exploração tomou um outro rumo desde a criação de reserva. “Eu contrabandeava. Era atravessador de tudo quanto é animal, desde jacarés, que eu vendia para os paraenses, até macaco barrigudo”, relata.

 Rui Barbosa largou a clandestinidade para apostar na preservação (Foto: Clóvis Miranda)

Assim como Rui, a maioria dos pescadores que hoje se empenham no trabalho do manejo também saíram da clandestinidade, embora muitos ainda não tenham se sensibilizado com a causa.

“Nosso maior problema hoje em dia, além dos problemas logísticos, são as invasões. Muitas vezes os invasores são pessoas de outras comunidades que ainda não implantaram o manejo. Eles vem pescar onde tem peixe, porque lá onde eles moram, não tem mais nada”, comentou.

Negociação prejudicada

A cada manejo, os pescadores passam cerca de um mês em campo. Para armazenar todo o pescado, precisam alugar uma embarcação e armazenar toneladas de gelo no barco. Os custos são altos e se não fossem as parcerias de instituições como a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), que colaboram com apetrechos de pesca, balsas flutuantes e combustível para escoamento da produção, quase não haveria lucro.

O charuto (quilo) do pirarurucu foi negociado este ano entre R$ 4 e R$ 6, preço máximo que um dos setores conseguiu, mas tendo que levar o peixe até o comprador, o que gera uma despesa a mais. No final, as despesas são substraídas do valor bruto da venda dos peixes e o lucro é dividido entre os manejadores. No ano passado, cada pescador do setor Itapuru, um dos maiores da reserva, teve uma renda de pouco mais R$ 3 mil no final do manejo.

“Dá trabalho mas compensa. Ao longo do ano trabalhamos com outros peixes então tem como sobreviver. Cada pescador ganha em média com a pesca de outras espécies entre R$ 8 a R$ 10 mil por ano”, explicou José Melo, presidente da Associação de Moradores e Entorno da RDS Piagaçu-Purus (Amepp).

No entanto, Melo acredita que o maior entrave hoje é a concorrência desleal do pescado ilegal e dos peixes de cativeiros. “A gente pesca o peixe da melhor qualidade, o mais saboroso, de ambiente natural. Mas temos dificuldades para negociar um preço bom, porque quando se anda nos supermercados da capital, está cheio de peixes de outros Estados. Também tem outras reservas que fazem o manejo e a oferta acaba sendo muito maior que a demanda ”, explica.

 Presidente da Amepp, José Melo acredita que há muita oferta para pouca demanda (Foto: Clóvis Miranda)

O presidente da comunidade Cuiuanã, Francisco Freitas, 37, também trabalha com manejo de pirarucucu e conta que a importação de pescado de outros Estados também é um entrave. “Hoje em dia temos muito mais oferta do que demanda porque o Estado importa muito peixe de Roraima e Rondônia. Outro problema é que quando você chega nos beiradões da capital, tá cheio de peixe ilegal pra vender e o nosso manejado fica desvalorizado. Os compradores não querem pagar quanto ele vale”.

Segundo ele, a falta de internet e outros recursos tecnológicos também dificultam a negociação. “Nossos representantes precisam nos ouvir e fazer alguma lei que nos permitam exportar o peixe, que facilitem esse processo de negociação. Foram criadas um monte de reservas para melhorar a vida dos ribeirinhos, mas sozinhos não conseguimos ir para muito longe”.

‘Falta pressão por parte do Estado’

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas (Faea), Muni Lourenço, salienta que um fator importante para minimizar a crise nos setores é estipular um preço mínimo para o pirarucu manejado. “Isso tem sido motivo de discussões com o Governo Federal, através do Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente, para que haja essa inclusão. É um trabalho muito bem feito que a cada ano está mais ameaçado porque os manejadores não conseguem vender o produto por um preço justo”.

Ele estima que a medida possa representar uma referência no preço na negociação do peixe e continuar garantindo a renda das famílias envolvidas nas atividades. “Entendemos que precisamos dessa garantia de preço mínimo para o pirarucu de manejo para que essas famílias possam ter uma condição melhor pra negociar com os compradores”, avaliou.

O analista de operações da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Thomaz Silva, conta que há cerca de três anos o órgão vem defendendo a inclusão de pirarucu de manejo na Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio), como já acontece com a castanha, borracha do extrativismo, piaçava, açaí, andiroba, entre outras culturas.

O órgão fez um levantamento de produção e apontou que o quilo do pirarucu deveria custar no mínimo R$ 6,74. “Há todo um sacrifício do pescador em trabalhar com um produto tão nobre, legalmente, preservando e não agredindo o meio ambiente”.

De acordo com o especialista, o quilo já chegou a valer R$ 3 no último ano, o que é considerado um preço “imoral”. “Por falta de pressão do Governo do Estado do Amazonas, até hoje nós não conseguimos incluir o pirarucu no programa. Eles não estão recebendo o valor justo. As entidades e governo estadual precisam se unir para pressionar o governo federal.

*Repórter viajou a convite da FAS

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