Segunda-feira, 29 de Novembro de 2021
Aniversário de Manaus

Peso sobre os ombros: o relato do administrador da Transportes Bertolini que ajudou na distribuição de oxigênio durante a crise

Atuando há 9 anos na Bertolini, Fábio Gobeth conversou com A CRÍTICA e revelou a sua vivência na ajuda com oxigênio durante a pior crise da pandemia, em Manaus



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24/10/2021 às 09:03

O período mais sombrio da pandemia foi um momento de intensa negatividade, mas também uma possibilidade de exercer a cidadania, como foi o caso do assistente da presidência da Transportes Bertolini, Fábio Gobeth. Ele contou ao A CRÍTICA que recebeu ligações de representantes dos governos estadual e municipal durante a crise da falta de oxigênio no Amazonas e se viu forçado a agir em um momento no qual as vidas das pessoas estavam por um fio. 

Gobeth atua na Bertolini há nove anos. Ele conversou com a equipe de reportagem na sala onde trabalha, situada em um dos prédios da empresa, no bairro Santo Agostinho, Zona Oeste da capital. A Bertolini atua no ramo de inúmeros serviços, dentre eles rodoviário, hidroviário, farmacêutico, entre outros. Durante a escassez de oxigênio vivida pelo Amazonas, em janeiro de 2021, representantes do estado contataram a empresa à procura de ajuda para transportar cilindros de oxigênio. Gobeth foi responsável por ficar à frente de algumas negociações. 



“O ambiente da empresa ficou extremamente pesado nesse período, mas senti, no meio de tudo isso, que essa era uma oportunidade para que eu pudesse exercer cidadania. Foi muita pressão. Graças a Deus, tudo acabou”, afirmou. 

 

Filho diabético desafios cotidianos 

 

O administrador é pai de Danilo, uma criança portadora de diabetes do tipo um. Durante o período de maiores restrições sociais, ele foi forçado a ficar em casa, o que o deixou mais cabisbaixo e ansioso. Na tentativa de contornar a situação, Gobeth seguiu os instintos de pai e adotou um cachorro para melhorar os ânimos do filho. Spike, o novo membro da família, ajudou Danilo a não se sentir tão solitário durante o período de isolamento, longe dos amigos e dos professores da escola. Mas o maior desafio de Fábio não foi esse, mas sim o de controlar os níveis de glicemia do filho. 

Fábio e a esposa monitoram as alterações orgânicas de Danilo por meio de aplicativos instalados nos celulares deles. É com os “apps” que o casal pode perceber qualquer alteração no corpo de Danilo. Se os níveis de glicemia atingirem desajuste fora do normal, a criança pode apresentar complicações. Por isso, exercícios são essenciais para manter a saúde do pequeno. 

“Era muito difícil controlar a glicemia dele durante o isolamento. Montamos uma rotina especial para que eu conseguisse praticar exercícios com ele. Conversei com a síndica do condomínio, que liberou um espaço mais isolado, uma quadra que havia sido fechada durante a pandemia e foi aberta para mim. Eu brincava com ele nessa área. Jogava futebol. Ele não é muito fã, mas na pandemia qualquer coisa era diversão”, contou. 

Durante a entrevista com o administrador, realizada na manhã de segunda-feira (11), o alarme de controle de glicemia de Danilo tocou no celular de Gobeth, interrompendo a conversa. Ele aproveitou para mostrar os gráficos de acompanhamento do filho. “Isso ajudou muito a controlar a glicemia dele. Foi muito importante ter feito isso, também, pra sanidade do meu filho”, disse. 

 

Período mais sombrio 

 

Indagado sobre qual foi a memória mais sombria vivida por ele durante a pandemia, Gobeth foi categórico sobre a 2ª grande onda de infecção do novo coronavírus. “Vimos o desespero das pessoas, quando começaram a entender que faltaria oxigênio. A gente tava na linha de frente aqui, porque transportamos as carretas de oxigênio por meio de nossas balsas. Doamos mais de R$ 100 mil só em cilindros de oxigênio, fora todo o apoio logístico. Foram diversas ações; ajudávamos no que podíamos”, disse.

Ele declarou, que, mesmo ajudando no que era possível, sentiu-se frustrado por não conseguir fazer mais pelos que morreram asfixiados. Nenhum parente próximo do administrador faleceu em decorrência do vírus, mas durante a 2ª onda ele teve que encarar, ainda que do escritório, o peso das famílias que perdiam entes queridos todos os dias. 

“A 2ª onda chegou perto de mim. Soube da morte de amigos da época da escola, vizinhos do condomínio onde moro. Vivemos o dia a dia do desespero de tentar arrumar as coisas”.

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Repórter de A Crítica
Jornalista graduado no Centro Universitário do Norte (UniNorte), que busca trazer um pouco de storytelling a todos os aspectos da vida, principalmente aos textos que levam sua assinatura.

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