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Cotidiano
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População do Amazonas ainda padece com Internet cara, falha e lenta

No mundo cada vez mais digital, o Amazonas é um exemplo de limitação do serviço. Na maioria dos municípios a população tem acesso precário à rede mundial de computadores. 11/10/2017 às 07:54 - Atualizado em 11/10/2017 às 11:17
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Até em Manaus é difícil encontrar alguém que não tenha uma experiência ruim (Foto: Arquivo AC)
Silane Souza Manaus (AM)

O Brasil é o quarto país do mundo com maior número absoluto de usuários de Internet. Contudo, apesar da crescente conectividade, o uso da banda larga ainda é muito limitado no País, onde o acesso permanece muito caro para a maior parte da população, e mesmo aqueles que têm acesso à banda larga tendem a experimentar velocidades baixas de download e upload, o que limita as atividades online. A conclusão é de um novo relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), divulgado no último dia 3.

Se a situação do País como um todo é ruim, nos estados da região Norte o problema é ainda pior. O Amazonas é um exemplo. Na maioria dos municípios a população tem acesso precário à rede mundial de computadores. Até em Manaus é difícil encontrar alguém que não tenha uma experiência ruim com a velocidade da Internet para relatar.  A vendedora Taiana Andrade, 33, é uma delas. “Teve uma vez que passei a tarde toda tentando fazer o trabalho escolar dos meus filhos devido à péssima qualidade da Internet”, afirmou.

Taiana disse que é contraditório o País ser um dos maiores índice de usuários do mundo e ter uma Internet sem qualidade, como a que é apresentada nos lares dos brasileiros. “Estamos muito atrasados e isso deveria ter mudado, ainda mais porque hoje tudo se faz pela Internet”, observou. “Tem dias que a Internet está ótima e  tem outros que não sei o que acontece que não dar para fazer nada. É uma situação muito complicada”, completou. 

A gerente de loja Cristiane Cardoso de Souza, 37, também concorda que a população deveria ter acesso a um melhor ao serviço, já que o número de usuários só aumenta. Era para termos um cenário bem diferente, pois utilizamos tanto. Mas não é o que acontece. Muitas vezes, quanto tento fazer alguma pesquisa em sites especializados e acabo desistindo por causa da lentidão. O que ainda é melhorzinho é o acesso às redes sociais pelo celular”, disse.

Dados nacionais

De acordo com o documento “Economia da Informação 2017: Digitalização, Comércio e Desenvolvimento” da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, o Brasil tinha 120 milhões de usuários de Internet em 2015, atrás dos EUA, com 242 milhões, da Índia, com 333 milhões, e da China, com 705 milhões.

Por aqui, os preços da banda larga fixa podem ser três vezes maiores que nos países desenvolvidos, enquanto o preço da banda larga móvel pode ser duas vezes maior, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT). Nos últimos anos, o crescimento das assinaturas de banda larga fixa foi menor que o da banda larga móvel em todas as regiões.

Anatel quer investimento privado

O vice-presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Igor de Freitas, ao participar do debate “Políticas públicas para um setor estruturante”, promovido durante o Painel Telebrasil 2017 no último dia 20, em Brasília (DF), destacou as dificuldades regionais do país para a ampliação da banda larga.  “Minha visão é mais liberal: as empresas precisam de flexibilidade para fazer suas escolhas, porque escolhas erradas podem fazer as empresas até saírem do mercado”, afirmou.

Segundo Igor de Freitas, existe uma escassez de recursos públicos, por isso considera ser “impossível uma política do filet sem osso, e o osso é grande mesmo, essa exigência é importante sim”. Ou seja, as empresas que querem atuar em locais atrativos, com grande potencial de lucro devem também atender às áreas mais distantes, remotas, de menor interesse que acabam oferecendo maior risco, por meio dos compromissos de abrangência exigidos nos editais de licitação da Anatel.

Para ele, são necessários investimentos privados. E completou: “não há como trabalhar com uma política rentável e deixar de lado uma que precisa ser desenvolvida ainda”.

Anderson Cavalcante, presidente da AAM

Os municípios do  Amazonas apresentam bem o cenário descrito pelo relatório da UNCTAD. Sem exceção, todos contam com uma Internet cara e ruim, de acordo com o presidente da Associação Amazonense de Municípios (AAM), Anderson Adriano Cavalcante. Nessas cidades, a Internet chega via rádio e satélite, com muita perda de sinal e  velocidade lenta.

O fato tem sido um desafio para a população e os gestores ainda mais. “Prestação de conta, Lei de Acesso à informação, entre muitos outros trabalhos da prefeitura tem que ser feitos pela Internet e com a que temos isso fica complicado. Muitas vezes, temos que trabalhar a noite para conseguir transmitir os dados”, afirmou.

Levar a banda larga para os municípios e melhorar a prestação de serviços a sociedade é um dos objetivos da AAM, conforme o presidente da entidade, que está em Brasília (DF), esta semana. "Estou conversando com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) para que esse sonho seja realizado. A saída é a banda larga via fibra óptica, mas ela só pode chegar aos municípios por meio de uma força conjunta”.

Pesquisador defende ‘Internet para Todos’

O professor e pesquisador Ricardo Barboza, do curso de engenharia da computação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), disse que a discrepância em relação ao número de usuários de Internet e a qualidade do serviço que é ofertado, conforme mostrou o novo relatório da UNCTAD, é muito grande. “Parece que estamos dez anos atrasado do resto do mundo”, afirmou. 

Em Manaus, segundo ele, a experiência com uma banda larga de melhor qualidade só foi possível a partir de 2009, com a chegada da fibra óptica pelo Linhão de Tucuruí disponibilizando 10 Mbps por segundo, anteriormente a velocidade máxima  era 1 Mbps. “Foi quando conseguimos ter uma velocidade a qual pudemos assistir vídeos de alta qualidade e definição em tempo real e outras aplicações que rodavam no resto do mundo”, comentou.

Atualmente, além do Linhão de Tucuruí, a banda larga chega à capital via interconexão de fibra óptica entre Manaus – Venezuela e Manaus – Porto Velho (RO) – Cuiabá (MT). No interior do Estado, a maior parte do acesso é via satélite, que tem velocidade limitada. Mas há o “Programa Amazônia Conectada”, em execução pelo Exército, que pretende levar Internet rápida e de baixo custo para cerca de quatro milhões de pessoas. 

De acordo com o Exército Brasileiro, no Amazonas, municípios como Coari, Tefé, Cucuí, Manacapuru, Novo Airão e Tabatinga já contam com a infraestrutura necessária para ter serviços como banda larga e rede 3G/4G. “O isolamento do Estado é um desafio para levar Internet de boa qualidade para as cidades que são muito distantes uma das outras. Somente fibra óptica pode trazer um serviço melhor e para a banda larga o País deveria ser todo fibrado”, afirmou Ricardo Barboza. 

Assim como programa federal “Luz para Todos”, o professor Ricardo Barbosa defende a criação do “Internet para Todos” para conectar as regiões mais isoladas do País. Ele ressaltou que onde se implanta uma rede de alta velocidade há melhoria na economia local. “Uma parte substancial do preço da Internet é imposto e o governo deveria deixar de cobrar, assim a Internet ficava mais barata e uma quantidade maior de pessoas teria acesso e melhor qualidade de vida com o incrementando da economia local”.

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