Publicidade
Cotidiano
‘O que dizem as crianças’

Pesquisa mostra naturalização da violência entre crianças e adolescentes no Brasil

Apesar de 85% deles relatarem conviver com brigas na escola e 63% sofrerem violência física em casa, 68% dizem se sentir seguros numa percepção geral 28/09/2016 às 05:00
Show violencia crianca marcello casal jr
Os dados são da pesquisa “O que dizem as crianças”, divulgada por organizações (Agência Brasil)
Akemi Nitahara (Agência Brasil) Rio de Janeiro (RJ)

Apesar de 85% das crianças e adolescentes relatarem conviver com brigas na escola e 63% sofrerem violência física em casa quando fazem algo errado, 68% dizem se sentir seguras como uma percepção geral. É o que revela a pesquisa “O que dizem as crianças”, divulgada segunda-feira (26) pelas organizações Visão Mundial e Instituto Igarapé, em evento no Rio de Janeiro.

A pesquisa foi feita entre setembro de 2015 e março de 2016 e ouviu 1.404 crianças e adolescentes entre 8 e 17 anos que participam de projetos da Visão Mundial em 12 cidades: as capitais Fortaleza, Recife e Maceió, e as regiões periféricas de Manacapuru (AM); Governador Dix-sept Rosado e Mossoró (RN); Catolé do Rocha (PB); Canapi e Inhapi (AL); Itinga (MG); e Nova Iguaçu (RJ).

A assessora em proteção da infância da Visão Mundial, Karina Lira, disse que os dados mostram que a violência está naturalizada entre os jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica, já que a percepção da violência nos ambientes em que estão inseridos é grande, mas, ao mesmo tempo, a sensação de segurança também é elevada. A análise vale para ambientes como escola, casa e comunidade onde vivem.

“A gente percebe uma contradição onde a percepção de insegurança dela [da criança] é muito baixa, apesar da sua realidade e seu entorno. Existe um elemento, pelo fato de ser criança e por estar em desenvolvimento, não consegue compreender totalmente essa realidade, principalmente as menores. Mas tem o elemento que a gente chama de normatização da violência: a criança convive tão rotineiramente com situações de violência que passa a entender aquilo como natural, algo normal do seu dia a dia.”

Karina ressaltou que, apesar do avanço na legislação, com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), as garantias de direitos não saíram do papel para uma parcela considerável de jovens. “Isso é muito complicado porque, a partir do momento que a criança e o adolescente – que são um terço da população brasileira – são vulneráveis e não se percebem como vítimas de uma violência, isso se deve a um silêncio em torno do problema e também à impunidade por parte de quem agride”, ponderou.

Levantamento

De acordo com o levantamento, a percepção de insegurança aumenta de acordo com a idade das crianças e jovens e menos de 1% se sente em situação de alta insegurança. Residentes de cidades menores se sentem mais seguros e a casa é o ambiente onde 84% se sentem seguros sempre. Na escola e na comunidade, esse índice cai para 62%.

Sobre os tipos de violência, 86% dos entrevistados entendem que é sempre muito errado ter o corpo tocado sem permissão. Gritar ou xingar e bater nas pessoas foram citados como violência por 82% dos pesquisados, ficar preso no quarto ou em casa por 70%, e ficar em casa sem cuidados por 64%. Além disso, 58% disseram ser errado menores de 14 anos fazerem atividades para ganhar dinheiro; percentual que foi de 28% sobre cuidar dos irmãos mais novos e 19% sobre fazer tarefas domésticas enquanto os pais trabalham.

Do total de crianças e jovens ouvidos na pesquisa, 89% se sentem seguros com a própria família e 40% com a polícia. Sobre bem-estar, 89% se sentem amados e bem tratados pelos pais ou responsáveis e 86% acham que serão felizes quando crescer. Por outro lado, 35% já precisaram recorrer à delegacia ou hospital para ter assistência por ter sofrido algum tipo de violência.

A coordenadora de projetos do Instituto Igarapé, Natalie Hanna, explicou que o levantamento foi feito com o aplicativo Índice de Segurança da Criança (ISC), desenvolvido pela entidade, que pode ser adaptado para os diferentes contextos sociais em que as crianças estejam inseridas. Segundo ela, a pesquisa supre uma lacuna de dados subjetivos sobre a percepção da violência entre crianças.

“Existem dados objetivos, quantas pessoas morrem e tal, mas não há dados subjetivos de como isso afeta o dia a dia dessas crianças e adolescentes. Então foi desenvolvido esse aplicativo com a ajuda de vários especialistas da área de violência contra a criança. É uma pesquisa para tentar capturar a percepção de insegurança ou de segurança das crianças e adolescentes. As perguntas foram feitas com o objetivo de não retraumatizar, no caso dela ter sofrido algum abuso”, explicou.

O aplicativo também permite mapear os resultados de forma interativa e dinâmica, com dados organizados por sexo, idade e local das entrevistas. O objetivo é utilizar os dados para impulsionar políticas públicas na área e fortalecer as redes de proteção previstas na legislação.

Direito de ser ouvido

A defensora pública Eufrásia Maria Souza, coordenadora de defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, destacou que o mais importante da pesquisa foi ouvir os jovens. “Nada melhor para nós, que somos defensores dos direitos da criança e do adolescente, inclusive do direito consagrado de ser ouvido e ter a sua opinião considerada. É muito importante uma pesquisa que tenha como enfoque ouvir o que as crianças estão dizendo acerca das violências que elas sofrem. E são violências de vários tipos, da família, institucional”, listou.

De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), crianças e jovens de até 18 anos são 31,1% da população do Brasil e o país é o segundo do mundo em número de assassinatos de adolescentes, atrás apenas da Nigéria. Por dia, são mortos 28 crianças e adolescentes, a maioria meninos, negros, pobres e moradores de periferias e áreas metropolitanas de grandes cidades.

Sobre violência física e psicológica, o Disque 100, de denúncias de direitos humanos, registra uma média de cinco casos contra crianças e adolescentes por hora, incluindo violência sexual e negligência.

Publicidade
Publicidade