Terça-feira, 31 de Março de 2020
RISCO

População precisa ficar alerta para manuseio de alimentos vendidos na rua

Falta de higiene ou armazenamento errado pode causar intoxicação alimentar ou doenças graves como botulismo e cólera



1521612_3916C9BA-CEBD-4E21-9564-28F7F4618EB3.JPG O tucumã, muito consumido pelos amazonenses no “x-caboquinho”, nem sempre é descascado com a higiene necessária (Foto: Márcio Silva)
06/10/2019 às 07:00

A manipulação inadequada de alimentos, de higienização, armazenamento e o cozimento incorreto podem causar diversos riscos à saúde, que vão desde uma intoxicação alimentar até doenças de alta gravidade como botulismo e cólera.

Para se ter uma noção, de janeiro a julho deste ano, o Amazonas registrou 2.321 internações, em hospitais públicos, por diarréia e gastroenterite de origem infecciosa presumível e outras doenças infecciosas intestinais. O dado é do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde - DataSus, do Ministério da Saúde.



Quem deixou de consumir lanches em locais duvidosos foi o analista fiscal, Danilo de Oliveira Rodrigues, de 27 anos. Segundo ele, foi após consumir um pastel que o filho de 10 anos, Murilo Pereira Rodrigues, teve uma intoxicação alimentar que durou uma semana.

“Sempre íamos a um lugar que vende pastel, era comum irmos no fim de semana. O Murilo comeu pastel e sanduíche, até aí tudo bem. Em casa, no meio da madrugada, ele levantou e correu para o banheiro para vomitar. Foi a noite toda isso, vômito e diarréia. Levei ele ao médico no dia seguinte que confirmou a intoxicação alimentar”, disse.

“Ele levou uma semana pra ficar 100%, só no soro e medicamento”, afirmou ele, que após o ocorrido, prepara o lanche do filho em casa. “Depois disso, a coisa mais difícil foi levar ele para comer fora de casa. Não deixei de levar, mas é bem raro. Agora eu mesmo faço os lanches para ele”.

A mesma situação aconteceu com a bailarina e coreógrafa Adriana Goes, 37, que após ingerir uma tapioca com queijo coalho em uma banquinha de café da manhã, no Centro, passou dias internada em um hospital.

“Quando eu vi o homem fritando o queijo na mesma chapa que o ovo, e não limpava aquilo, o que passou pela minha cabeça era que eu iria passar mal. Em meia hora que comi, foi exatamente o que aconteceu. Nunca tinha vomitado tanto na minha vida quanto naquele dia. Foi uma infecção severa que eu tive. Fui tratada com antibiótico e fiquei internada durante uma semana”, contou.

A médica gastroenterologista, Arlene Pinto, afirma que, em geral, os alimentos contaminados ocasionam infecções por bactérias principalmente pela Salmonela, E. Escherichia e Staphylococcus, vírus e outros parasitas. De acordo com ela, os alimentos que mais possuem risco de contaminação são os hortifrútis, ovos e água.

“A incubação de bactéria varia de 1 a 2 dias, no máximo 7 dias. O indivíduo contaminado pode sentir náuseas, vômitos, dor abdominal, falta de apetite e febre. Nesse sentido, a primeira medida a fazer é hidratar-se, porém, em geral, crianças, idosos e imunodeprimidos necessitam de maior atenção”. A médica aconselha a população a se certificar se o ambiente fornece alimento com qualidade e destaca o que fazer após comprar hortifrútis.

Infecções e tratamentos

“O consumo de água e alimentos deve seguir padrões, pois quando contaminados, podem levar a doenças que causam a morte. Hortifrútis devem ser lavados e podem ser desinfectados com solução de hipoclorito. Alimentos prontos para o consumo devem ficar sob temperatura adequada, as pessoas precisam checar o prazo de validade e lavar ovos com água potável”, afirmou Arlene.

Fundação de vigilância em saúde faz alerta

Para as áreas mais afastadas, é comum o produtor retirar frutos sem antes inspecionar se há algum inseto em volta. Nesse sentido, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS/AM) alerta os produtores para que tenham atenção ao retirar frutos como açaí, buriti e patauá.

“O açaí, o suco de patauá, o buriti e outros sucos regionais, fazem parte da cultura popular das pessoas tanto nas regiões bem afastadas no interior do Estado como na capital, e a produção desse alimento precisa de uma série de observações por parte dessas pessoas por que elas produzem os sucos de maneira muito artesanal e o inseto está presente no meio ambiente”, explica o gerente de Produtos do Departamento de Vigilância Sanitária (Devisa) da FVS-AM, Jackson Alagoas.

Quando não realizada de forma correta a manipulação desses produtos podem ocasionar surtos de Doença de Chagas Aguda de Transmissão Oral, como já aconteceu nos municípios de Barreirinha e Uarini. A diença é causada por um protozoário conhecido por Trypanosoma cruzi, transmitido pela ingestão de alimento contaminado com os parasitas presentes nas fezes dos insetos vetores

Curso é ofertado a ambulantes, diz Visa

O perigo pode estar em qualquer lugar, em uma lanchonete, na barraquinha de café da manhã, nas tirinhas de tucumã descascadas pelos feirantes e ensacoladas em plásticos, na poupa do açaí. Todo cuidado ainda é pouco quanto às formas de consumo dos alimentos.

Em comércios de rua e ambulantes, a Visa Manaus da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), afirma que atua em apoio a Secretaria Municipal de Agricultura, Abastecimento, Centro e Comercio Informal (Semacc), com pareceres técnicos e fiscalização em conjunto. Outra atividade são as capacitações ministradas aos ambulantes, segundo a secretaria, realizada todo o mês.

“Oferecemos também tanto para os ambulantes quanto para o comércio informal estruturado, capacitações que é o processo educativo. Nós ministramos palestras sobre as boas práticas da manipulação de alimentos, higiene das mãos, procedência do alimento, conservação e os riscos de transmissão de doença. Nós damos palestras mensalmente e sob demanda das associações ou das feiras”, afirmou o doutor em Ciência do Alimento, Augusto Kluczkovski, fiscal da Visa Manaus.

Em relação a lei de Liberdade Econômica, que busca desburocratizar as atividades econômicas no país, sancionada em setembro deste ano, que destaca pontos como a flexibilização da emissão de alvarás e licenças para negócios de baixo risco, Augusto Kluczkovski afirma que com a simplificação, a população se torna um aliado necessário da vigilância. “A liberdade econômica até exime o estabelecimento de ter um licenciamento prévio sanitário, mas se houver uma denúncia, se o consumidor verificar algum problema nos procedimentos, esse estabelecimento vai precisar ser inspecionado”, destacou.

“Talvez seja até um facilitador para a vigilância, tanto para os comerciantes quanto para o consumidor, por que hoje, o número de estabelecimentos que detém a licença sanitária no município do tamanho de Manaus é absurdamente grande em relação ao número de fiscais que é pequeno para dar conta atualmente disso”, ressaltou ainda.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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