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Cotidiano
PREOCUPANTE

Pesquisa aponta que crianças abusadas sexualmente têm tendência suicida no AM

O sentimento de culpa é o que permeia nessas crianças. Culpa por não ter conseguido reagir, por terem sido ameaçadas, não terem tido forças suficiente para lutar com o abusador 17/06/2018 às 08:29 - Atualizado em 17/06/2018 às 08:33
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O Amazonas está entre os estados que mais acontecem suicídios de crianças e adolescentes (Foto: Reprodução Internet)
Joana Queiroz Manaus (AM)

O menino Pedro Silva (nome fictício), hoje com 12 anos, deu entrada na emergência de um pronto-socorro de Manaus, no início de 2015, após uma tentativa de suicídio. No hospital foram identificadas inúmeras marcas de cortes em seus braços decorrentes de mutilações, as quais ele escondia por baixo das camisas longas de moletom que usava constantemente.

Após sair do quadro de risco de morte, foi detectada doença venérea no menino e somente depois de uma consulta médica, a situação que o levou a tentar o suicídio foi revelada: Pedro havia sido violentado sexualmente pelo padrasto e pelo tio.

Este caso faz parte de uma triste estatística revelada por estudo realizado pelo grupo de Pesquisa em Ciências da Saúde da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), cujo tema é “Suicídio de crianças e adolescentes que sofreram violência sexual em Manaus: prevenção, intervenção e atendimento em rede”. A iniciativa conta com o apoio da Faculdade Salesiana Dom Bosco (FSDB) e da Cáritas Arquidiocesana.

Dados desta pesquisa foram apresentados recentemente pelo professor e pesquisador da FSDB, padre Joaquim Hudson Ribeiro, no 2º Congresso Brasileiro de Enfrentamento à Violência Sexual, ocorrido em Brasília (DF). Psicólogo de formação, com diversas especializações na área,  Hudson é doutor em Geografia Humana e coordena o Serviço de Atendimento Psicológico Familiar da Arquidiocese de Manaus (SAPFAM) e o Núcleo Luisa Habigzang de Intervenção Psicológica para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.

Conforme Joaquim Hudson, no último levantamento nacional sobre suicídio no País, o Amazonas está entre os estados que mais acontecem suicídios de crianças e adolescentes. Os municípios de  Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira são consideradas áreas endêmicas. “A imprensa só divulga suicídios de jovens e adultos, porém os casos entre crianças, adolescentes e idosos são desconhecidos, mas ocorrem com frequência”, disse o professor.

De acordo com o pesquisador, crianças com pensamentos suicida na maioria das vezes apresentam sintomas que passam despercebidos, mas que merecem a atenção da família da escola e de pessoas que convivem com elas. Elas passam por mutilação, ferindo o próprio corpo cortando braços e punhos,  se arranham, e arrancam os cabelos e passam a ter baixo rendimento escolar.

O sentimento de culpa é o que permeia nessas crianças. Culpa por não ter conseguido reagir, por terem sido ameaçadas, não terem tido forças suficiente para lutar com o abusador, ou ainda por achar ter gostado. Conforme as pesquisas os abusadores são homens, mulheres, padrastos, avós, tios, pais e até mães. Casos incestuosos são frequentes.

Apesar de avanços na área da proteção e dos direitos de crianças e adolescentes, as ações da rede de proteção ainda são insuficientes e carecem de maior apoio do poder público - como suporte técnico e financeiro – e da própria sociedade para enfrentar e superar essa forma de violência.

Acompanhamento

Atualmente, Pedro é assistido pelo SAPFAM. Logo após descobrir a violência, o serviço social do hospital que o atendeu fez a denúncia ao Conselho Tutelar e à Delegacia  de Proteção à Criança e ao Adolescente. Pedro foi afastado do convívio dos acusados, que ainda aguardam julgamento em liberdade.

Falta de políticas

De acordo com Hudson, há um Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes e também um Plano Estadual - ambos frutos de construção coletiva oriunda da sociedade civil organizada em parceria com órgãos públicos -, no entanto, é necessário maior ação de controle social, cobrança da sociedade, coragem de denunciar e políticas públicas mais eficazes e eficientes para  que os construídos possam ser, de fato, viabilizados.

Ele condena a falta de atenção que se é dada no âmbito da saúde mental, no sistema de saúde, para os casos de tentativas de suicídio. De acordo com ele, nenhuma das crianças e adolescentes, atendidas pelo SAPFAM, tentou cometer suicídio novamente, inclusive, as que já tinham passado pela situação antes.

“Isso nos faz concluir que a aplicação dos instrumentos psicológicos nas diferentes etapas da intervenção associada a ações psicoeducativas e psicossociais são eficazes e contribuem para a superação e aprendizado quanto ao lidar com os pensamentos suicidas”, avaliou o pesquisador.

Automutilação é um dos efeitos encontrados

O estudo apresentado pelo padre Joaquim Hudson Ribeiro compreende o recorte de uma pesquisa mais ampla sobre “Violência sexual contra crianças e adolescentes em Manaus”.

Um total de 55 casos de crianças e adolescentes, na faixa etária de oito a 14 anos, dos quais 42 meninas e 13 meninos, foram analisados.Todos são assistidos pelo Serviço de Atendimento Psicológico Familiar da Arquidiocese.

Os resultados encontrados mostram que das 42 meninas, 12 (28,5%) apresentaram ideação suicida, seis (14,2%) tentaram suicídio, uma dentre as quais, mais de uma vez; e ainda, seis meninas (14,3%) apresentaram automutilação, como comportamento de machucar-se ou cortar-se.

Quanto aos meninos, dos 13 casos avaliados, três (23%) apresentaram ideação suicida e automutilação (comportamento de machucar-se ou cortar-se). Os mesmos três meninos tentaram suicídio mais de uma vez, entre os quais, Pedro.

Violência naturalizada

O pesquisador explica que historicamente a Amazônia foi marcada por uma política sexista de ocupação do território e que, aliada à  implantação de modelos econômicos impositivos, a violência sexual contra indígenas e povos que vivem em meio à floresta, assumiu um caráter  “cultural” e  naturalizado, tanto nas relações familiares quanto nas relações de poder e de gênero.

Relação de poder

 “É  preciso entender que violência representa uma relação desigual de poder e que, no caso da  violência sexual contra crianças e adolescentes, trata-se de um fenômeno complexo, muitas vezes, maculado em outras formas de violência, por isso, não podemos aceitar como algo cultural, natural ou o mais grave, normal: é crime”, enfatizou Joaquim Hudson, o qual critica ainda a inércia quanto à responsabilização dos autores da violência sexual, sobretudo quando se trata de casos que envolvem pessoas poderosas da sociedade.

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