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Políticos que construíram suas carreiras na TV são rejeitados pelos amazonenses em 2014

Nas eleições do dia 5 de outubro, políticos que construíram suas carreiras explorando o tema policial na TV não conseguiram votos suficientes para manterem seus mandatos. Para o sociólogo David Spencer, o eleitor cansou dos discursos rasos 19/10/2014 às 11:17
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'Xerifes' da televisão são rejeitados nas urnas
Luciano Falbo ---

O resultado das eleições para o Legislativo no Amazonas este ano mostrou que os candidatos que apresentam programas que exploram a violência na televisão tiveram seus nomes rejeitados nas urnas. É o caso dos irmãos Souza – o deputado federal Carlos Souza e o deputado estadual Fausto Souza, ambos do PSD – que não foram reeleitos, e da família Castelo Branco, da qual nenhum dos três concorrentes alcançou êxito na disputa.

Campeões de votos em eleições anteriores, Carlos Souza e Sabino Castelo Branco (PTB) não conseguiram a reeleição para o terceiro mandato. Quando estrearam na disputa por uma das cadeiras do Amazonas na Câmara dos Deputados, embalados pelo sucesso de seus programas policialescos, em 2006, Carlos e Sabino foram os dois mais votados do pleito, com 147.212 e 138.932 votos, respectivamente.

Wallace Souza (já falecido), também apresentador, repetiu o feito do irmão, Carlos Souza. Foi campeão de votos como deputado estadual nas eleições 2006, com 48.965 votos. Já o sucesso de Sabino Castelo Branco garantiu a eleição de Vera Castelo Branco (PTB), que era sua esposa, para a Assembleia Legislativa (ALE-AM).

Desde então, os políticos conseguiram se reeleger e eleger outros parentes. O clã dos Souza conseguiu eleger Fausto Souza vereador, em 2008, e deputado, em 2010. O clã Castelo Branco emplacou Reizo Castelo Branco na Câmara Municipal de Manaus (CMM), em 2008, e em 2012, como o vereador mais votado, com 18.109 votos. Com a exceção de Vera, os parentes eleitos sempre seguiram os mesmo passos. Tornaram-se apresentadores de programas com a mesma fórmula: a banalização da violência, com “combate à criminalidade”, em programas que dão ênfase à perseguição e à prisão de suspeitos de cometerem delitos, além do apelo ao assistencialismo.

Esse ano, no entanto, a fórmula deu sinal de esgotamento. Vera Castelo Branco e Fausto Souza também não conseguiram reeleição. Reizo Castelo Branco, promessa de uma das maiores votações, teve um desempenho pífio no pleito, figurando na 34ª colocação. Apesar disso, Reizo continua vereador, o único com mandato do clã Castelo Branco.

Outro que tentou repetir o sucesso eleitoral dos Souza e dos Castelo Branco, com uso de programa de televisão policialesco em associação com práticas assistencialistas, é Ronaldo Tabosa (PP). Em sucessivas eleições, ele chegou perto de conquistar um mandato, mas não se consolidou. Tabosa já tentou ser deputado antes. Elegeu-se vereador em 2012, mas teve o diploma cassado.

De mocinhos a vilões da televisão

Os irmãos Souza protagonizaram um dos maiores escândalos policiais do Amazonas. À frente do programa 'Canal Livre', Wallace, Carlos, e depois Fausto Souza, promoviam na TV sua imagem de xerifes contra o crime, com críticas e exposição de criminosos e acompanhamento das operações policiais. Muitas vezes, as equipes do programa chegavam nos locais de homicídios antes das autoridades, quando, literalmente, os corpos ainda ‘fumaçavam’. Em 2008, eles foram acusados de envolvimento com o crime organizado e tráfico de drogas. Inclusive, que crimes eram cometidos para fomentar as matérias que iam ao ar no 'Canal Livre'. O caso teve repercussão internacional. O escândalo levou à cassação de Wallace na Assembleia Legislativa e à renúncia de Carlos da vice-prefeitura da capital, para onde se elegera meses antes em 2008. Wallace faleceu. Carlos e Fausto foram eleitos, respectivamente, deputado federal e estadual em 2010.

Análise do sociólogo David Spencer: “Rejeição mostra um esgotamento”

De fato, os resultados das eleições deste ano foram muito surpreendentes. Observamos várias indicações de uma mudança no comportamento do eleitor. Mas, essa mudança não chega a ser tão substantiva, uma vez que essa mudança de postura do eleitorado amazonense sinaliza ao mesmo tempo para a rejeição de alguns personagens que apresentam programas de apelo social muito forte, mas ainda elegeu uma Assembleia conservadora, por exemplo. Esses programas tem caráter extremamente sensacionalista.

Os personagens procuram exercer uma dominação simbólica e política sobre o eleitorado, apelando para questões que são cruciais na vida do eleitor, como é o caso da segurança pública, mas também como é o caso da segurança alimentar, o transporte público, mas especialmente a segurança pública, porque provoca uma espécie de desordem e caos social – quando a liberdade e a vida são vistas como algo comprometido. Esse tipo de político que usa essa temática na televisão não faz uma abordagem qualitativa e crítica sobre essas questões sociais, mas tão somente abordagem eleitoreira e bastante pobre. A rejeição desses candidatos pelo eleitorado mostra um certo esgotamento desse tipo de conduta e abordagem. Uma abordagem despropositada, desproporcional e desqualificada sobre as questões sociais, entre elas a segurança pública. Não apenas aqueles que tinham mandato perderam como aqueles que tinham essa plataforma não conseguiram alcançar mandato. Isso é uma resposta bastante positiva do eleitorado.

Essas figuras exploraram por muitos anos esses temas, mas nunca enfrentaram de fato as problemáticas de maneira propositiva, crítica e séria junto ao Governo do Estado e à União. Usando-as apenas para exercer essa dominação simbólica e política sobre o eleitorado. Isso foi sendo observado pelo eleitor como uma forma de manipulação do imaginário e de controle da população. O eleitorado foi percebendo que essas figuras políticas não representam necessariamente uma alternativa, uma forma de contribuição para o debate e para tomada de decisão sobre soluções.

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