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PF revela esquema planejado por detentos para apoiar juiz da Vep e assegurar privilégios

O queridinho dos chefões: interceptações revelam apoio irrestrito de líderes do tráfico ao juiz Luís Carlos Valois, titular da Vara de Execuções Penais (Vep) 24/11/2015 às 14:00
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“João Branco”, juiz Carlos Valois e “Zé Roberto”
Joana Queiroz Manaus

Interceptações telefônicas feitas pela Polícia Federal (PF) durante as investigações da operação La Muralla - a maior já deflagrada no Amazonas com o objetivo de combater o tráfico de drogas - revelaram um “lobby” que estava sendo planejado pelos presos para manter o juiz da Vara de Execuções Penais (VEP), Luís Carlos Valois, na função.

Diálogos entre o comando da organização José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa”, e o fugitivo da justiça João Pinto Carioca, o “João Branco”, e ainda entre Zé Roberto e a advogada  Lucimar Vidinha Gomes, mostram a estratégia do grupo para assegurar os privilégios dos presos do regime fechado.

Valois aparece como peça fundamental para manter a comodidade dos presos dentro das unidades prisionais. Os diálogos foram conseguidos por meio de intercepção telefônicas logo depois que o regime fechado do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) passou por uma revista comandada pelo secretário de Segurança Pública, Sérgio Fontes, com o apoio do Exército, mas sem a presença do juiz da VEP e do então secretário de Administração Penitenciária do Amazonas, Louismar Bonates.

Repercussão

Em um dos diálogos que Zé Roberto tem com João Branco, ele comemora e demonstra ter ficado satisfeito com o fato de Valois  ter determinado que, a partir dali,  as revistas nas unidades prisionais passarão a acontecer somente com o consentimento dele.

Em outras conversas entre Zé Roberto e Vidinha, a advogada demonstra preocupação com uma provável saída de Valois da VEP. Ela liga para Zé Roberto dizendo que o magistrado está solicitando apoio dos presos para permanecer na função e que, para isso, a FDN deveria se unir. Segundo ela, Bonates queria complicar a vida dos presos. “Tem que unir forças para derrubar esse homem (Bonates) porque o Valois é por vocês” diz a advogada.

Dias depois, a advogada voltou a conversar  com Zé Roberto sobre o pedido de apoio a Valois e os dois discutiram a possibilidade da elaboração de um abaixo assinado entre os presos da capital e do interior para mantê-lo na VEP. Zé Roberto pede à advogada que se certifique de que o abaixo assinado é um pedido pessoal de Valois, para, só então, ordenar a mobilização.

“Só se eu souber mesmo que o Valois precisa mesmo de nós. Aí, se ele (Valois) depende dos presos, nós ajudamos ele”.

Excesso de confiança

As investigações da Polícia Federal revelaram que  os integrantes daFamília do Norte (FDN) mantinham  contato direto com o mundo além dos muros por meio de celulares e administravam seus “negócios”, davam ordens para matar, manipulavam informações e  autoridades do Judiciário supostamente envolvidas no esquema com decisões  judiciais que lhes eram favoráveis.

Segundo relatório ao qual A CRÍTICA teve acesso, foi o excesso de confiança que derrubou a maior facção criminosa do Amazonas, desmantelada pela operação La Muralla, da Polícia Federal. “Tamanha é a confiança na impossibilidade de monitoramento que as conversas interceptadas são diretas, sem qualquer tipo de código”, diz o relatório.

‘Ficou no passado’

Ontem, o ex-secretário da Seap, Louismar Bonates, disse que não quer mais falar sobre o sistema penitenciário. “A partir do dia 1° de outubro eu esqueci o meu passado por lá. Não quero mais falar sobre isso”, disse Bonates.

‘Não sei de nada’

O juiz Luis Carlos Valois, por sua vez, alegou que desconhece o pedido de apoio dos presos para que ele permaneça na VEP. “Eu não sei de nada. Eu falei que ia sair de licença, mas não pedi apoio de ninguém. Uma vez os presos fizeram um abaixo-assinado para eu sair e o tribunal me comunicou, mas, desta vez, não”, disse o magistrado.

Financiamento

Todas as ruas dos bairros onde a FDN comanda o tráfico são mapeadas e monitoradas. A facção criminosa faz uma arrecadação mensal junto aos integrantes, denominada de “caixa”, que arrecada mensalmente uma média de R$ 1 milhão. O dinheiro é usado para pagar advogados e comprar drogas.

Mais de 200 mil ‘associados’

Em diversas passagens interceptadas, Zé Roberto se vangloria do fato de comandar uma facção com mais de 200 mil homens cadastrados e com senhas, detendo o controle de todas as ruas e bairros da capital, além do domínio de todo o Sistema Prisional do Estado do Amazonas.

Foi essa estrutura que permitiu à FDN controlar os presídios amazonenses e, consequentemente, o domínio das principais rotas de tráfico de drogas do mundo, a “Rota Solimões”, alcançando quase que o monopólio da distribuição de drogas no Amazonas.

Diariamente, todos os traficantes presos pelas polícias eram levados para entrevista com as lideranças da FDN. Lá, eram obrigados a revelar todos os detalhes sobre sua forma de operar. Daquele momento em diante, os mesmos eram cientificados do dever de se filiar à FDN e seguir as suas regras, fornecendo o entorpecente exclusivamente para a facção, sob pena de serem sumariamente executados.

A operação La Muralla foi comandada pelo titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Rafael Machado Caldeira, que ontem  informou que ainda há mandados de prisões em aberto. No final da tarde os policiais federais prenderam Edilson Barroso, um dos alvos da operação.

Em números

São 200.000 criminosos “cadastrados”, em todo o Estado, como integrantes da Família do Norte (FDN). Eles receberam uma senha, que possibilita o acesso a informações sobre as decisões tomadas pelo alto comando.

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